Aula 6: Arquitetura, Energia e o Custo Material da Infraestrutura Digital

Computação e Sociedade

Marcos M. Raimundo — Instituto de Computação, UNICAMP

2026-09-14

Da Nuvem Etérea à Materialidade do Concreto

Da Nuvem Etérea à Materialidade do Concreto

Aula 5: decisões de método e métrica mudam o comportamento do usuário, mesmo parecendo “só técnicas”. Ficou em aberto: o que mais uma escolha de engenharia pode custar, sem ninguém “decidir” isso explicitamente?

Hoje: saímos do comportamento do usuário e vamos para a materialidade física da infraestrutura computacional — energia, água, minerais, terra.

O Roteiro de Hoje

  1. De onde vem, fisicamente, a energia e a água da “nuvem”?
  1. O que aconteceu em Eldorado do Sul (RS) quando um data center reservou 5 GW de energia?
  1. O que é soberania digital — e por que é, ela mesma, contraditória no Sul Global?
  1. O que distingue “zona de sacrifício digital” de “redlining digital”?
  1. O que um projeto de sistema computacional pode fazer, de fato, em resposta a esse custo material?

“A Nuvem” Não Tem Peso?

Nascimento & Raimundo (2026), p. 1

“A IA é frequentemente vendida como uma tecnologia sem peso… Mas sob essa abstração algorítmica há materialidade: a IA é feita de solo, água e energia.” (tradução livre)

O eixo desta aula: um artigo de pesquisa real, escrito por Beatriz Cardoso Nascimento, aluna de graduação deste Instituto, com o professor desta disciplina — não publicado ainda, mas um caso concreto e atual.

Pergunta

A Nuvem Tem Peso?

Se o custo material da IA (energia, água, minerais) fosse totalmente visível e cobrado diretamente de quem se beneficia do serviço — em vez de ficar invisível, distribuído em algum território distante —, o que provavelmente mudaria primeiro: o comportamento do consumidor, ou onde esses projetos são construídos?

Dica: pense em quem hoje arca com o custo material de um serviço de IA, e em quem hoje se beneficia dele — são, em geral, o mesmo grupo?

  • □ Se a infraestrutura de nuvem não dependesse de nenhum resfriamento físico de hardware — só de processamento sem geração de calor relevante —, grande parte da pressão por água e energia que caracteriza as zonas de sacrifício digital discutidas nesta aula deixaria de existir.
  • □ No limite em que a energia usada por um data center viesse inteiramente de fontes que não competem com nenhum outro uso local (nem elétrico, nem hídrico) — energia e água “extras”, sem custo de oportunidade para ninguém —, a tensão entre soberania digital e custo material discutida nesta aula deixaria de se aplicar a esse caso específico.
  • □ A mesma lógica de “a materialidade de um serviço digital fica invisível para quem só usa a interface” se aplicaria a um usuário de um serviço de streaming de vídeo que nunca pensa nos servidores físicos que armazenam e processam cada vídeo assistido.
  • □ Como a IA depende de energia, água e minerais para existir fisicamente, conclui-se que toda tecnologia digital, sem exceção, produz o mesmo nível de impacto material que um data center de treinamento de IA em larga escala.

V/F — A Nuvem Tem Peso? Resposta

Dica

  • ✔ Verdadeiro — sem a necessidade física de dissipar calor gerado pelo processamento, boa parte da pressão concreta por água e energia que caracteriza os casos desta aula perderia sua causa material central.
  • ✗ Falso — mesmo nesse cenário ideal hipotético, a tensão nasceria de outros fatores do artigo (quem decide, quem é consultado, que território hospeda a infraestrutura), não só do custo de oportunidade de energia/água; “sem custo de oportunidade” reduz, mas não elimina, toda a tensão discutida.
  • ✔ Verdadeiro — mesma estrutura de invisibilização: a interface de uso não deixa ver a infraestrutura física que a sustenta.
  • ✗ Falso — a aula não afirma equivalência de escala entre todo tipo de tecnologia digital; um data center de treinamento de IA em larga escala tem uma pegada material ordens de grandeza maior que a maioria dos usos cotidianos de computação.

