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Questões discursivas
Considere um ajuste de regressão linear simples, prevendo o preço mediano de imóveis (MedHouseVal) a partir da renda mediana da região (MedInc), no dataset California Housing — um modelo com apenas dois “vetores base”: \(\varphi_1\) (a coluna de intercepto, um vetor de uns) e \(\varphi_2\) (a coluna do atributo MedInc). Duas fontes clássicas descrevem a mesma ideia geométrica — a solução de mínimos quadrados como projeção ortogonal — usando notações ligeiramente diferentes: PRML escreve o subespaço gerado como \(\mathcal
S=\text{span}(\varphi_1,\ldots,\varphi_M)\); ESL descreve o mesmo objeto como o hiperplano gerado por \(x_0,\ldots,x_p\). Usando o ajuste MedInc\(\to\)MedHouseVal acima como exemplo concreto, explique o que os vetores \(\varphi_1,\varphi_2\) representam nesse ajuste específico, e por que \(\hat y\) precisa estar dentro do subespaço gerado por eles.
O estimador de máxima verossimilhança \(\hat\sigma^2_{\text{MLE}}=
\text{RSS}/N\) é viesado para baixo — o mesmo padrão de viés que aparece em qualquer estimador de variância obtido por máxima verossimilhança que primeiro estima uma média (ou, num modelo de regressão, um hiperplano) a partir dos mesmos dados usados depois para medir a dispersão em torno dela. Considere um ajuste de regressão linear ao California Housing (MedInc\(\to\)MedHouseVal, com \(2\) parâmetros: intercepto e inclinação) com \(N=16\,640\) observações e \(\text{RSS}\approx11\,710{,}64\) no ponto de ajuste ótimo. Calcule \(\hat\sigma^2_{\text{MLE}}\) e o estimador não-viesado \(\text{RSS}/(N-2)\), compare os dois valores numericamente, e explique por que a diferença relativa é tão pequena neste caso específico — e em que situação (em termos de \(N\) e do número de parâmetros) essa diferença deixaria de ser desprezível.
Num ajuste de regressão linear do preço de imóveis (MedHouseVal) a partir da renda mediana (MedInc) no dataset California Housing, a variância dos resíduos cresce sistematicamente com MedInc — de \(0{,}486\) no 1º quartil de renda a \(0{,}849\) no 3º quartil —, uma violação real da suposição de homocedasticidade (variância do ruído constante, igual para todas as observações). Considerando a construção usual da verossimilhança sob ruído gaussiano homocedástico (uma única variância \(\sigma^2\) comum a todas as observações — ver o bloco “Construção da Verossimilhança Conjunta” abaixo para a fórmula geral), explique exatamente qual passo da derivação deixaria de ser válido se \(\sigma^2\) dependesse de \(x\), e proponha (sem precisar resolver completamente) como a log-verossimilhança mudaria de forma.
Questões de Verdadeiro/Falso
Cada bloco de 4 itens trata do mesmo tema. A questão só é considerada correta se todos os 4 itens forem julgados corretamente (deixar em branco tem penalidade de 20% da nota da questão).
Nas questões desta seção, considere um ajuste de regressão linear \(Y\mid X=x\sim\mathcal N(\beta^Tx,\sigma^2)\) (ruído gaussiano homocedástico, observações independentes), com solução de mínimos quadrados \(\hat\beta=(X^TX)^{-1}X^Ty\) — que é também a projeção ortogonal de \(y\) sobre o subespaço \(\mathcal S\) gerado pelas colunas de \(X\).
- □ Se o vetor observado \(y\) já estivesse exatamente dentro do subespaço gerado pelas colunas de \(X\) (por exemplo, se os dados não tivessem ruído algum), a projeção \(\hat y\) coincidiria com o próprio \(y\), e o resíduo seria o vetor nulo.
- □ Se o número de colunas de \(X\) (incluindo o intercepto) fosse igual ao número de observações \(N\), e essas colunas fossem linearmente independentes, o subespaço \(\mathcal S\) ocuparia todo o espaço \(\mathbb R^N\), e o ajuste por mínimos quadrados reproduziria \(y\) exatamente, com resíduo nulo em todos os pontos.
