N = 16640
correlação(MedInc, MedHouseVal) = 0.672
Regressão Linear e Máxima Verossimilhança
Aula 5 — Por Que Mínimos Quadrados É Máxima Verossimilhança Sob Ruído Gaussiano
1 Abertura — Da Estrutura de Três Peças a um Alvo Contínuo
A Revisão 1 revisou as quatro primeiras aulas do curso e mostrou que, por trás da fachada de “algoritmos diferentes” (Beta e limiar, Naive Bayes, árvores, CV/Bootstrap), havia sempre a mesma estrutura de três peças: uma distribuição assumida sobre os dados, uma verossimilhança usada para ajustá-la, e uma decisão fundamentada em risco. A aula terminou anunciando exatamente o que faltava: em nenhuma das quatro lentes a verossimilhança foi construída sobre um alvo contínuo ligado linearmente aos atributos — sempre foi sobre uma densidade unidimensional, uma fatoração de independência, ou uma proporção categórica numa folha.
Hoje fechamos essa lacuna e abrimos a “Parte 2: A História Linear Paramétrica” do curso. O objeto de hoje — Regressão Linear — é, à primeira vista, o modelo mais simples que existe: ajustar uma reta (ou, em mais dimensões, um hiperplano) que atravesse uma nuvem de pontos. Mas por trás dessa simplicidade geométrica mora exatamente a mesma estrutura distribuição \(\to\) verossimilhança \(\to\) decisão da Revisão 1 — só que, desta vez, vamos provar algebricamente a conexão entre a versão geométrica (mínimos quadrados) e a versão estatística (máxima verossimilhança sob ruído gaussiano), em vez de apenas apontá-la.
O roteiro de hoje, em quatro perguntas:
- Geometricamente, o que significa “a melhor reta” — e por que elevar o erro ao quadrado, em vez de somar os erros diretamente ou usar valor absoluto?
- Como escrever esse problema em notação matricial, e por que a solução tem uma forma fechada exata (as “equações normais”)?
- O que muda se, em vez de só minimizar um erro, assumirmos uma história probabilística completa — ruído gaussiano em torno da reta — e construirmos a verossimilhança dessa história?
- Por que maximizar essa verossimilhança é, algebricamente, minimizar a soma de quadrados — e o que essa coincidência revela sobre o resto do curso?
O problema motivador. California Housing já apareceu na Aula 3 — MedInc (renda mediana da região, em dezenas de milhares de dólares) e HouseAge (idade mediana dos imóveis) foram usados como atributos de uma árvore. Hoje usamos MedInc para prever MedHouseVal (preço mediano do imóvel, em centenas de milhares de dólares) diretamente — um alvo contínuo, não mais uma classe. Olhando para a nuvem de pontos completa (\(N=16\,640\) regiões), a pergunta é simples de fazer e nada óbvia de responder com precisão: qual é a melhor reta que passa por essa nuvem, e o que “melhor” quer dizer aqui?
1.1 Pergunta
- □ Duas retas que passam pelo mesmo ponto médio \((\bar x,\bar y)\) da nuvem de dados são necessariamente igualmente boas, pois ambas capturam a tendência central dos dados.
- □ Se todos os pontos da nuvem estivessem exatamente sobre uma única reta (sem nenhum ruído), qualquer critério razoável de “melhor reta” — soma de quadrados, soma de valores absolutos, ou até maior desvio único — apontaria para essa mesma reta.
- □ Um termostato que tenta prever a temperatura de amanhã a partir da temperatura de hoje enfrenta exatamente o mesmo problema estrutural de “ajustar a melhor reta” que o preço de imóveis enfrenta aqui, ainda que o contexto seja completamente diferente — e por isso a inclinação ótima nesse problema seria necessariamente próxima de 1 (a temperatura de amanhã imita quase exatamente a de hoje), assim como aqui a inclinação relaciona renda a preço de forma direta.
- □ Se decidíssemos julgar “melhor reta” pela soma dos desvios (não ao quadrado, sem valor absoluto) entre pontos e reta, qualquer reta que passasse pela média dos dados \((\bar x,\bar y)\) teria soma de desvios exatamente zero — inclusive retas claramente ruins, giradas em ângulos absurdos.
2 Intuição — A Ideia Geométrica de Mínimos Quadrados
Antes de qualquer matriz, vale fixar a ideia em sua forma mais simples. Para cada imóvel \(i\), a reta candidata prediz \(\hat y_i = \beta_0+\beta_1 x_i\); o resíduo é a diferença \(e_i = y_i-\hat y_i\) entre o valor real e o valor predito. A pausa ativa que acabamos de resolver já revelou o problema de somar os \(e_i\) diretamente: o resultado é zero para qualquer reta que passe pela média dos dados, boa ou ruim, porque resíduos positivos e negativos se cancelam.