Retomando: hoje vamos rastrear, concretamente, para onde vai essa materialidade — começando pelo vocabulário técnico de TI Verde (Bloco 2) e depois por um caso real (Bloco 3).

A Materialidade Escondida: Energia, Água e Minerais por Trás da Nuvem

A Materialidade Escondida

TI Verde (Maciel & Viterbo, 2020, Cap. 14): conjunto de práticas para reduzir o impacto ambiental do uso de tecnologia.

Maciel & Viterbo (2020), p. 182

“Exemplos práticos: uso de recursos que consumam menos energia, matéria-prima menos tóxica, descarte responsável por reciclagem e reutilização.” (tradução livre)

Duas Diretivas da Tabela 14.1: Água e Energia

Água, p. 193

“Utilizar menos hardware; priorizar fabricantes que usem menos água […] menos necessidade de resfriamento por água.” (tradução livre)

Energia, p. 194

“Utilizar hardware em que o resfriamento dependa minimamente de combustíveis fósseis […].” (tradução livre)

O termo comum às duas: resfriamento. É o segundo eixo de consumo de recurso natural de um data center — independente da fonte de energia usada.

Pergunta

O Preço Escondido do Resfriamento

Um data center anuncia que “roda 100% em energia limpa” (solar/eólica). Isso resolve completamente a tensão de recursos que a Tabela 14.1 aponta?

Dica: pense em quantas dimensões de recurso a tabela lista, além de energia — água, minerais, reciclabilidade.

  • □ Se toda a energia usada por um data center viesse de fontes renováveis, mas o resfriamento de seus servidores ainda dependesse de grandes volumes de água retirados de mananciais locais, a diretiva de “Consumo de Água” da Tabela 14.1 continuaria sendo violada da mesma forma.
  • □ No limite em que um hardware nunca precisasse ser substituído (vida útil infinita, sem obsolescência), a diretiva de “Reciclabilidade do Produto” da Tabela 14.1 perderia parte de sua urgência prática, mesmo continuando válida em princípio.
  • □ A mesma lógica de “energia limpa não resolve sozinha o consumo de água para resfriamento” se aplicaria a uma mineradora de criptomoeda que anuncia usar só energia hidrelétrica, mas mantém seus servidores refrigerados por um sistema que consome água de um rio local.
  • □ Como a Tabela 14.1 lista “utilizar menos hardware” como parte da sustentabilidade em quase toda diretiva, conclui-se que a única forma de tornar um data center sustentável é reduzir drasticamente sua capacidade de processamento, tornando-o inviável para IA em larga escala.

V/F — O Preço do Resfriamento: Resposta

Dica

  • ✔ Verdadeiro — energia limpa resolve o eixo energético, mas a diretiva de água é sobre um recurso distinto (consumo hídrico de resfriamento), que persiste independentemente da fonte de energia.
  • ✔ Verdadeiro — sem geração de resíduo eletrônico ao final da vida útil, a diretiva específica de reciclabilidade perde parte de sua urgência prática para esse hardware hipotético, mesmo continuando válida como princípio geral.
  • ✔ Verdadeiro — mesma estrutura: uma fonte de energia “limpa” não elimina, sozinha, o consumo de outro recurso natural (água) usado no resfriamento.
  • ✗ Falso — a tabela lista várias estratégias além de reduzir hardware (eficiência energética de software, escolha de fabricante, matérias- primas recicláveis); reduzir capacidade de processamento não é a única saída que ela aponta.

Retomando: essa mesma dinâmica de resfriamento intensivo é exatamente o que está no centro do caso real que vamos analisar agora.

Caso Central: Scala AI City e a Tekoa Pekuruty (Eldorado do Sul)

Caso Central: Scala AI City

Nascimento & Raimundo (2026), p. 4

“Em Eldorado do Sul, a Scala AI City captura uma reserva massiva de 5 GW de energia, apesar da instabilidade elétrica da região e de sua vulnerabilidade a desastres climáticos, incluindo as enchentes de 2024, marginalizando os Mbyá-Guarani da Tekoa Pekuruty e priorizando o resfriamento de servidores sobre direitos territoriais ancestrais.” (tradução livre)

Desembrulhando Cada Elemento

5 GW — ordem de grandeza comparável à demanda de uma região metropolitana inteira, reservada para um único empreendimento.

