Soluções — Aula 1: Dados, Distribuições e Detecção de Anomalias
Fundamentos Estatísticos do Aprendizado Supervisionado
Questões discursivas
Falsa em geral, verdadeira só sob prioris iguais. \(p(x,\mathcal{C}_A)=p(x\mid\mathcal{C}_A)\,\pi_A\) e \(p(x,\mathcal{C}_B)=p(x\mid\mathcal{C}_B)\,\pi_B\). Se \(\pi_A=\pi_B\), as duas condicionais são escaladas pela MESMA constante, e o ponto onde as conjuntas se cruzam é exatamente onde \(p(x\mid\mathcal{C}_A)=p(x\mid\mathcal{C}_B)\), ou seja, \(T_{COND}\). Com prioris diferentes (o caso do exemplo de referência, \(\pi_A=0{,}95\ne\pi_B=0{,}05\)), a assimetria das prioris desloca \(T_{CONJ}\) para longe de \(T_{COND}\) — a afirmação do colega só vale no caso particular de prioris iguais, não em geral.
Estimar bem \(p(x\mid\mathcal{C}_A)\) a partir de transações legítimas não dá nenhuma informação sobre \(p(x\mid\mathcal{C}_B)\) (a densidade das fraudes), que é justamente o que se precisa para calcular a taxa de detecção (Tipo II): \(P(x\le t\mid\mathcal{C}_B)\) não pode ser calculada sem um modelo (ainda que implícito) de \(\mathcal{C}_B\). As saídas honestas são: (i) assumir um modelo para \(\mathcal{C}_B\) (por exemplo, uniforme — o que equivale a cortar num conjunto de nível \(\{p(x\mid\mathcal{C}_A)<\lambda\}\)); (ii) estimar empiricamente com uma amostra rotulada de fraudes, ainda que pequena e enviesada; ou (iii) aceitar e declarar apenas a taxa de alarme falso (Tipo I), deixando explícito que a taxa de detecção é desconhecida.
Sob perda 0-1, o corte ótimo é \(T_{CONJ}\): \(\pi_A p(x\mid\mathcal{C}_A)=\pi_B p(x\mid\mathcal{C}_B)\). Introduzindo custos \(C_I\) (custo de declarar \(\mathcal{C}_B\) quando a verdade é \(\mathcal{C}_A\)) e \(C_{II}=\lambda\,C_I\) (custo de declarar \(\mathcal{C}_A\) quando a verdade é \(\mathcal{C}_B\), \(\lambda\) vezes maior), a perda esperada total é \(R(t)=C_I\int_t^\infty \pi_A p(x\mid\mathcal{C}_A)\,dx + \lambda C_I\int_{-\infty}^t \pi_B p(x\mid\mathcal{C}_B)\,dx\), minimizada no corte que satisfaz \(\pi_A p(t\mid\mathcal{C}_A) = \lambda\,\pi_B p(t\mid\mathcal{C}_B)\) — a mesma equação de \(T_{CONJ}\), agora com a conjunta de \(\mathcal{C}_B\) multiplicada por \(\lambda\). Aplicando ao teste diagnóstico (\(p(D)=0{,}01\), \(p(+\mid D)=0{,}90\), \(p(+\mid\bar D)=0{,}03\)) com \(\lambda=10\) (falso negativo custa 10× mais que falso positivo): a decisão de declarar “doente” passa a favorecer mais fortemente o positivo — em vez de comparar \(p(+\mid D)p(D)\) com \(p(+\mid\bar D)p(\bar D)\) diretamente, compara-se \(p(+\mid D)p(D)\) com \(p(+\mid\bar D)p(\bar D)/\lambda\) (equivalentemente, pondera-se o custo de deixar passar a doença 10× mais); isso desloca o limiar de decisão na direção de detectar mais casos, aceitando mais falsos positivos em troca de menos falsos negativos — o mesmo mecanismo geométrico do Bloco de custo assimétrico, agora no caso discreto.
Questões de Verdadeiro/Falso
- ✔ Verdadeiro — Com prioris iguais, \(p(x,\mathcal{C}_A)=0{,}5\,p(x\mid\mathcal{C}_A)\) e \(p(x,\mathcal{C}_B)=0{,}5\,p(x\mid\mathcal{C}_B)\) são as condicionais escaladas pela MESMA constante; o ponto onde as conjuntas se cruzam é exatamente onde \(p(x\mid\mathcal{C}_A)=p(x\mid\mathcal{C}_B)\), ou seja, \(T_{COND}\). É a assimetria das prioris (\(0{,}95\) vs. \(0{,}05\)) que empurra \(T_{CONJ}\) para longe de \(T_{COND}\) no cenário de referência.