- □ Num algoritmo de recomendação que aproxima as avaliações de um usuário como combinação linear de “perfis latentes” pré-definidos, a mesma lógica de projeção ortogonal sobre o subespaço gerado pelos perfis garante que a aproximação encontrada terá erro zero sempre que houver pelo menos dois perfis latentes disponíveis.
- □ Como o resíduo \(y-\hat y\) é ortogonal a cada coluna de \(X\) individualmente, ele é necessariamente ortogonal a qualquer vetor fora do subespaço \(\mathcal S\) também.
- □ Se todas as colunas de atributos de \(X\) (exceto o intercepto) fossem multiplicadas por uma mesma constante \(c\ne 0\) antes do ajuste, o vetor \(\hat\beta\) mudaria (os coeficientes correspondentes seriam divididos por \(c\)), mas a previsão \(\hat y=X\hat\beta\) e o RSS mínimo permaneceriam exatamente os mesmos.
- □ No limite em que \(X\) tem uma única coluna (só o intercepto, sem nenhum atributo), a equação normal \(X^T(y-X\hat\beta)=0\) se reduz a dizer que \(\hat\beta_0\) é exatamente a média amostral \(\bar y\).
- □ Num ajuste de regressão linear que busca prever o preço mediano de um imóvel (dataset California Housing) a partir da renda mediana da região, a mesma equação normal determinaria os coeficientes independentemente de qual atributo do dataset for usado como preditor — e a extrapolação da reta ajustada para valores de renda muito fora do intervalo observado no treino teria a mesma confiabilidade estatística que dentro do intervalo observado.
- □ Como \(\text{RSS}(\beta)\) é uma função quadrática (e portanto convexa) de \(\beta\), ela tem sempre um único mínimo global estritamente, mesmo quando as colunas de \(X\) são linearmente dependentes (\(X^TX\) singular).
- □ Se assumíssemos que os erros \(\epsilon_n\) são gaussianos mas NÃO independentes entre observações (por exemplo, erros correlacionados entre imóveis vizinhos geograficamente), a verossimilhança conjunta deixaria de ser simplesmente o produto das densidades marginais de cada observação.
- □ Se a variância do ruído \(\sigma^2\) fosse igual para todas as observações mas extremamente grande (tendendo a infinito), o modelo linear perderia praticamente toda sua capacidade preditiva, mesmo que \(\beta\) estivesse corretamente especificado.
- □ Num modelo que prevê o tempo de resposta de um servidor a partir da carga de requisições, supor ruído gaussiano homocedástico seria tão razoável quanto no caso de preços de imóveis, desde que a variabilidade do tempo de resposta realmente não dependa sistematicamente do nível de carga — e, uma vez feita essa suposição, ela nunca precisaria ser verificada empiricamente depois do ajuste, pois o próprio ajuste por mínimos quadrados a confirma automaticamente.
- □ Como um modelo de regressão linear assume \(Y\mid X\sim\mathcal N(\beta^TX,\sigma^2)\), isso implica que a distribuição marginal (não condicional) de \(Y\) também deve ser gaussiana, para o modelo fazer sentido.
Sob o modelo \(Y\mid X=x\sim\mathcal N(\beta^Tx,\sigma^2)\) com observações independentes, a log-verossimilhança dos \(N\) dados é \(\ell(\beta,\sigma^2)=-\frac N2\ln(2\pi)-N\ln\sigma-\frac{\text{RSS}(\beta)}{2\sigma^2}\), com \(\text{RSS}(\beta)=\sum_n(y_n-\beta^Tx_n)^2\).
- □ Se, em vez de tomar o logaritmo da verossimilhança, trabalhássemos diretamente com o produto de densidades \(\prod_n\mathcal N(y_n\mid\beta^Tx_n,\sigma^2)\), maximizar esse produto em relação a \(\beta\) ainda levaria exatamente ao mesmo \(\hat\beta\) obtido via log-verossimilhança, porque o logaritmo é uma função estritamente crescente.