Instabilidade elétrica regional — a reserva compete por capacidade já escassa, não entra numa rede com folga.

Enchentes de 2024 — o mesmo Rio Grande do Sul, atingido por desastre climático catastrófico recente e documentado.

Tekoa Pekuruty — comunidade Mbyá-Guarani cujos direitos territoriais ancestrais são marginalizados pelo projeto.

Da Decisão de Arquitetura ao Custo Territorial

Dica

Nenhum documento diz “priorizamos resfriamento sobre direitos” — o resultado emerge de decisões de arquitetura tomadas sem a comunidade “na sala” (mesmo mecanismo de ausência de interessado das Aulas 1 e 4).

Uma Nota de Autoria e um Modelo de Boa Prática

O artigo é de Beatriz Cardoso Nascimento, aluna de graduação deste Instituto, com o professor desta disciplina — pesquisa real, em avaliação.

Nascimento & Raimundo (2026), Considerações Éticas, p. 5

As autoras reconhecem sua posicionalidade como pesquisadoras que não pertencem às comunidades indígenas/quilombolas discutidas, comprometendo-se a “analisar os mecanismos estruturais” sem falar por essas comunidades — um modelo de transparência de pesquisa.

Pergunta

Quem Decidiu Isso, Exatamente?

No caso Scala AI City, nenhum documento público diz “vamos priorizar o resfriamento de servidores sobre os direitos da Tekoa Pekuruty” — a decisão nunca aparece formulada dessa forma explícita. Como, então, esse resultado acontece?

Dica: pense na estrutura já vista na Aula 4 (mapa de papéis) — quem decide uma reserva de energia, e quem seria o interessado que normalmente não está na sala.

  • □ Se a Scala AI City tivesse sido construída numa região sem nenhum histórico de instabilidade elétrica e sem nenhuma comunidade indígena residente no entorno, o mecanismo de “zona de sacrifício digital” descrito pelo artigo de Nascimento & Raimundo (2026) não teria as mesmas duas evidências concretas de custo territorial que o caso real apresenta.
  • □ No limite em que a reserva de energia de um data center fosse pequena o suficiente para não competir, de forma alguma, com o consumo elétrico da própria região onde está instalado, um dos dois problemas centrais do caso Eldorado do Sul (pressão sobre uma rede elétrica já instável) deixaria de se aplicar a esse caso hipotético.
  • □ A mesma lógica de “um projeto de infraestrutura digital de larga escala reserva um recurso crítico numa região vulnerável, à custa de uma comunidade local” se aplicaria a um novo cabo de fibra óptica submarino que reserva a única faixa costeira apta a ancoragem numa comunidade pesqueira tradicional, sem consultá-la previamente.
  • □ Como o artigo descreve a Scala AI City como um projeto que prioriza resfriamento de servidores sobre direitos territoriais, conclui-se que qualquer expansão de infraestrutura de data center na América Latina, sem exceção, produz necessariamente o mesmo padrão de marginalização de comunidades indígenas.

V/F — Quem Decidiu Isso? Resposta

Dica

  • ✔ Verdadeiro — os dois fatores de risco específicos citados pelo artigo (instabilidade elétrica regional e comunidade indígena afetada) são parte do que dá concretude empírica ao caso; sem eles, faltariam exatamente essas duas evidências.
  • ✔ Verdadeiro — a pressão sobre a rede elétrica é consequência direta da magnitude da reserva relativa à capacidade local; sem competição por capacidade, esse problema específico não se manifestaria.
  • ✔ Verdadeiro — mesma estrutura: infraestrutura crítica reservando recurso escasso numa região vulnerável, à custa de uma comunidade tradicional não consultada, só que em outro tipo de infraestrutura (cabo submarino em vez de data center).
  • ✗ Falso — o artigo usa a Scala AI City como um exemplo documentado, não como prova de uma regra universal sem exceção; generalizar de um caso para “toda expansão, sem exceção” é o mesmo erro de generalização indevida já discutido em aulas anteriores.

Retomando: o próximo bloco nomeia formalmente o mecanismo que esse caso ilustra — soberania digital, policrise e zona de sacrifício digital.