- ✔ Verdadeiro — Quanto mais próxima de \(1\) a priori de A, mais a conjunta de A domina em relação à de B em qualquer ponto, exigindo que \(x\) esteja cada vez mais “no território natural de B” antes que a conjunta de B ainda vença. O efeito já visto no cenário de referência (\(\pi_A=0{,}95 \Rightarrow T_{CONJ}\approx0{,}72\), bem à direita de \(T_{COND}\approx0{,}47\)) só se intensifica conforme \(\pi_A\to1\).
- ✔ Verdadeiro — É a mesma lição transferida para um domínio novo: sob perda 0-1, a regra ótima corta no cruzamento das CONJUNTAS, que incorpora a priori; ignorar uma priori tão assimétrica (\(99\%/1\%\)) e cortar nas condicionais é exatamente o erro “igualmente plausíveis \(\ne\) igualmente prováveis”.
- ✗ Falso — Duas coisas diferentes: o PONTO onde as condicionais se cruzam de fato não depende das prioris (é só \(p(x\mid\mathcal{C}_A)=p(x\mid\mathcal{C}_B)\)). Mas o erro total esperado, \(\pi_A\cdot\text{TipoI}(t)+\pi_B\cdot\text{TipoII}(t)\), pondera cada tipo de erro pela respectiva priori — mudar essa ponderação muda qual \(t\) minimiza o erro total, mesmo que o ponto de cruzamento das condicionais em si permaneça fixo.
- ✔ Verdadeiro — \(p(D\mid+)=\dfrac{\pi\cdot0{,}90}{\pi\cdot0{,}90+(1-\pi)\cdot0{,}03}\); conforme \(\pi\to0\), o numerador vai a zero mais rápido que o denominador (que tende a \(0{,}03>0\)), então a razão toda vai a zero. É a versão extrema do efeito de base rate já visto no cenário de referência (\(\pi=0{,}01\Rightarrow p(D\mid+)\approx23\%\)).
- ✔ Verdadeiro — Com \(\pi=0{,}5\): \(p(D\mid+)=\dfrac{0{,}5\times0{,}90}{0{,}5\times0{,}90+0{,}5\times0{,}03}=\dfrac{0{,}45}{0{,}465}\approx96{,}8\%\), de fato acima de \(90\%\) — o oposto do efeito de base rate baixa: com prevalência alta, um resultado positivo é uma evidência forte e confiável.
- ✔ Verdadeiro — Com \(\pi=0{,}0001\), sensibilidade \(0{,}99\), falso positivo \(0{,}01\): \(p(D\mid+)=\dfrac{0{,}0001\times0{,}99}{0{,}0001\times0{,}99+0{,}9999\times0{,}01}\approx0{,}98\%\) — bem menor que os \(\approx23\%\) do valor de referência, apesar da sensibilidade e especificidade melhores. Prevalência baixa domina até testes excelentes.
- ✗ Falso — A evidência é a probabilidade MARGINAL de um positivo, somada sobre TODAS as classes (doente e saudável) — é o mesmo denominador para qualquer classe do numerador, não uma quantidade específica de uma classe. Confundir a evidência (marginal) com uma conjunta específica é o erro clássico neste ponto da fórmula de Bayes.
- ✔ Verdadeiro — \(\text{Var}=\dfrac{ab}{(a+b)^2(a+b+1)}\); escrevendo \(a=kp\), \(b=k(1-p)\) com \(p\) fixo e \(k\to\infty\), a variância se reduz a \(\dfrac{p(1-p)}{k+1}\to0\). Mais “pseudo-observações” concentram a distribuição — a mesma lógica por trás de um prior Beta ficando mais “confiante” à medida que mais dados são incorporados.
- ✔ Verdadeiro — Baixar o limiar do percentil \(99\) para o \(95\) alarga a região de rejeição (de \(1\%\) para \(5\%\) da massa da Beta ajustada aos dados normais): mais escores — normais e anômalos — passam a cair acima do novo limiar. É exatamente o trade-off Tipo I/Tipo II: mais detecções verdadeiras, ao custo de mais falsos positivos.
- ✔ Verdadeiro — CTR é uma aplicação real e padrão de modelos Beta (inclusive combinada com Binomial em modelos Beta-Binomial de ad tech); a mesma patologia de zeros/uns exatos quebrando \(\ln(0)\) na verossimilhança se aplica sem qualquer diferença estrutural.
- ✗ Falso — Estimar bem \(p(x\mid\mathcal{C}_A)\) não dá nenhuma informação sobre \(p(x\mid\mathcal{C}_B)\) (a densidade das anomalias), que é justamente o que se precisa para calcular a taxa de detecção. Sem dados rotulados de anomalia, esse número exige alguma suposição extra (por exemplo, sobre a forma ou localização de \(\mathcal{C}_B\)).