- □ No caso extremo de \(N=1\) (uma única observação), a “log-verossimilhança” ainda pode ser escrita pela mesma fórmula geral, mas maximizá-la em relação a \(\beta\) (com mais de um parâmetro livre) não determina um único \(\hat\beta\), porque há infinitas retas passando exatamente por um ponto.
- □ Num modelo que assume que o tempo entre chegadas de clientes numa fila segue uma distribuição exponencial (não gaussiana), a mesma lógica de multiplicar densidades individuais (assumindo observações independentes) e tomar o logaritmo se aplicaria — ainda que a forma final da função a maximizar fosse diferente da gaussiana acima, o valor numérico do máximo obtido seria sempre diretamente comparável ao valor máximo de uma log-verossimilhança gaussiana ajustada a um problema de regressão, permitindo escolher qual dos dois modelos descreve melhor seus respectivos dados só comparando os números brutos.
- □ Como a log-verossimilhança acima é \(\ell(\beta,\sigma^2)=-\frac N2\ln(2\pi)-N\ln\sigma-\frac{\text{RSS}(\beta)}{2\sigma^2}\), maximizar \(\ell\) em relação a \(\beta\) e maximizar \(\ell\) em relação a \(\sigma^2\) são operações que precisam ser feitas simultaneamente, nunca uma depois da outra, porque os dois parâmetros aparecem na mesma expressão.
- □ Se a variância \(\sigma^2\) fosse conhecida e fixa de antemão (não estimada), o valor de \(\hat\beta\) que maximiza a log-verossimilhança ainda seria exatamente o mesmo \(\hat\beta_{\text{OLS}}\), porque \(\sigma^2\) entra na log-verossimilhança apenas como um fator multiplicativo positivo do termo que depende de \(\beta\).
- □ Se, por hipótese, \(\text{RSS}(\hat\beta)=0\) para o \(\hat\beta\) que minimiza a soma de quadrados (ajuste perfeito, sem nenhum resíduo), o estimador \(\hat\sigma^2_{\text{MLE}}=\text{RSS}(\hat\beta)/N\) seria exatamente zero, e a log-verossimilhança avaliada nesse ponto tenderia a \(+\infty\) conforme \(\sigma\to0\) nessa mesma expressão, revelando uma degenerescência do modelo gaussiano nesse caso extremo.
- □ Se, em outro domínio qualquer, alguém provar que maximizar uma verossimilhança assumida é algebricamente idêntico a minimizar uma soma de quadrados, essa prova por si só já implica que o ruído daquele modelo específico foi assumido gaussiano, porque é a densidade gaussiana (e nenhuma outra densidade comum) que produz esse termo quadrático especificamente na log-verossimilhança.
- □ Como \(\hat\beta_{\text{MLE}}=\hat\beta_{\text{OLS}}\) sob um modelo de regressão linear com ruído gaussiano homocedástico, conclui-se que máxima verossimilhança e mínimos quadrados são sempre a mesma coisa, para qualquer modelo estatístico, não apenas para regressão linear sob ruído gaussiano.
- □ Se, em vez de dividir por \(N\), dividíssemos \(\text{RSS}(\hat\beta)\) por \(N-2\) (número de observações menos o número de parâmetros do modelo — por exemplo, \(2\) num ajuste de regressão linear simples, com intercepto e uma única inclinação), o estimador resultante teria valor esperado exatamente igual a \(\sigma^2\) verdadeiro — mas deixaria de ser o estimador de máxima verossimilhança.
- □ Conforme \(N\to\infty\) (mantendo o número de parâmetros de \(\beta\) fixo), a diferença relativa entre \(\hat\sigma^2_{\text{MLE}}=\text{RSS}/N\) e o estimador não-viesado \(\text{RSS}/(N-2)\) tende a zero, porque \(N/(N-2)\to1\).
- □ O mesmo padrão de viés — dividir por \(N\) em vez de \(N\) menos o número de parâmetros estimados — reaparece em qualquer estimador de variância obtido por máxima verossimilhança que primeiro estime uma média (ou, aqui, um hiperplano) a partir dos mesmos dados usados para medir a dispersão em torno dela; e por isso, na prática, é sempre preferível reportar o estimador não-viesado em vez do MLE, em qualquer aplicação, sem exceção.