Arcabouço Teórico: Soberania Digital, Policrise e Zonas de Sacrifício Digital

Soberania Digital: Quatro Dimensões

Nascimento & Raimundo (2026), pp. 1–2

“Capacidade de um Estado de exercer autoridade sobre sua arquitetura digital […]. Pelo menos quatro dimensões: infraestrutural, de dados, regulatória e epistêmica.” (tradução livre)

As quatro dimensões podem avançar desigualmente: leis de dados rígidas (regulatória forte) + servidores 100% estrangeiros (infraestrutural fraca) é perfeitamente possível.

O paradoxo — Nascimento & Raimundo (2026), p. 2

“A busca por soberania digital se torna contraditória, já que alcançar autonomia infraestrutural frequentemente exige atrair capital estrangeiro e acomodar interesses de corporações transnacionais.” (tradução livre)

Policrise Global

Nascimento & Raimundo (2026), p. 1

“Crises através de múltiplos sistemas globais que se tornam causalmente entrelaçadas de formas que degradam significativamente as perspectivas da humanidade.” (tradução livre)

Clima (enchentes 2024) + energia (rede instável) + social (marginalização da Tekoa Pekuruty) não são três problemas separados no caso Scala AI City — é a mesma policrise em três frentes.

Zona de Sacrifício Digital: a Definição

Nascimento & Raimundo (2026), p. 3

“Territórios onde a destruição ambiental […] é tratada como o preço necessário para a integração tecnológica […]. Diferente do redlining digital — que foca em segregação e negação de serviços —, zonas de sacrifício digital são caracterizadas por inclusão predatória.” (tradução livre)

A distinção em uma frase: redlining exclui; zona de sacrifício inclui predatoriamente — o território “entra no mapa” como sítio de extração, não como beneficiário.

Redlining vs. Sacrifício: o Garfo

Dica

A Tekoa Pekuruty não foi excluída da Scala AI City — o projeto está ao redor dela, consumindo os recursos da região, sem benefício proporcional. Isso é inclusão predatória, não redlining.

A IA como “acelerador metabólico”: otimiza processos extrativos e demanda, para existir fisicamente, escala sem precedentes de energia e água.

Pergunta

Inclusão Predatória: Inclusão de Verdade?

Se um território é oficialmente “incluído” no mapa global de infraestrutura de IA — recebe investimento, é mencionado em relatórios de expansão tecnológica — isso já garante que ele se beneficia dessa inclusão?

Dica: volte à distinção entre redlining digital (exclusão) e zona de sacrifício digital (inclusão predatória).

  • □ Se um Estado conseguisse atrair investimento em infraestrutura de IA sem precisar acomodar nenhum interesse de capital transnacional nem externalizar nenhum custo ambiental ou social, o paradoxo da soberania digital descrito no artigo de Nascimento & Raimundo (2026) não se aplicaria a esse caso.
  • □ No limite em que um território fosse formalmente excluído de qualquer investimento ou serviço digital, sem nenhuma presença de infraestrutura de IA nele, esse território se qualificaria, pela definição do artigo, como uma zona de sacrifício digital.
  • □ A mesma lógica de “duas dimensões distintas de soberania digital podem estar em tensão” se aplicaria a um país que consegue soberania regulatória forte (leis rígidas de proteção de dados) mas continua dependente de infraestrutura de nuvem estrangeira para hospedar esses mesmos dados, evidenciando fraca soberania infraestrutural apesar da soberania regulatória.
  • □ Como a soberania digital exige controle sobre arquitetura, dados, regulação e epistemologia, conclui-se que um país só pode ser considerado “digitalmente soberano” se tiver as quatro dimensões plenamente realizadas ao mesmo tempo, sem nenhum grau intermediário possível.

V/F — Inclusão Predatória: Resposta

Dica

  • ✔ Verdadeiro — sem nenhuma acomodação de interesse estrangeiro nem externalização de custo, faltaria exatamente o mecanismo que o artigo descreve como paradoxal.
  • ✗ Falso — exclusão total, sem nenhuma presença de infraestrutura, é exatamente a definição de redlining digital, não de zona de sacrifício digital, que exige inclusão (ainda que predatória).
  • ✔ Verdadeiro — é o mesmo tipo de desequilíbrio entre dimensões de soberania digital, só que entre regulatória e infraestrutural em vez de outro par.
  • ✗ Falso — o artigo não afirma que soberania digital é um estado binário “tudo ou nada”; trata as quatro dimensões como graduais e potencialmente desiguais entre si, não como um pacote que só existe completo.