- ✔ Verdadeiro — No caso unimodal com um único cruzamento, mover \(t\) para a direita tem uma troca monotônica clara: menos Tipo I, mais Tipo II. Com B bimodal envolvendo A, existe a possibilidade de, ao mover \(t\), sair de uma bolha de B (reduzindo Tipo II ali) e ainda se afastar da cauda de A (reduzindo Tipo I também) — a troca monotônica é uma consequência da geometria específica do caso unimodal-com-um-cruzamento, não uma lei geral.
- ✔ Verdadeiro — Se toda a reta é classificada como uma única classe, nenhum ponto dessa classe é classificado errado (erro \(0\%\) para ela) e todo ponto da outra classe é classificado errado (erro \(100\%\) para ela) — uma consequência puramente da definição de erro, válida para qualquer forma de densidade.
- ✔ Verdadeiro — Quando um tipo de erro custa mais que o outro, a regra ótima desloca o limiar para reduzir a taxa do erro mais caro, mesmo à custa de aumentar a taxa do erro mais barato — a mesma lógica do limiar assimétrico \(T_{CONJ}\) ponderado por custo (Convenções, questão discursiva 3): exigir mais evidência antes de classificar como spam reduz falsos positivos (o erro caro aqui), ao preço de deixar passar mais spam (o erro barato).
- ✗ Falso — As duas taxas se movem em direções opostas, mas não necessariamente na mesma “quantidade” — a soma Tipo I + Tipo II tem sua própria forma em função de \(t\), com um mínimo em algum ponto específico (relacionado a \(T_{CONJ}\), dependendo dos pesos). Se a soma fosse sempre constante, minimizar o erro total não faria sentido como problema.
- ✔ Verdadeiro — A Regra da Soma não é uma peculiaridade do caso \(K=2\) — a evidência é sempre \(\sum_{j=1}^K p(x,\mathcal{C}_j)\), com quantos termos forem necessários para cobrir todas as classes possíveis.
- ✔ Verdadeiro — Com \(\pi_B\to 0\), o termo \(\pi_B\,p(x\mid\mathcal{C}_B)\) no denominador de Bayes desaparece independentemente do quão bem \(x\) se encaixe em B, deixando a posteriori de A dominante — um prior suficientemente extremo pode, no limite, sobrepor-se a qualquer evidência finita.
- ✔ Verdadeiro — É a mesma mecânica de Bayes vista no teste diagnóstico (prior baixo exige razão de verossimilhança grande para deslocar a posteriori de forma substancial), transferida para um domínio de raciocínio jurídico — uma analogia comum e correta na literatura de raciocínio bayesiano.
- ✗ Falso — Igualar as verossimilhanças não iguala as posteriores se as prioris forem diferentes — a posteriori é proporcional ao PRODUTO dos dois termos, então diferenças na priori se propagam diretamente para diferenças na posteriori, mesmo com verossimilhanças idênticas.
- ✔ Verdadeiro — \(P(a\le X\le b)=\int_a^b p(x)dx \approx p(a)\cdot(b-a)\) para um intervalo estreito; não importa quão grande seja \(p(a)\), multiplicar por \((b-a)\to0\) leva o produto a zero. É exatamente a distinção entre densidade (pode ser grande) e probabilidade de um ponto (sempre zero no limite contínuo).
- ✔ Verdadeiro — Para variáveis discretas, a função de massa de probabilidade atribui, tipicamente, massa positiva a pontos individuais — é exatamente o que a distingue de uma densidade contínua. \(P(X=x)=0\) é uma propriedade das variáveis CONTÍNUAS, não uma lei universal de toda variável aleatória.
- ✔ Verdadeiro — Densidade \(=1/(10^{-6})=10^6\); integral \(=10^6\times10^{-6}=1\) — consistente. É a mesma lógica do exemplo Uniforme\([0,0{,}01]\) (densidade \(100\)), levada a um extremo ainda mais acentuado.
- ✗ Falso — Não há restrição de que \(p(x)\le1\) (não é um axioma real), mas \(p(x)\ge0\) EM TODO PONTO é, sim, um axioma genuíno de qualquer densidade de probabilidade. Confundir uma restrição inexistente (“\(\le1\)”) com a que de fato existe (“\(\ge0\)”) é o erro deste item.
- ✔ Verdadeiro — Curtose é um momento PADRONIZADO (a quarta potência dividida pelo quadrado da variância) — depende da FORMA da distribuição, não da sua escala. Uma Uniforme cada vez mais estreita mantém curtose em excesso \(-1{,}2\) para sempre, não importa quão pequena fique a variância; concentração não implica “ficar mais parecido com uma Gaussiana”.
- ✗ Falso — É um erro de conversa: simetria \(\Rightarrow\) skewness zero é verdadeiro, mas a implicação inversa não é — existem distribuições assimétricas cujo terceiro momento padronizado se anula por cancelamento entre desvios positivos e negativos, sem que a distribuição seja simétrica.