A solução clássica é somar o quadrado dos resíduos, \(\sum_i e_i^2\), e escolher \(\beta_0,\beta_1\) que minimizem essa soma. O quadrado resolve o problema do cancelamento (todo termo é não-negativo) e tem duas vantagens adicionais que vão importar mais adiante: é diferenciável em toda parte (ao contrário do valor absoluto, que tem um “bico” em zero, complicando a busca pelo mínimo), e penaliza desvios grandes desproporcionalmente mais que desvios pequenos — um resíduo de \(2\) pesa quatro vezes mais que um resíduo de \(1\), não duas.
A figura mostra \(45\) imóveis reais (amostra para não poluir o gráfico) com seus resíduos verticais em relação à reta que vamos justificar como “a melhor” ao longo desta aula. Note que a reta não passa exatamente por nenhum ponto — isso é esperado: com ruído genuíno nos dados, nenhuma reta única acerta todos os pontos, e o objetivo nunca foi acertar todos, e sim minimizar o total de erro ao quadrado.
3 Bloco 1 — Formalização: RSS, Equações Normais e Projeção
Generalizando a intuição anterior para \(p\) atributos e \(N\) observações, organizamos os dados numa matriz de projeto \(X\), de dimensão \(N\times(p{+}1)\): cada linha é um imóvel, a primeira coluna é constante igual a \(1\) (o intercepto), e as demais colunas são os atributos. Por extenso, com \(x_{ij}\) denotando o valor do atributo \(j\) no imóvel \(i\):
\[ X = \begin{pmatrix} 1 & x_{11} & x_{12} & \cdots & x_{1p} \\ 1 & x_{21} & x_{22} & \cdots & x_{2p} \\ \vdots & \vdots & \vdots & \ddots & \vdots \\ 1 & x_{N1} & x_{N2} & \cdots & x_{Np} \end{pmatrix}. \]
A coluna de \(1\)’s não é um atributo real — é um artifício algébrico. Sem ela, o modelo seria \(f(x_i)=\beta_1x_{i1}+\cdots+\beta_px_{ip}\), uma combinação linear forçada a passar pela origem. Multiplicando essa coluna constante por \(\beta_0\), o produto \(X\beta\) passa a incluir o termo \(\beta_0\cdot 1=\beta_0\) em toda linha — o intercepto vira só mais uma coordenada de \(\beta\), e \(f(x_i)=\beta_0+\beta_1x_{i1}+\cdots+\beta_px_{ip}\) sai de um único produto matricial, sem precisar somar \(\beta_0\) à parte. O vetor de coeficientes é \(\beta=(\beta_0,\beta_1,\ldots,\beta_p)^T\), e a predição para todos os \(N\) imóveis de uma vez é o produto matricial \(X\beta\). Seguindo a notação de ESL (Hastie, Tibshirani & Friedman), a soma de quadrados dos resíduos é
\[ \text{RSS}(\beta) = \sum_{i=1}^N \big(y_i - f(x_i)\big)^2 = \lVert y - X\beta\rVert^2. \]
Como o próprio livro descreve o critério (ESL, §3.2, p. 44, tradução nossa): “o método de estimação mais popular é mínimos quadrados, no qual escolhemos os coeficientes \(\beta=(\beta_0,\beta_1,\ldots,\beta_p)^T\) para minimizar a soma residual de quadrados \(\text{RSS}(\beta)=\sum_{i=1}^N(y_i-f(x_i))^2\).”
Derivando a solução. \(\text{RSS}(\beta)\) é uma função quadrática (logo convexa) de \(\beta\) — diferenciando em relação a \(\beta\) (ESL, §3.2, p. 45, tradução nossa):
“Diferenciando em relação a \(\beta\) obtemos \(\partial\text{RSS}/\partial\beta=-2X^T(y-X\beta)\) […] Assumindo (por enquanto) que \(X\) tem posto de coluna completo, e portanto \(X^TX\) é positiva definida, igualamos a primeira derivada a zero \(X^T(y-X\beta)=0\) para obter a solução única \(\hat\beta=(X^TX)^{-1}X^Ty\).”
Essas são as chamadas equações normais. Não são um truque isolado: o PRML chega ao mesmo lugar por outro caminho (o gradiente da log-verossimilhança gaussiana, que vamos percorrer no Bloco 3), e nomeia o mesmo resultado (PRML, §3.1.1, p. 142, tradução nossa): “resolvendo para \(w\) obtemos \(w_{\text{ML}}=(\Phi^T\Phi)^{-1}\Phi^Tt\), conhecidas como as equações normais para o problema de mínimos quadrados.”