Retomando: o próximo bloco amplia o olhar para outros países da América Latina, mostrando que o padrão de Eldorado do Sul não é isolado.

Ampliando o Olhar: Querétaro, Módulo Penco e o Greenwashing do Pará

Ampliando o Olhar: Querétaro e Módulo Penco

Nascimento & Raimundo (2026), p. 4

“Querétaro, México: centros de dados prosperam em meio a fragilidade hídrica/elétrica; aumento de 151% nos apagões (2014–2023). ‘Módulo Penco’, Chile: terras raras em sítio de resistência Mapuche, rejeitado por 99% em consulta pública.” (tradução livre)

Recurso diferente em cada caso (água/eletricidade vs. terras raras), mesmo mecanismo estrutural: recurso crítico para IA extraído de território com resistência local documentada.

O Caso LEAF/Pará: Colonialismo Verde

Nascimento & Raimundo (2026), p. 3

“Em 2024, o governo do Pará assinou um acordo de R$ 1 bilhão para vender créditos de carbono […] sem consulta às comunidades indígenas e quilombolas […] — contrariando o CLPI da Convenção 169 da OIT.” (tradução livre)

Nascimento & Raimundo (2026), p. 3

“Colonialismo verde: a Amazônia reposicionada como ativo financeiro […]. Corporações optam por comprar créditos de carbono em vez de reduzir seu impacto material na fonte.” (tradução livre)

O mecanismo: em vez de reduzir emissão na origem, comprar o direito de compensá-la — financiando proteção florestal sem consultar quem vive nela. A narrativa “verde” encobre, não resolve, a externalização de custo.

Pergunta

Um Acordo “Verde” Sem Quem Vive na Terra

A Coalizão LEAF apresenta o acordo do Pará como vitória de conservação. O que, no próprio texto do artigo, mostra que essa narrativa e a política real divergem?

Dica: pense em quem foi consultado, e quem não foi, no acordo de R$ 1 bilhão.

  • □ Se o governo do Pará tivesse realizado consulta livre, prévia e informada às comunidades indígenas e quilombolas antes de assinar o acordo com a Coalizão LEAF, a violação específica da Convenção 169 da OIT apontada pelo artigo não teria ocorrido da mesma forma.
  • □ No limite em que uma empresa do Norte Global reduzisse suas próprias emissões a zero na fonte, sem nunca precisar comprar nenhum crédito de carbono, o mecanismo de colonialismo verde descrito no caso LEAF/Pará perderia a função específica que o artigo atribui à compra de créditos (compensar, em vez de reduzir, o impacto na fonte).
  • □ A mesma lógica de “uma narrativa de sustentabilidade usada para obscurecer, em vez de resolver, uma externalização de custo ambiental” se aplicaria a uma empresa de tecnologia que anuncia neutralidade de carbono comprando compensações florestais distantes, enquanto seus próprios data centers seguem aumentando o consumo real de energia fóssil na origem.
  • □ Como o acordo da Coalizão LEAF foi assinado sem consulta às comunidades afetadas, conclui-se que todo mecanismo de crédito de carbono florestal é, por definição, um instrumento de colonialismo verde, independentemente de como cada acordo específico for negociado.

V/F — Um Acordo “Verde”: Resposta

Dica

  • ✔ Verdadeiro — consulta livre, prévia e informada é exatamente o que faltou e o que a Convenção 169 exige; supridas, a violação específica apontada pelo artigo não teria ocorrido da mesma forma.
  • ✔ Verdadeiro — a função específica da compra de créditos, segundo o artigo, é compensar em vez de reduzir na fonte; sem emissão nenhuma para compensar, essa função específica desaparece nesse cenário.
  • ✔ Verdadeiro — mesma estrutura de greenwashing: usar compensação distante para mascarar, em vez de resolver, o aumento real de impacto na origem.
  • ✗ Falso — o artigo não afirma que todo crédito de carbono é necessariamente colonialismo verde; o problema apontado é a falta de consulta e a captura corporativa desse caso específico, não o mecanismo de crédito de carbono em si, que poderia, em tese, ser negociado com consulta genuína.

