Exercícios — Aula 5: Modelos Variacionais, GMM Bayesiano e Seleção de Modelos

Aprendizado Não Supervisionado

Autor

Marcos M. Raimundo — Instituto de Computação, UNICAMP

Data de Publicação

5 de outubro de 2026

Aula Soluções

Dica

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Contexto e notação

Um Modelo de Mistura Gaussiana (GMM) explica cada ponto \(\mathbf{x}_n\) como vindo de uma entre \(K\) populações gaussianas, via uma variável latente categórica \(z_n\), com prior de mistura \(\pi_k=p(z_{nk}=1)\). O EM clássico ajusta \(\theta=\{\pi_k,\mu_k,\Sigma_k\}\) por máxima verossimilhança, sem nenhuma priori sobre \(\theta\) — a log-verossimilhança de treino nunca piora ao aumentar \(K\), tornando-a inútil para escolher \(K\).

Seleção Bayesiana de modelos. Tratando a estrutura do modelo \(\mathcal{M}_m\) (ex.: “GMM com \(K=m\)”) como variável, \(p(\mathcal{M}_m\mid\mathbf{X})\propto p(\mathcal{M}_m)p(\mathbf{X}\mid \mathcal{M}_m)\), onde a evidência \(p(\mathbf{X}\mid\mathcal{M}_m)=\int p(\mathbf{X},\mathbf{H}\mid \mathcal{M}_m)\,\mathrm{d}\mathbf{H}\) já embute uma Navalha de Occam orgânica (modelos complexos espalham massa de probabilidade por um espaço maior de \(\mathbf{H}\)). Como essa integral é intratável, usa-se o ELBO \(\mathcal{L}_m(q)\), uma cota inferior tratável obtida via divergência de Kullback-Leibler, \(\mathrm{KL}(q\|p)=\mathbb{E}_q[\ln\{q/p\}]\ge0\): \[ \ln p(\mathbf{X}\mid\mathcal{M}_m) = \mathcal{L}_m(q) + \mathrm{KL}\big(q(\mathbf{H})\,\|\,p(\mathbf{H}\mid\mathbf{X},\mathcal{M}_m)\big) . \]

GMM Bayesiano. Coloca-se \(\mathbf{H}=(\mathbf{Z},\pi,\mu,\Sigma)\) inteiro dentro do tratamento variacional (campo médio \(q(\mathbf{Z})q(\pi)\prod_kq(\mu_k,\Sigma_k)\)): uma priori de Dirichlet sobre \(\pi\) (concentração \(\alpha_0\), fixa e neutra, ex. \(\alpha_0=1\)) produz posterior \(\mathrm{Dir}(\alpha_0+N_1,\dots, \alpha_0+N_K)\), com \(N_k\) a contagem esperada de pontos no componente \(k\) — componentes com \(N_k\approx0\) são podados; uma priori Normal-Wishart sobre \((\mu_k,\Sigma_k)\) garante que a escala posterior \(W_k^{-1}=W_0^{-1}+N_kS_k+\dots\) nunca esquece o termo \(W_0^{-1}\) da priori, impedindo analiticamente o colapso \(\Sigma_k\to\mathbf{0}\). O ELBO resultante se decompõe como \[ \mathcal{L}_m(q) = \underbrace{\mathbb{E}_{q(\mathbf{Z})q(\mu,\Sigma)}\big[\ln p(\mathbf{X}\mid\mathbf{Z},\mu,\Sigma)\big]}_{\text{Ajuste}} - \underbrace{\mathrm{KL}\big(q(\mathbf{Z},\pi,\mu,\Sigma)\,\|\,p(\cdot\mid\mathbf{X})\big)}_{\text{Navalha de Occam}} . \] Diferente da log-verossimilhança crua, esse ELBO sobe e depois cai em função de \(K\).

Validação preditiva e geométrica. O alvo estatístico verdadeiro é a Esperança da Log-Densidade Preditiva (ELPD), \(\mathbb{E}_{\mathbf{x}\sim p_{\text{true}}}[\ln p(\mathbf{x}\mid \mathbf{X}_{\text{train}})]\) — estimar essa quantidade usando os próprios dados de treino produz viés de otimismo (double-dipping); um conjunto de validação \(\mathbf{X}_{\text{val}}\), nunca exposto ao ajuste, fornece um estimador de Monte Carlo não-viesado. Como nem todo método tem probabilidade (K-Means, DBSCAN), métricas puramente geométricas na validação unificam a comparação: o Coeficiente de Silhueta (Rousseeuw, 1987), \(s(i)=\frac{b(i)-a(i)}{\max\{a(i),b(i)\}}\) (\(a(i)\) = coesão, \(b(i)\) = separação), e o Índice de Dunn (Dunn, 1974), razão entre a menor distância entre clusters diferentes e o maior diâmetro interno de qualquer cluster — puramente geométrico, sem assumir forma esférica.