Com \(p=1\) atributo (nosso exemplo de hoje), \(X\beta\) é uma reta no plano \((x,y)\). Com \(p>1\) atributos, exatamente a mesma equação \(\hat\beta=(X^TX)^{-1}X^Ty\) vale sem nenhuma mudança — só que agora \(X\beta\) descreve um hiperplano no espaço de \(p{+}1\) dimensões. Um ajuste rápido usando os \(8\) atributos do California Housing (não só MedInc) chega a \(R^2\approx0{,}584\), contra \(R^2\approx0{,}451\) usando só MedInc — mais atributos explicam mais variação, mas a equação que os combina é a mesma.
O diagrama redesenha a interpretação geométrica que PRML (§3.1.2, p. 143) e ESL (§3.2, p. 46) descrevem de formas equivalentes. No PRML, cada coluna da matriz de projeto é vista como um vetor \(\varphi_j\) num espaço de dimensão \(N\) (tradução nossa): “a esse ponto, é instrutivo considerar a interpretação geométrica da solução de mínimos quadrados […] a solução de mínimos quadrados para \(w\) corresponde à escolha de \(y\) que está no subespaço \(\mathcal S\) mais próxima de \(t\) […] antecipamos que essa solução corresponde à projeção ortogonal de \(t\) sobre o subespaço \(\mathcal S\).” O ESL descreve a mesma figura assim (tradução nossa, legenda da Fig. 3.2 do livro): “o vetor de resultados \(y\) é projetado ortogonalmente sobre o hiperplano gerado pelos vetores de entrada \(x_1\) e \(x_2\) […] essa ortogonalidade está expressa em (3.5), e a estimativa resultante \(\hat y\) é, portanto, a projeção ortogonal de \(y\) sobre esse subespaço.”
Aqui, com apenas MedInc como atributo, \(\mathcal S\) é gerado por só dois vetores: \(\varphi_1\) (a coluna constante do intercepto) e \(\varphi_2\) (a coluna com os valores de MedInc de cada imóvel), ambos vetores em \(\mathbb R^N\) com \(N=16\,640\) coordenadas — uma por imóvel. \(\hat y\) precisa estar dentro desse subespaço porque é, por definição, uma combinação linear das colunas de \(X\) (\(\hat y=X\hat\beta=\hat\beta_0\varphi_1+\hat\beta_1\varphi_2\)); não existe combinação de \(\varphi_1,\varphi_2\) que produza qualquer vetor fora de \(\mathcal S\). O ponto de \(\mathcal S\) mais próximo do vetor observado \(y\) (a distância euclidiana em \(\mathbb R^N\) é exatamente \(\sqrt{\text{RSS}}\)) é a projeção ortogonal — e é exatamente isso que a equação normal calcula.
beta_hat (equações normais) = (0.4707, 0.4076)
RSS = 11710.64
R^2 = 0.451
Sobre a base completa de treino (\(N=16\,640\)), a equação normal dá \(\hat\beta=(0{,}4707,\,0{,}4076)\): cada aumento de US$\(10\) mil na renda mediana da região está associado a um acréscimo médio de US$\(40{,}76\) mil no preço mediano do imóvel, com um intercepto de US$\(47{,}07\) mil. O ajuste explica \(R^2\approx0{,}451\) da variância de MedHouseVal — nem perfeito, nem inútil: a correlação entre as duas variáveis é \(0{,}672\), moderada a forte, mas claramente longe de \(1\) (a figura mostra uma nuvem larga em torno da reta, não uma linha fina de pontos). Guarde \(\hat\beta\) e \(\text{RSS}\approx11\,710{,}64\) — esses números vão reaparecer, sem nenhuma conta nova, quando provarmos no Bloco 3 que a máxima verossimilhança gaussiana leva exatamente a esse mesmo ponto.
- □ Se, em vez de minimizar \(\lVert y-X\beta\rVert^2\), o critério fosse minimizar \(\lVert y-X\beta\rVert\) (a distância, sem elevar ao quadrado), o mesmo \(\hat\beta\) ainda resolveria o problema, porque minimizar uma distância e minimizar seu quadrado são operações que sempre produzem o mesmo ponto de mínimo (a raiz quadrada é crescente para distâncias não-negativas).
- □ Se as colunas de \(X\) fossem linearmente dependentes (por exemplo, uma coluna sendo o dobro exato da outra), \(X^TX\) deixaria de ser invertível, e a equação \(\hat\beta=(X^TX)^{-1}X^Ty\) deixaria de ter solução única — mas a projeção \(\hat y=X\hat\beta\) continuaria bem definida e única.
- □ Num algoritmo de recomendação que aproxima as avaliações de um usuário como combinação linear de “perfis latentes” pré-definidos, a mesma lógica de projeção ortogonal sobre o subespaço gerado pelos perfis ainda encontraria a melhor aproximação, no mesmo sentido de menor distância euclidiana — e essa melhor aproximação seria sempre única, mesmo que os perfis latentes fossem linearmente dependentes entre si.