Retomando: três casos, três recursos diferentes (energia/água, terras raras, floresta/carbono), um mesmo padrão estrutural. O próximo bloco volta ao vocabulário técnico de projeto que poderia responder a esse padrão.

Da Crítica ao Projeto: Ciclo de Vida e TI Verde

Da Crítica ao Projeto

Voltamos às duas leituras-base da ementa: Van de Poel & Royakkers (2011) e Maciel & Viterbo (2020) — vocabulário técnico de projeto, para responder ao padrão dos Blocos 3–5.

A Definição de Brundtland

Van de Poel & Royakkers (2011), p. 283

“Desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender às próprias necessidades.” (tradução livre)

Duas ideias-chave na própria definição: as necessidades essenciais dos mais pobres do mundo (prioridade absoluta) e os limites que a tecnologia e a organização social impõem à capacidade do ambiente.

Duas Justiças e o Poluidor-Pagador

p. 284

Intergeracional: divisão de recursos entre gerações. Intrageracional: divisão de recursos dentro da mesma geração (ex.: Primeiro vs. Terceiro Mundo).

Dica

Scala AI City é, ao mesmo tempo, um problema de justiça intrageracional (custo recai sobre a Tekoa Pekuruty, não sobre quem usa o serviço) e do princípio do poluidor-pagador.

Análise de Ciclo de Vida

Van de Poel & Royakkers (2011), p. 293

“Uma análise que mapeia o impacto ambiental de um produto ao longo de todo o ciclo de produção, uso e descarte.” (tradução livre)

Medir só a fase de uso esconde o impacto de produção (extração/manufatura) e descarte (e-waste).

O Ciclo de Vida de um Sistema Computacional

Dica

Cada seta é uma fase que a Tabela 14.1 (Bloco 2) já cobre com diretivas próprias — a seta tracejada de volta (reciclagem) é precisamente o que falta quando um sistema termina em e-waste, em vez de matéria-prima reaproveitada.

Verde Por Software vs. Verde No Software

Maciel & Viterbo (2020), p. 187

Verde Por Software: sistemas que promovem sustentabilidade. Verde No Software: tornar o próprio software mais sustentável.

Aviso

Nenhuma das duas, sozinha, teria evitado o caso Scala AI City — o problema não é falha de eficiência técnica, é quem decide e quem é consultado.

Pergunta

O Ciclo Que Ninguém Vê Até o Fim

Se uma empresa mede sua “pegada de carbono” apenas pela fase de uso de seus servidores (a energia elétrica que eles consomem enquanto rodam), o que a análise de ciclo de vida diria que está faltando nessa contabilidade?

Dica: pensar nas fases que vêm antes e depois do “uso”: extração/ produção, e descarte.

  • □ Se toda a energia elétrica usada na fase de operação de um data center viesse de fontes renováveis com impacto ambiental desprezível, a análise de ciclo de vida completa desse data center ainda poderia revelar impacto ambiental significativo nas fases de produção e descarte do hardware.
  • □ No limite em que um hardware pudesse ser produzido, usado e descartado sem nenhuma extração de matéria-prima nova (100% de materiais reciclados, indefinidamente), a fase de “extração” na análise de ciclo de vida perderia, para esse hardware específico, parte de seu impacto ambiental característico.
  • □ A mesma lógica de “medir só a fase de uso esconde o impacto de produção e descarte” se aplicaria a uma fabricante de smartphones que anuncia baixo consumo de energia durante o uso do aparelho, sem nunca divulgar o impacto ambiental da mineração dos metais usados em sua bateria.
  • □ Como a TI Verde promove tanto “Verde Por Software” (sistemas que promovem sustentabilidade) quanto “Verde No Software” (tornar o próprio software mais sustentável), conclui-se que qualquer sistema que se enquadre em uma dessas duas categorias está, automaticamente, isento de qualquer impacto ambiental relevante.