PPC quantitativo. Amostrando \(\mathbf{X}_{\text{sim}}\) do modelo ajustado, comparamos contra \(\mathbf{X}_{\text{real}}\) via (a) projeções sobre múltiplas direções aleatórias, com teste de Kolmogorov-Smirnov (Massey, 1951) em cada direção, e (b) Maximum Mean Discrepancy (MMD; Gretton et al., 2012) com kernel RBF, cuja largura de banda determina que escala de discrepância o teste enxerga.

Questões discursivas

NotaQuestão 1

A evidência \(p(\mathbf{X}\mid\mathcal{M}_m)=\int p(\mathbf{X},\mathbf{H}\mid\mathcal{M}_m)\,\mathrm{d}\mathbf{H}\) é descrita como contendo uma “Navalha de Occam orgânica”, sem precisar de nenhum termo de penalidade adicionado à mão. Explique, com suas próprias palavras, o argumento geométrico/probabilístico (espalhar vs. concentrar massa sobre o espaço de datasets possíveis) por trás dessa afirmação, e discuta explicitamente por que esse argumento não depende de aproximar a evidência por um ELBO — o ELBO resolve um problema diferente (qual?).

NotaQuestão 2

O GMM Bayesiano desta aula usa um \(\alpha_0\) fixo e neutro para a priori de Dirichlet sobre \(\pi\), deixando a comparação do ELBO entre diferentes \(K\)’s decidir o tamanho do modelo — diferente de uma estratégia alternativa (usada, por exemplo, na versão original da Aula 5) que varia \(\alpha_0\) com \(K\) fixo “de sobra” para forçar diferentes graus de poda. Discuta: essas duas estratégias testam exatamente a mesma coisa de formas diferentes, ou avaliam perguntas estruturalmente distintas? Que vantagem prática (não apenas estética) a estratégia desta aula tem quando se quer comparar o GMM Bayesiano contra métodos sem probabilidade nenhuma, como o K-Means?

NotaQuestão 3

Suponha que, para um novo dataset, o ELBO de treino, a log-verossimilhança preditiva na validação, a Silhueta e o Índice de Dunn concordem todos em \(K^\star=3\), mas um PPC quantitativo (projeções aleatórias + KS, e MMD com duas larguras de banda diferentes) não encontre evidência de discrepância de forma. Isso é suficiente para declarar, com confiança total, que “o GMM com \(K=3\) captura a estrutura geradora verdadeira dos dados”? Justifique apontando explicitamente pelo menos duas limitações estruturais — não apenas numéricas — que continuariam valendo mesmo com essa concordância total entre critérios.