- □ Como a equação normal \(X^T(y-X\hat\beta)=0\) garante que o resíduo é ortogonal a todas as colunas de \(X\), conclui-se que o resíduo \(y-X\hat\beta\) é necessariamente o vetor nulo sempre que \(X\) tiver pelo menos uma coluna.
Demonstração: por que a projeção é ortogonal. A resposta do exercício afirmou a ortogonalidade, mas vale demonstrá-la a partir da própria equação normal, em vez de apenas invocá-la. Partindo de \(X^T(y-X\hat\beta)=0\) (Bloco 1) e chamando o vetor de resíduos de \(r=y-X\hat\beta\), a igualdade é \(X^Tr=0\). Cada linha de \(X^T\) é uma coluna \(\varphi_j\) de \(X\) transposta, então \(X^Tr=0\) é, linha a linha, o sistema de \(p{+}1\) equações escalares
\[ \varphi_j^Tr = 0, \qquad j=1,\ldots,p{+}1, \]
ou seja, \(r\) é ortogonal a cada coluna de \(X\) individualmente. O passo que falta é estender isso de “ortogonal às colunas” para “ortogonal a todo o subespaço \(\mathcal S\)”: como qualquer \(v\in\mathcal S\) é, por definição de subespaço gerado, uma combinação linear \(v=\sum_{j=1}^{p+1}c_j\varphi_j\) para algum \(c\in\mathbb R^{p+1}\), o produto interno de \(r\) com \(v\) é
\[ r^Tv = r^T\Big(\sum_{j=1}^{p+1}c_j\varphi_j\Big) = \sum_{j=1}^{p+1}c_j\,(r^T\varphi_j) = \sum_{j=1}^{p+1}c_j\cdot0 = 0, \]
por linearidade do produto interno — cada termo da soma já é zero pela equação normal, então a soma inteira é zero, para qualquer escolha de \(c\). Ou seja: \(r\) não é ortogonal só às colunas que geram \(\mathcal S\), é ortogonal a todo vetor de \(\mathcal S\), sem exceção. É exatamente essa propriedade — não uma coincidência do desenho — que faz de \(\hat y=X\hat\beta\) a projeção ortogonal de \(y\) sobre \(\mathcal S\), e que a resposta do exercício já usou (via Pitágoras) para justificar por que nenhum outro ponto de \(\mathcal S\) pode estar mais perto de \(y\).
4 Bloco 2 — O Modelo de Ruído Gaussiano Homocedástico
Até aqui, tudo foi álgebra: minimizar uma soma de quadrados não pressupõe nenhuma distribuição de probabilidade — funciona mesmo que os dados não tenham vindo de nenhum “processo aleatório” reconhecível (ESL já observa isso, p. 45: “mínimos quadrados é intuitivamente satisfatório não importa como os dados surjam”). Mas, seguindo o mesmo padrão de todas as aulas anteriores (Revisão 1, Bloco 5), queremos ir além do critério algébrico e perguntar: que história estatística sobre como os dados foram gerados tornaria mínimos quadrados a escolha certa, não apenas conveniente?
Seguindo a regra desta disciplina de anunciar premissas antes de usá-las, o modelo assumido hoje é (PRML, §3.1.1, p. 140, tradução nossa):
“Como antes, assumimos que a variável-alvo \(t\) é dada por uma função determinística \(y(\mathbf x,\mathbf w)\) com ruído gaussiano aditivo, de forma que \(t=y(\mathbf x,\mathbf w)+\epsilon\), onde \(\epsilon\) é uma variável aleatória gaussiana de média zero com precisão (variância inversa) \(\beta\). Assim podemos escrever \(p(t\mid\mathbf x,\mathbf w,\beta)=\mathcal N(t\mid y(\mathbf x,\mathbf w),\beta^{-1})\).”
Traduzindo para a notação desta disciplina (usamos \(\sigma^2\) no lugar da precisão \(\beta\) do PRML, para não colidir com o \(\beta\) que já reservamos para os coeficientes da reta — mais uma vez, uma colisão de símbolos entre livros diferentes, do tipo que a Revisão 1 já avisou existir), as premissas completas são:
- Linearidade condicional: \(\mathbb E[Y\mid X=x]=\beta^Tx\) — a média da resposta é exatamente a reta/hiperplano.
- Ruído gaussiano aditivo: \(Y=\beta^TX+\epsilon\), com \(\epsilon\sim\mathcal N(0,\sigma^2)\).
- Homocedasticidade: \(\sigma^2\) é a mesma constante para todo valor de \(x\) — o “tamanho típico” do ruído não muda com a renda, a idade do imóvel, ou qualquer outro atributo.