V/F — O Ciclo Que Ninguém Vê: Resposta

Dica

  • ✔ Verdadeiro — a análise de ciclo de vida cobre produção e descarte além do uso; energia limpa na operação não apaga o impacto das outras duas fases.
  • ✔ Verdadeiro — sem extração de matéria-prima nova, essa fase específica perderia o impacto ambiental que normalmente lhe é atribuído, para esse hardware hipotético.
  • ✔ Verdadeiro — mesma estrutura: medir só uma fase (uso) esconde o impacto de outra fase (produção/mineração).
  • ✗ Falso — pertencer a uma das duas categorias de TI Verde não isenta um sistema de impacto ambiental; as categorias descrevem uma orientação de projeto, não uma garantia de impacto zero.

Retomando: o próximo bloco sintetiza tudo isso numa ética territorial — o que significa levar o território a sério, não só como jurisdição legal.

Síntese: Rumo a uma Ética Territorial

Rumo a uma Ética Territorial

Vocabulário técnico de sustentabilidade (TI Verde, ciclo de vida) é útil, mas sozinho não resolve o problema dos Blocos 3–5: não é eficiência técnica, é quem decide e quem é consultado.

Nascimento & Raimundo (2026), p. 4

“Ética territorial: […] o território tratado não como jurisdição legal passiva, mas como entidade multidimensional que une ecossistema físico a espaços culturalmente apropriados.” (tradução livre)

Tratar território como jurisdição legal (área disponível para reservar energia, extrair mineral) é o que permite tratar sua degradação como “preço aceitável” — mecânica central de toda zona de sacrifício digital.

Um Checklist Territorial (1 e 2)

1. Quem paga o custo material? Energia, água, minerais, terra — quem arca, e quem se beneficia do serviço final?

2. Quem foi consultado, e como? “Incluído no mapa” não é o mesmo que “consultado sobre os termos da inclusão”.

Um Checklist Territorial (3 e 4)

3. Que narrativa de sustentabilidade está em jogo, e para proteger o quê? O caso LEAF/Pará mostra que “verde” pode encobrir, não resolver.

4. O vocabulário técnico de projeto foi usado, e em que estágio da decisão? Ferramentas ajudam, mas não substituem a pergunta de quem decide.

Pergunta

Um Checklist Territorial

Escolha um projeto de infraestrutura digital que você conhece (real ou hipotético — pode ser um data center, um cabo submarino, uma mina de minerais para hardware). Aplicando o checklist desta síntese, você consegue dizer, com alguma confiança, quem paga o custo material desse projeto e quem foi consultado sobre ele?

Dica: pense especificamente na diferença entre “quem se beneficia do serviço final” e “quem arca com o custo físico de produzi-lo”.

  • □ Se um projeto de data center publicasse, antes da construção, um relatório de impacto que incluísse consulta livre, prévia e informada às comunidades locais afetadas, esse projeto atenderia a uma das exigências centrais da ética territorial discutida nesta aula, mesmo que ainda pudesse ser criticado por outros motivos.
  • □ No limite em que um território fosse tratado exclusivamente como jurisdição legal — sem nenhuma consideração por vínculo cultural, ecológico ou ancestral de quem nele vive —, esse tratamento seria exatamente o oposto do que a ética territorial do artigo de Nascimento & Raimundo (2026) propõe.
  • □ A mesma lógica do checklist desta síntese (quem paga o custo material, quem foi consultado, que narrativa de sustentabilidade está em jogo) se aplicaria à avaliação de um novo cabo de fibra óptica internacional, verificando se comunidades costeiras ao longo de sua rota foram consultadas antes da instalação.
  • □ Como a ética territorial defende que o território seja tratado como algo além de jurisdição legal passiva, conclui-se que nenhum projeto de infraestrutura digital deveria, em hipótese alguma, ser construído em território ocupado por comunidades tradicionais, independentemente de consulta ou compensação.

V/F — Um Checklist Territorial: Resposta

Dica

  • ✔ Verdadeiro — consulta prévia documentada atende a uma das quatro perguntas do checklist, mesmo que outras dimensões (custo material, narrativa) ainda mereçam escrutínio.
  • ✔ Verdadeiro — é exatamente o oposto da ética territorial proposta, que exige tratar o território como algo além de jurisdição legal.
  • ✔ Verdadeiro — aplicação direta do checklist a outro tipo de infraestrutura digital (cabo submarino em vez de data center).
  • ✗ Falso — a ética territorial não proíbe categoricamente qualquer projeto em território tradicional; exige consulta genuína e divisão justa do benefício/custo, não uma proibição absoluta e incondicional.