Questões de Verdadeiro/Falso

NotaTeste 1 — Seleção Bayesiana de modelos e a evidência
  • □ Ao comparar \(p(\mathcal{M}_1\mid\mathbf{X})\) e \(p(\mathcal{M}_2\mid\mathbf{X})\) via regra de Bayes, o termo \(p(\mathbf{X})\) do denominador pode ser ignorado na comparação porque ele não depende de qual estrutura \(\mathcal{M}_m\) está sendo avaliada.
  • □ Um modelo com muito mais parâmetros livres do que outro sempre tem evidência \(p(\mathbf{X}\mid\mathcal{M}_m)\) maior, porque mais parâmetros dão mais liberdade para explicar qualquer dataset observado.
  • □ A Navalha de Occam embutida na evidência depende de integrar \(p(\mathbf{X},\mathbf{H}\mid\mathcal{M}_m)\) sobre \(\mathbf{H}\) — se em vez disso avaliássemos \(p(\mathbf{X}\mid\hat{\mathbf{H}}_{\text{ML}}, \mathcal{M}_m)\) num único ponto ótimo \(\hat{\mathbf{H}}_{\text{ML}}\), essa penalidade de complexidade desapareceria.
  • □ Se \(p(\mathcal{M}_1)=p(\mathcal{M}_2)\) (priori uniforme sobre as estruturas), a razão \(p(\mathcal{M}_1\mid\mathbf{X})/p(\mathcal{M}_2 \mid\mathbf{X})\) é exatamente a razão das evidências \(p(\mathbf{X}\mid\mathcal{M}_1)/p(\mathbf{X}\mid\mathcal{M}_2)\).
NotaTeste 2 — KL, ELBO e a decomposição da evidência
  • □ A divergência \(\mathrm{KL}(q\|p)\) é, por definição, simétrica: \(\mathrm{KL}(q\|p)=\mathrm{KL}(p\|q)\) para quaisquer distribuições \(p,q\).
  • □ Na decomposição \(\ln p(\mathbf{X}\mid\mathcal{M}_m)= \mathcal{L}_m(q)+\mathrm{KL}(q\|p(\mathbf{H}\mid\mathbf{X}, \mathcal{M}_m))\), a igualdade \(\mathcal{L}_m(q)=\ln p(\mathbf{X}\mid \mathcal{M}_m)\) vale exatamente quando \(q(\mathbf{H})\) coincide com a posterior verdadeira \(p(\mathbf{H}\mid\mathbf{X},\mathcal{M}_m)\).
  • □ Se, para dois modelos \(\mathcal{M}_1,\mathcal{M}_2\), temos \(\mathcal{L}_1(q)>\mathcal{L}_2(q)\) usando a mesma família funcional para \(q\) em ambos os casos, isso garante matematicamente que \(\ln p(\mathbf{X}\mid\mathcal{M}_1)>\ln p(\mathbf{X}\mid \mathcal{M}_2)\), sem exceção.
  • □ A não-negatividade de \(\mathrm{KL}(q\|p)\) decorre da convexidade da função \(-\ln(\cdot)\) aplicada via desigualdade de Jensen — não é um postulado adicional, é uma consequência demonstrável dessa convexidade.
NotaTeste 3 — Dirichlet sobre \(\pi\) e poda de componentes
  • □ Na posterior variacional \(q^\star(\pi)=\mathrm{Dir}(\alpha_0+N_1, \dots,\alpha_0+N_K)\), um componente \(k\) com \(N_k=0\) (nenhum ponto esperado ali) tem concentração posterior igual a \(\alpha_0\), a mesma da priori.
  • □ Aumentar \(\alpha_0\) (mantendo-o fixo, sem variar por rodada) torna a poda automática de componentes sem suporte nos dados mais agressiva, não menos.
  • □ A contagem esperada \(N_k=\sum_n\gamma(z_{nk})\) depende da responsabilidade \(\gamma(z_{nk})\) calculada sob o fator variacional \(q(\mathbf{Z})\), e não é, em geral, um número inteiro.
  • □ Se dois componentes \(k\) e \(k'\) tiverem exatamente o mesmo \(N_k=N_{k'}\), suas concentrações posteriores sob \(q^\star(\pi)\) são necessariamente idênticas, para qualquer \(\alpha_0\) fixo usado na priori.
NotaTeste 4 — Normal-Wishart e o colapso da covariância
  • □ Na atualização \(W_k^{-1}=W_0^{-1}+N_kS_k+\frac{\beta_0N_k} {\beta_0+N_k}(\bar{\mathbf{x}}_k-m_0)(\bar{\mathbf{x}}_k-m_0)^T\), se a covariância amostral local \(S_k\) do componente \(k\) tender à matriz nula (todos os pontos responsáveis coincidindo), \(W_k^{-1}\) ainda assim permanece positiva definida, por causa do termo \(W_0^{-1}\).
  • □ Definir \(W_0\) como a inversa da covariância global dos dados (Empirical Bayes) é uma escolha estruturalmente diferente de simplesmente fixar \(\Sigma_k\) a um valor constante para todo componente, como faria um K-Means com covariância esférica idêntica.
  • □ No EM clássico da Aula 4 (sem nenhuma priori sobre \(\Sigma_k\)), a matriz de covariância de um componente podia, em princípio, colapsar para a matriz nula; no GMM Bayesiano com Normal-Wishart, esse mesmo colapso continua matematicamente possível, só que menos provável.
  • □ O mecanismo que impede o colapso de \(\Sigma_k\) (via \(W_0^{-1}\) na Normal-Wishart) e o mecanismo que poda componentes supérfluos (via \(\alpha_0\) na Dirichlet) são, estruturalmente, o mesmo tipo de argumento: um termo vindo da priori que persiste na atualização posterior, independente do que os dados sugerem no extremo oposto.