- Independência entre observações: os erros \(\epsilon_1,\ldots,\epsilon_N\) são mutuamente independentes.
Juntas, essas quatro premissas equivalem a dizer \(Y\mid X=x \sim \mathcal N(\beta^Tx,\sigma^2)\) — uma gaussiana cuja média se desloca com \(x\), mas cuja variância nunca muda.
Construindo a verossimilhança, passo a passo. Com \(N\) observações \((x_i,y_i)\) e a premissa de independência (4), a densidade conjunta dos dados é o produto das densidades individuais (PRML, §3.1.1, p. 141, tradução nossa):
“Considere agora um conjunto de dados de entradas \(X=\{\mathbf x_1,\ldots,\mathbf x_N\}\) com valores-alvo correspondentes \(t_1,\ldots,t_N\). […] Assumindo que esses pontos de dados são obtidos independentemente da distribuição (3.8), obtemos a seguinte expressão para a função de verossimilhança, que é uma função dos parâmetros ajustáveis \(\mathbf w\) e \(\beta\), na forma \(p(\mathbf t\mid X,\mathbf w,\beta)=\prod_{n=1}^N\mathcal N(t_n\mid\mathbf w^T\boldsymbol\phi(\mathbf x_n),\beta^{-1})\).”
Na notação de \(\beta\)-coeficientes e \(\sigma^2\)-variância desta aula:
\[ L(\beta,\sigma^2) = p(y_1,\ldots,y_N\mid X,\beta,\sigma^2) = \prod_{i=1}^N \mathcal N(y_i\mid\beta^Tx_i,\sigma^2) = \prod_{i=1}^N \frac{1}{\sqrt{2\pi\sigma^2}}\exp\left\{-\frac{(y_i-\beta^Tx_i)^2}{2\sigma^2}\right\}. \]
Produtos de exponenciais são desconfortáveis de derivar; tomamos o logaritmo (uma função estritamente crescente, então o ponto de máximo não muda) para transformar o produto em soma:
\[ \ell(\beta,\sigma^2) = \ln L(\beta,\sigma^2) = \sum_{i=1}^N \left[-\tfrac12\ln(2\pi\sigma^2) - \frac{(y_i-\beta^Tx_i)^2}{2\sigma^2}\right] = -\frac N2\ln(2\pi) - N\ln\sigma - \frac{1}{2\sigma^2}\sum_{i=1}^N(y_i-\beta^Tx_i)^2. \]
Note que \(\sum_{i=1}^N(y_i-\beta^Tx_i)^2\) é exatamente \(\text{RSS}(\beta)\) do Bloco 1 — a mesma quantidade, chegando por um caminho completamente diferente (uma história sobre ruído aleatório, não um critério algébrico arbitrário). Essa coincidência não é acidental: é o que o Bloco 3 vai provar.
A figura torna visível a diferença de perspectiva entre o Bloco 1 e o Bloco 2. No Bloco 1, a reta era “o ponto mais próximo” de \(y\) dentro de um subespaço — uma afirmação puramente geométrica. Aqui, a mesma reta é a sequência de médias condicionais: para cada valor de renda \(x\), o modelo afirma que os preços observados são amostras de uma gaussiana centrada em \(\hat\beta^Tx\) com o mesmo desvio-padrão \(\hat\sigma=0{,}8389\) em toda parte (as quatro “corcovas” desenhadas têm exatamente a mesma largura) — essa largura constante é, literalmente, a homocedasticidade desenhada.
- □ Se \(\sigma^2\) dependesse de \(x_n\) (heterocedasticidade), a verossimilhança conjunta ainda seria o produto das densidades individuais (assumindo observações independentes), mas cada fator teria sua própria variância \(\sigma^2(x_n)\) em vez de uma variância comum — mudando a forma da log-verossimilhança final.
- □ No limite em que \(\sigma^2\to 0\), a densidade gaussiana \(\mathcal N(y_n\mid\beta^Tx_n,\sigma^2)\) se concentra inteiramente sobre o valor predito \(\beta^Tx_n\), e o modelo probabilístico se aproxima do caso determinístico \(y=\beta^Tx\) sem ruído algum.
- □ Num sensor de temperatura cujo erro de medição tem desvio-padrão constante independentemente da temperatura real medida, a suposição de homocedasticidade se aplicaria de forma genuína — e, uma vez verificada genuína para esse sensor, permaneceria válida para qualquer outro sensor do mesmo fabricante, sem necessidade de checagem individual.
- □ Como a verossimilhança de hoje assume que os erros são gaussianos, qualquer conjunto de dados cujos erros não sejam exatamente gaussianos torna a estimativa de mínimos quadrados \(\hat\beta\) inválida ou inutilizável.