Retomando: o próximo bloco fecha a aula retomando as cinco perguntas do roteiro inicial.

Fechamento e Ponte para a Aula 7

Retomando o Roteiro — Perguntas 1 e 2

1. De onde vem a energia e a água? Da construção e operação de hardware físico — nunca de um espaço “sem peso”.

2. Eldorado do Sul? Scala AI City: 5 GW numa rede instável, com histórico de enchentes, marginalizando a Tekoa Pekuruty.

Retomando o Roteiro — Perguntas 3 e 4

3. Soberania digital? Quatro dimensões — contraditória porque autonomia infraestrutural exige, com frequência, capital estrangeiro.

4. Sacrifício vs. redlining? Redlining exclui; sacrifício inclui predatoriamente — território como sítio de extração, não beneficiário.

Retomando o Roteiro — Pergunta 5

5. O que um projeto pode fazer? Ferramentas técnicas ajudam, mas não substituem ética territorial e consulta genuína.

Dica

Custo material da IA é distribuído desigualmente e invisibilizado por narrativas de progresso — hoje vimos como e por quê.

Pergunta

O Que Mais Está Escondido Atrás da Tela?

Assim como o custo material de um data center fica invisível até alguém escrutinar, o que você imagina que também pode estar “escondido” dentro dos próprios dados que treinam um sistema de IA, mesmo sem ninguém ter decidido explicitamente colocar isso ali?

Dica: pensar em como os dados históricos carregam decisões e desigualdades passadas, sem que ninguém precise “programá-las” de propósito.

  • □ Se toda a energia e água usada por data centers de IA viessem de fontes com impacto ambiental e social desprezível, e nenhuma comunidade tivesse seus direitos territoriais afetados, o argumento central desta aula sobre “zonas de sacrifício digital” perderia sua base empírica de aplicação, mesmo que o conceito continuasse fazendo sentido em teoria.
  • □ No limite em que toda decisão de arquitetura de sistema fosse tomada considerando explicitamente seu custo material e territorial completo, a categoria de “custo que ninguém decidiu explicitamente impor” discutida nesta aula deixaria de descrever esse tipo de decisão.
  • □ A mesma lógica estrutural desta aula — um sistema aparentemente neutro e técnico esconde uma consequência real que ninguém precisou “decidir” explicitamente — se estenderia ao argumento da Aula 7 de que dados históricos usados para treinar um algoritmo podem carregar viés discriminatório sem que nenhum engenheiro tenha programado esse viés de propósito.
  • □ Como esta aula mostrou que a materialidade da infraestrutura de IA produz custo territorial real, conclui-se que a única forma responsável de lidar com esse custo é interromper por completo o desenvolvimento de infraestrutura de IA, sem nenhuma alternativa intermediária de projeto ou governança.

V/F — Síntese Final: Resposta

Dica

  • ✔ Verdadeiro — sem custo material real recaindo sobre nenhuma comunidade, faltaria a base empírica que sustenta o argumento aplicado a esse caso, mesmo que o conceito de zona de sacrifício digital continuasse coerente em teoria.
  • ✔ Verdadeiro — se o custo já fosse sempre considerado explicitamente na decisão, deixaria de ser, por definição, um custo “que ninguém decidiu explicitamente impor”.
  • ✔ Verdadeiro — é exatamente a ponte para a Aula 7: um sistema aparentemente neutro (arquitetura de infraestrutura, ou um pipeline de dados) esconde uma consequência real não decidida explicitamente.
  • ✗ Falso — a aula não conclui que a única saída responsável é interromper todo desenvolvimento de infraestrutura de IA; a síntese do Bloco 7 propõe justamente alternativas intermediárias (consulta genuína, ética territorial, ferramentas de projeto), não abandono total.

Ponte para a Aula 7: se o custo material da infraestrutura já fica invisível até ser escrutinado, os próprios dados que alimentam um sistema de IA também carregam uma história de viés que produz discriminação automatizada sem que ninguém precise “programá-la” de propósito. É por aí que a Aula 7 continua a Parte 2 do curso.

Exercícios Soluções