- ✔ Verdadeiro — É um fato bem estabelecido sobre distribuições de renda: a cauda longa à direita (poucas famílias muito ricas) puxa a média para cima, acima da mediana — a assinatura clássica de skewness positiva num caso real e comum.
- ✗ Falso — Compartilhar um único momento (o quarto, padronizado) não implica ser a mesma distribuição — existem distribuições não-Gaussianas com curtose em excesso exatamente zero. Um momento é um ponto de comparação, não uma impressão digital completa da distribuição.
- ✔ Verdadeiro — É um resultado clássico: \(t_\nu \to \mathcal{N}(0,1)\) conforme \(\nu\to\infty\) (a incerteza extra sobre a variância, que gera a cauda pesada, desaparece quando há graus de liberdade suficientes para estimá-la com precisão).
- ✔ Verdadeiro — É exatamente a definição operacional de cauda pesada: decaimento mais lento (polinomial, não exponencial-quadrático) atribui probabilidade não-desprezível a desvios extremos que uma Gaussiana consideraria virtualmente impossíveis.
- ✔ Verdadeiro — É um fato amplamente documentado em finanças quantitativas (eventos extremos — “crashes” e “rallies” — muito mais frequentes do que um modelo Gaussiano preveria), e é exatamente por isso que distribuições de cauda mais pesada são usadas nesse domínio.
- ✗ Falso — “Cauda mais pesada que a Gaussiana” e “variância infinita” são coisas diferentes: a \(t\) de Student com \(\nu>2\) tem variância finita (\(\nu/(\nu-2)\)), apesar de ainda ter cauda mais pesada que a Gaussiana. Só para \(\nu\le2\) a variância deixa de ser finita — a afirmação “para qualquer \(\nu\)” é o exagero que a torna falsa.
- ✔ Verdadeiro — O termo \((a-1)\ln x\) da log-verossimilhança é \(-\infty\) sempre que \(x=0\) e \(a\ne1\), não importa o sinal de \((a-1)\): com \(a>1\) a densidade vai suavemente a zero perto de \(x=0\), mas \(\ln(0)=-\infty\) multiplicado por qualquer constante não nula continua \(-\infty\). A armadilha de \(x=0\) não vem de a densidade divergir — vem do próprio logaritmo, presente na verossimilhança para qualquer \(a\ne1\).
- ✔ Verdadeiro — A patologia é sobre observações EXATAMENTE em \(0\) ou \(1\) quebrando o termo logarítmico da verossimilhança — se nenhum ponto observado está exatamente nas bordas, a verossimilhança permanece finita e bem definida em cada ponto, não importa quão pequenos sejam \(a\) ou \(b\).
- ✔ Verdadeiro — Notas mínimas e máximas (1 estrela ou 5 estrelas, por exemplo) são comuns em dados de avaliação real — um contraexemplo concreto à ideia de que essa armadilha é “só teórica”, desta vez num domínio diferente do exemplo de escores de anomalia.
- ✗ Falso — O clipping SUBSTITUI o valor observado (\(0\) ou \(1\)) pelo valor \(\varepsilon\) (ou \(1-\varepsilon\)) antes de calcular a verossimilhança — ele altera os dados de entrada, não apenas evita que o valor original entre na fórmula. É justamente essa substituição que precisa ser declarada com transparência, porque o ajuste resultante reflete os dados modificados, não os originais.
- ✔ Verdadeiro — Se as condicionais são idênticas, \(x\) não carrega nenhuma informação distintiva entre as classes; o melhor que qualquer classificador pode fazer é sempre prever a classe majoritária, com erro \(\min(\pi_A,\pi_B)\) — precisamente o teto do erro de Bayes possível para prioris fixas, atingido exatamente neste caso extremo.
- ✗ Falso — O erro de Bayes é um piso irredutível determinado pela sobreposição real das densidades verdadeiras — nenhuma quantidade de capacidade do modelo ou de dados pode superá-lo; mais parâmetros e mais dados aproximam o classificador do limite de Bayes, nunca o ultrapassam.
- ✔ Verdadeiro — É uma instância real e bem conhecida do mesmo princípio: quando a sobreposição entre distribuições de características é genuína (gêmeos idênticos), nenhum classificador — por melhor que seja — escapa do erro de Bayes correspondente a essa sobreposição.
- ✗ Falso — Depender de uma suposição não é o mesmo que ser inútil — significa que o número reportado deve ser interpretado com essa suposição em mente. Detectores de anomalia treinados só com dados normais são amplamente usados com sucesso na prática (fraude, monitoramento industrial); a conclusão “nunca são úteis” é um exagero que a evidência não sustenta.