5 Bloco 3 — O Teorema Central: OLS É MLE Sob Normalidade
Chegamos ao pagamento matemático da aula. Temos a log-verossimilhança do Bloco 2,
\[ \ell(\beta,\sigma^2) = -\frac N2\ln(2\pi) - N\ln\sigma - \frac{1}{2\sigma^2}\text{RSS}(\beta), \]
e queremos os valores de \(\beta\) e \(\sigma^2\) que a maximizam. A observação central — a mesma que o PRML nomeia explicitamente (§3.1.1, p. 141, tradução nossa) — é:
“Tendo escrito a função de verossimilhança, podemos usar máxima verossimilhança para determinar \(\mathbf w\) e \(\beta\). Considere primeiro a maximização em relação a \(\mathbf w\). […] vemos que a maximização da função de verossimilhança sob uma distribuição de ruído gaussiano condicional para um modelo linear é equivalente a minimizar uma função de erro de soma de quadrados dada por \(E_D(\mathbf w)\).”
A prova, passo a passo. Observe \(\ell(\beta,\sigma^2)\) como função só de \(\beta\), com \(\sigma^2\) momentaneamente fixo: os dois primeiros termos (\(-\frac N2\ln(2\pi)\) e \(-N\ln\sigma\)) não dependem de \(\beta\) — são constantes para efeitos da maximização em \(\beta\). O único termo que depende de \(\beta\) é
\[ -\frac{1}{2\sigma^2}\text{RSS}(\beta), \]
e, como \(\sigma^2>0\), o fator \(\frac{1}{2\sigma^2}\) é uma constante positiva. Maximizar \(-c\cdot\text{RSS}(\beta)\) para uma constante positiva \(c\) é, por definição, minimizar \(\text{RSS}(\beta)\). Ou seja:
\[ \hat\beta_{\text{MLE}} = \arg\max_\beta \ell(\beta,\sigma^2) = \arg\min_\beta \text{RSS}(\beta) = \hat\beta_{\text{OLS}}. \]
Isso não é uma coincidência numérica nem uma analogia — é uma identidade algébrica: o mesmo tipo de identidade que a Aula 3 já tinha provado para árvores de regressão (\(\ell_\tau(y_\tau)\) gaussiana \(\to\) minimizar \(Q_\tau\)), agora estabelecida para o modelo linear completo, com a mesma prova do PRML confirmando (p. 142): “resolvendo para \(w\) obtemos \(w_{\text{ML}}=(\Phi^T\Phi)^{-1}\Phi^Tt}\)” — exatamente a mesma equação normal do Bloco 1, agora deduzida do gradiente da log-verossimilhança em vez do gradiente de RSS diretamente. Os dois caminhos (Bloco 1: minimizar RSS; Bloco 3: maximizar verossimilhança gaussiana) convergem, porque são algebricamente o mesmo problema.
Estimando \(\sigma^2\). Com \(\hat\beta_{\text{MLE}}=\hat\beta_{\text{OLS}}\) fixo, maximizamos \(\ell\) em relação a \(\sigma\): derivando \(-N\ln\sigma-\frac{1}{2\sigma^2}\text{RSS}(\hat\beta)\) em relação a \(\sigma\) e igualando a zero,
\[ -\frac N\sigma + \frac{\text{RSS}(\hat\beta)}{\sigma^3} = 0 \quad\Longrightarrow\quad \hat\sigma^2_{\text{MLE}} = \frac{\text{RSS}(\hat\beta)}{N}. \]
Como a Aula 3 já registrou para o caso gaussiano mais simples (uma única média, sem regressão), esse estimador é viesado para baixo: ele usa os mesmos dados para estimar \(N\) coisas (\(\beta\), via \(\text{RSS}\) minimizado) e depois medir a dispersão restante, o que sistematicamente subestima a variância verdadeira. O estimador não-viesado divide por \(N-p-1\) (graus de liberdade, descontando os \(p{+}1\) parâmetros de \(\beta\) já estimados) em vez de \(N\).
Verificação numérica. Álgebra à parte, podemos checar o resultado numericamente: maximizar \(\ell(\beta,\sigma^2)\) diretamente por busca numérica (sem usar a fórmula fechada em nenhum momento) e comparar com \(\hat\beta_{\text{OLS}}\) do Bloco 1.