- □ Como \(\hat\sigma^2_{\text{MLE}}\) é viesado para baixo, ele é necessariamente um estimador pior do que o estimador não-viesado \(\text{RSS}/(N-2)\) em qualquer critério razoável de qualidade, incluindo o erro quadrático médio do próprio estimador de \(\sigma^2\).
- □ Se uma otimização numérica (por exemplo, via algoritmo Nelder-Mead) da log-verossimilhança de um modelo de regressão linear gaussiano tivesse sido inicializada num ponto de partida muito distante de \(\hat\beta_{\text{OLS}}\) (por exemplo, \(\beta_0=100,\beta_1=-50\), quando o ótimo verdadeiro está perto da origem), o algoritmo ainda convergiria ao mesmo ponto ótimo, porque a log-verossimilhança gaussiana em função de \(\beta\) é uma função côncava sem outros máximos locais.
- □ Se uma grade (grid search) usada para visualizar a superfície de log-verossimilhança de um modelo de regressão linear gaussiano tivesse uma resolução extremamente grosseira (poucos pontos, muito espaçados), o pico da grade poderia ficar visivelmente deslocado do verdadeiro \(\hat\beta_{\text{OLS}}\), mesmo que a forma fechada continuasse exata — e, por essa razão, sempre que uma forma fechada exata existir, o grid search se torna uma ferramenta cientificamente inútil, sem nenhum valor pedagógico ou de verificação.
- □ Em problemas de otimização com muitos parâmetros (por exemplo, uma rede neural com milhões de pesos), a mesma ideia de verificar uma solução fechada contra uma busca numérica deixaria de ser prática simplesmente por causa do volume de contas — não porque o princípio de comparação deixe de fazer sentido.
- □ Como uma otimização numérica confirmou o resultado da forma fechada num exemplo específico de ajuste, isso prova matematicamente (não apenas ilustra empiricamente) que \(\hat\beta_{\text{MLE}}=\hat\beta_{\text{OLS}}\) para qualquer conjunto de dados sob o modelo gaussiano.
O alvo MedHouseVal do dataset California Housing é artificialmente censurado: todo imóvel cujo preço mediano real seria maior que \(\$500\,001\) (a unidade do dataset é centenas de milhares de dólares, então o valor aparece como \(5{,}00001\)) é registrado com exatamente esse valor de teto — cerca de \(4{,}49\%\) das observações são afetadas. Além disso, num ajuste de regressão linear de MedHouseVal a partir de MedInc nesse dataset, a variância dos resíduos cresce sistematicamente com MedInc (heterocedasticidade real, não apenas hipotética).
- □ Se
MedHouseVal não fosse artificialmente censurado em \(5{,}00001\) (ou seja, se os \(4{,}49\%\) de observações no teto tivessem seus valores reais, possivelmente maiores), o \(\hat\beta_1\) estimado para MedInc provavelmente mudaria, porque essas observações censuradas concentram-se desproporcionalmente entre os imóveis de renda mais alta.
- □ No extremo em que a censura afetasse 100% das observações (todos os valores exibidos como exatamente \(5{,}00001\)), a variância amostral de
MedHouseVal seria zero, e o ajuste de mínimos quadrados encontraria \(\hat\beta_1=0\).
- □ Num estudo que mede o tempo de sobrevivência de pacientes após um tratamento, mas o estudo termina antes de alguns pacientes falecerem (censura à direita, análoga à censura de
MedHouseVal no teto), a mesma distorção de ajustar mínimos quadrados diretamente sobre os tempos observados (ignorando a censura) se aplicaria, subestimando o verdadeiro tempo médio de sobrevivência — mas esse problema desapareceria automaticamente com uma amostra suficientemente grande, já que o viés de censura, ao contrário do viés de estimadores de variância, diminui conforme \(N\) aumenta.
- □ Como a variância dos resíduos de um ajuste de regressão linear cresce com
MedInc (heterocedasticidade real, já confirmada empiricamente nesse ajuste), o modelo linear ajustado por mínimos quadrados se torna inútil para prever MedHouseVal, e nenhuma previsão feita a partir dele deveria ser usada.