NotaTeste 5 — Dissecando o ELBO variacional
  • □ No termo de ajuste \(\mathbb{E}_{q(\mathbf{Z})q(\mu,\Sigma)}[\ln p(\mathbf{X}\mid\mathbf{Z},\mu,\Sigma)]\) da decomposição do ELBO do GMM Bayesiano, a esperança não precisa ser tomada sobre \(q(\pi)\) porque a densidade de \(\mathbf{X}\), dados \(\mathbf{Z}\) e \((\mu,\Sigma)\), não depende de \(\pi\).
  • □ Se o ELBO de um GMM Bayesiano, calculado com \(K=5\), for maior que o calculado com \(K=4\) no mesmo dataset, isso garante que \(K=5\) também produz log-verossimilhança de treino maior que \(K=4\).
  • □ O padrão “sobe e depois cai” do ELBO em função de \(K\) é uma consequência direta do termo de KL crescer mais rápido que o ganho no termo de ajuste, a partir de algum \(K\) em diante.
  • □ Comparar diretamente os valores absolutos do ELBO do GMM Bayesiano com os valores absolutos da log-verossimilhança do EM clássico, no mesmo \(K\), é uma forma válida de decidir qual dos dois métodos “explica melhor” os dados.
NotaTeste 6 — ELPD, viés de treino e o estimador de Monte Carlo
  • □ O viés de otimismo (double-dipping) ao estimar o ELPD usando os próprios dados de treino ocorre porque os mesmos pontos que ajustaram o modelo são reutilizados para avaliá-lo.
  • □ O estimador \(\widehat{\mathrm{ELPD}}=\frac{1}{N_{\text{val}}} \sum_{n\in\text{val}}\ln p(\mathbf{x}_n\mid\mathbf{X}_{\text{train}})\) é não-viesado especificamente porque \(\mathbf{X}_{\text{val}}\) é amostrado da mesma população \(p_{\text{true}}\) e nunca participou do ajuste do modelo.
  • □ Se um GMM Bayesiano tiver ELBO de treino maximizado em \(K=4\), mas a log-verossimilhança preditiva na validação for maximizada em \(K=2\), isso é logicamente impossível, já que o ELBO já contém uma penalidade de complexidade.
  • □ O mesmo raciocínio de “avaliar num conjunto nunca usado no ajuste evita viés de otimismo” se aplica igualmente bem a escolher o número de vizinhos \(k\) de um classificador \(k\)-NN supervisionado.
NotaTeste 7 — Comparação universal: Silhueta, Dunn e DBSCAN adaptado
  • □ O Índice de Dunn, por usar apenas a menor distância entre clusters diferentes e o maior diâmetro interno de qualquer cluster (em vez de médias), tende a ser mais sensível a um único ponto atípico do que a Silhueta.
  • □ A adaptação do DBSCAN para calcular métricas de validação em pontos nunca vistos no ajuste (treinar um classificador \(k\)-NN nos pontos não marcados como ruído) é necessária porque o DBSCAN, ao contrário do K-Means, não tem um método nativo para atribuir cluster a um ponto novo.
  • □ Se a Silhueta e o Dunn discordarem sobre qual \(K\) é melhor para o mesmo conjunto de partições, isso implica necessariamente que pelo menos uma das duas métricas contém um erro de implementação.
  • □ Comparar a Silhueta de um K-Means (validação) diretamente com o ELBO de um GMM Bayesiano (treino) é uma forma de comparação igualmente válida à de comparar a Silhueta do K-Means com a log-verossimilhança preditiva do GMM, ambas na validação.
NotaTeste 8 — PPC quantitativo: projeções aleatórias, KS e MMD
  • □ Usar múltiplas direções aleatórias para projetar os dados antes do teste de Kolmogorov-Smirnov é necessário porque uma única direção — mesmo a de maior variância — pode, por acaso, não capturar uma diferença que existe claramente na estrutura conjunta dos dados.
  • □ O estimador não-viesado de \(\mathrm{MMD}^2\) entre duas amostras pode assumir valores negativos mesmo quando as duas amostras vêm, de fato, de distribuições diferentes — um valor negativo, sozinho, não é suficiente para concluir “mesma distribuição”.
  • □ Se o MMD com largura de banda calibrada pela heurística da mediana não rejeitar a hipótese de “mesma distribuição” entre dados reais e sintéticos, isso é evidência definitiva de que o modelo capturou a forma verdadeira dos dados, para qualquer escala de estrutura.
  • □ O mesmo tipo de escolha de escala que afeta o MMD (a largura de banda do kernel RBF) tem um análogo direto na largura de banda \(h\) de um KDE (Aula 2): ambos controlam que nível de detalhe da distribuição o método consegue enxergar.