def neg_log_verossimilhanca(params, x, y):
b0, b1, log_sigma = params
sigma = np.exp(log_sigma) # reparametriza p/ garantir sigma > 0
pred = b0 + b1 * x
n = len(y)
ll = (-n/2*np.log(2*np.pi) - n*np.log(sigma)
- np.sum((y - pred)**2) / (2*sigma**2))
return -ll
resultado = optimize.minimize(
neg_log_verossimilhanca, x0=[0.0, 0.0, 0.0], args=(x, y),
method="Nelder-Mead",
options={"xatol": 1e-10, "fatol": 1e-10, "maxiter": 40000, "maxfev": 40000},
)
b0_opt, b1_opt, log_sigma_opt = resultado.x
sigma_opt = np.exp(log_sigma_opt)
print(f"beta OLS (forma fechada) = ({beta_hat[0]:.8f}, {beta_hat[1]:.8f}), sigma = {sigma_mle:.8f}")
print(f"beta MLE (busca numérica) = ({b0_opt:.8f}, {b1_opt:.8f}), sigma = {sigma_opt:.8f}")
print(f"diferença máxima entre os dois caminhos: {max(abs(b0_opt-beta_hat[0]), abs(b1_opt-beta_hat[1]), abs(sigma_opt-sigma_mle)):.2e}")beta OLS (forma fechada) = (0.47068209, 0.40756945), sigma = 0.83890652
beta MLE (busca numérica) = (0.47068210, 0.40756945), sigma = 0.83890653
diferença máxima entre os dois caminhos: 1.80e-08
A busca numérica (scipy.optimize.minimize, método Nelder-Mead, sem gradiente analítico, partindo de \(\beta_0=\beta_1=0,\ \sigma=1\)) encontra \(\hat\beta=(0{,}47068210,\,0{,}40756945)\) e \(\hat\sigma=0{,}83890653\) — idênticos à forma fechada até a oitava casa decimal (diferença máxima \(\approx 1{,}8\times10^{-8}\), na faixa da própria precisão numérica do otimizador, não um erro sistemático). A prova algébrica do Bloco 3 não precisava dessa confirmação para ser válida, mas a confirmação numérica tem valor pedagógico próprio: mostra que o resultado teórico não é frágil a pequenas perturbações do procedimento de otimização, e que os mesmos números que apareceram “de graça” via álgebra linear no Bloco 1 reaparecem numa busca cega que nunca usou a fórmula fechada.
A superfície de log-verossimilhança, calculada numa grade de \(150\times150\) pontos \((\beta_0,\beta_1)\) com \(\sigma\) fixo no valor de MLE, tem um único pico — exatamente no ponto marcado com estrela, o mesmo \(\hat\beta\) da forma fechada e da busca numérica. A superfície é uma parabolóide invertida (RSS é quadrática em \(\beta\), e \(\ell\) é RSS com sinal trocado e escalado), o que garante que não existe nenhum outro máximo local escondido em algum canto do espaço de parâmetros — uma propriedade que problemas de otimização mais gerais (redes neurais, por exemplo) não têm.
- □ Se o ruído fosse Laplace (dupla-exponencial) em vez de gaussiano, maximizar a verossimilhança correspondente levaria a minimizar a soma dos valores absolutos dos resíduos, não a soma de quadrados — porque é a forma funcional específica da densidade gaussiana (\(\propto\exp(-\cdot^2)\)) que produz o termo quadrático.
- □ No limite em que \(N\to\infty\) com o modelo verdadeiro sendo exatamente linear e gaussiano, \(\hat\beta_{\text{MLE}}\) e \(\hat\sigma^2_{\text{MLE}}\) convergem para os valores populacionais verdadeiros, incluindo o viés de \(\hat\sigma^2_{\text{MLE}}\) (que usa \(N\) no denominador em vez de \(N-p-1\)), que desaparece assintoticamente.
- □ Num problema de classificação binária ajustado por máxima verossimilhança sob um modelo Bernoulli (fora do escopo desta aula, mas o mesmo princípio), o objeto que se maximiza também terá, por construção do modelo, um termo cuja otimização coincide com minimizar alguma função de erro específica daquela distribuição, não necessariamente a soma de quadrados — e, por essa razão, comparar diretamente o valor numérico da log-verossimilhança máxima entre o modelo gaussiano desta aula e esse modelo Bernoulli diria qual dos dois descreve melhor seus respectivos dados.
- □ Como a otimização numérica confirmou que o ponto de máximo da log-verossimilhança coincide com \(\hat\beta_{\text{OLS}}\), conclui-se que qualquer método de otimização numérica (incluindo os que não convergem corretamente) chegaria ao mesmo resultado, tornando a forma fechada desnecessária na prática.
6 Síntese e Limitações
O modelo de hoje repousa sobre quatro premissas (Bloco 2): linearidade condicional, ruído gaussiano aditivo, homocedasticidade e independência. Vale perguntar, com a mesma honestidade que a Aula 4 exigiu para números de validação: essas premissas se sustentam nos próprios dados usados hoje? A resposta, olhando os resíduos reais do ajuste, é só parcialmente.
Achado real 1 — censura no alvo. MedHouseVal é artificialmente truncado em \(5{,}00001\) (o valor máximo que a variável assume no dataset original, por decisão de quem o construiu) — \(747\) das \(16\,640\) observações de treino (\(4{,}49\%\)) estão exatamente nesse teto. Isso distorce qualquer estimativa de \(\beta_1\): os imóveis mais caros de verdade — provavelmente concentrados entre as regiões de renda mais alta — têm seu valor real escondido atrás do teto, empurrando a inclinação estimada para baixo do valor que seria observado sem censura.
Achado real 2 — heterocedasticidade real. Dividindo as observações em quartis de MedInc e medindo a variância dos resíduos em cada quartil:
Quartil de MedInc |
Renda média (US$10 mil) | Variância dos resíduos |
|---|---|---|
| 1º (mais baixo) | \(1{,}92\) | \(0{,}486\) |
| 2º | \(2{,}99\) | \(0{,}653\) |
| 3º | \(4{,}00\) | \(0{,}849\) |
| 4º (mais alto) | \(6{,}28\) | \(0{,}825\) |
A variância quase dobra do 1º para o 3º quartil — uma violação genuína e mensurável da premissa de homocedasticidade do Bloco 2, não uma possibilidade hipotética. Isso não torna o modelo inútil (o Gauss-Markov garante que \(\hat\beta_{\text{OLS}}\) continua não-viesado mesmo sem homocedasticidade), mas invalida a interpretação de \(\hat\sigma\) como “um único tamanho de erro” em toda a faixa de renda, e enfraquece garantias de inferência exata (intervalos de confiança, testes de hipótese) que dependeriam dessa premissa.
A ponte para a Aula 7. A estrutura de hoje — assumir uma distribuição, construir sua verossimilhança, mostrar que maximizá-la equivale a minimizar algum erro específico daquela distribuição — não é exclusiva da gaussiana. A Aula 7 troca a Gaussiana por uma Bernoulli (alvo binário, não contínuo) e mostra que a mesma receita produz, no lugar da soma de quadrados, a entropia cruzada — a função de erro por trás da Regressão Logística. O “prato” muda; a “receita” (distribuição \(\to\) verossimilhança \(\to\) erro que a maximização revela) é a mesma que hoje.
censura: 747/16640 = 0.0449
quartil 1: renda média=1.92, var(resíduo)=0.486
quartil 2: renda média=2.99, var(resíduo)=0.653
quartil 3: renda média=4.00, var(resíduo)=0.849
quartil 4: renda média=6.28, var(resíduo)=0.825
7 Fechamento
Voltando ao roteiro de abertura, uma frase cada:
- O que é “a melhor reta”: a que minimiza a soma de quadrados dos resíduos — elevar ao quadrado evita o cancelamento degenerado de somar resíduos com sinal, é diferenciável em toda parte, e penaliza desvios grandes desproporcionalmente mais.
- A notação matricial e sua solução fechada: \(\text{RSS}(\beta)=\lVert y-X\beta\rVert^2\) é minimizada por \(\hat\beta=(X^TX)^{-1}X^Ty\) — as equações normais —, que é também a projeção ortogonal de \(y\) sobre o subespaço gerado pelas colunas de \(X\).
- A história probabilística: assumir \(Y\mid X=x\sim\mathcal N(\beta^Tx,\sigma^2)\) (homocedástico, erros independentes) permite construir a verossimilhança dos dados como um produto de gaussianas, e sua log-verossimilhança como uma soma.
- Por que maximizar \(\equiv\) minimizar soma de quadrados: porque o único termo da log-verossimilhança que depende de \(\beta\) é \(-\frac{1}{2\sigma^2}\text{RSS}(\beta)\), e maximizar isso, com \(\sigma^2>0\) fixo, é minimizar \(\text{RSS}(\beta)\) — uma identidade algébrica, confirmada numericamente a \(10^{-8}\) nesta aula, não uma coincidência do caso gaussiano.
O que fica em aberto: o modelo de hoje assume ruído gaussiano homocedástico — a Seção de Limitações mostrou que os próprios dados usados hoje violam essa premissa (heterocedasticidade real, censura no alvo). A Aula 8 vai retomar \(\hat\beta_{\text{OLS}}\) deste modelo e mostrar que adicionar uma penalidade (Ridge/Lasso) equivale a assumir uma priori sobre \(\beta\) — o primeiro passo em direção ao raciocínio bayesiano. A Aula 9 vai decompor formalmente o erro esperado de qualquer estimador (incluindo o de hoje) em viés, variância e ruído irredutível — dando nome matemático ao trade-off que o viés de \(\hat\sigma^2_{\text{MLE}}\) já insinuou. E a Aula 7, logo a seguir, troca a Gaussiana por uma Bernoulli para tratar alvos binários pela mesma receita.