Dados, Distribuições e Detecção de Anomalias

Aula 1 — Fundamentos Estatísticos do Aprendizado Supervisionado

Autor

Marcos M. Raimundo — Instituto de Computação, UNICAMP

Data de Publicação

26 de agosto de 2026

Slides Lista de aulas

1 Proposta do Curso

Este curso não busca ensinar algoritmos novos. Mas sim o que os algoritmos que você já usa realmente estão fazendo. A tese, em uma frase: todo algoritmo supervisionado é a composição de três peças — uma suposição distributiva, uma verossimilhança e uma regra de decisão. Este curso busca compreender essas três peças e como elas se combinam para formar o algoritmo completo. A consequência prática é que, quando um modelo falha, a pergunta deixa de ser “qual hiperparâmetro eu ajusto?” e passa a ser “qual das três peças está errada?”. Quase sempre é a primeira — a suposição distributiva.

Aprendizado supervisionado, na formulação mínima: existe um par \((x, y)\) com \(x \in X\) e um rótulo \(y\), existe uma distribuição conjunta desconhecida \(p(x, y)\), e dispomos de uma amostra \(\mathcal{D} = \{(x_n, y_n)\}_{n=1}^{N}\). Queremos uma função \(f : X \to Y\) que preveja \(y\) a partir de \(x\) com erro pequeno. Quando \(Y \in \mathbb{N}\) é finito, chamamos de classificação; quando \(Y \subseteq \mathbb{R}\), de regressão. A diferença entre os dois casos é menor do que parece — ela está quase inteiramente na escolha da distribuição do resíduo \(Y - f(X)\).

Nota importante, quando usamos a variável em minúsculo \(x\) ou \(y\), estamos nos referindo a uma realização da variável aleatória. Quando usamos a variável em maiúsculo \(X\) ou \(Y\), estamos nos referindo à própria variável aleatória. Logo \(Y - f(X)\) é uma variável aleatória.

A escolha de tratar o assunto estatisticamente e não algoritmicamente tem uma consequência prática imediata: quando um modelo falha, a pergunta deixa de ser “qual hiperparâmetro eu ajusto?” e passa a ser “qual das três peças está errada?”.

Bibliografia principal. Bishop, C. M. (2006), Pattern Recognition and Machine Learning, Springer — referido como PRML. Bishop, C. M. & Bishop, H. (2024), Deep Learning: Foundations and Concepts, Springer — referido como DLFC. As duas referências são usadas em paralelo ao longo do curso; quando divergem em notação ou ênfase, a divergência é apontada explicitamente.

A aula de hoje abre com uma pergunta cuja resposta parece óbvia e não é:

O que exatamente significa “aprender a distribuição dos dados”?


2 Distribuições, classificação e erros

2.1 O que é uma distribuição

Considere duas populações medidas em uma única variável \(x\) — pense em um escore normalizado, de modo que \(x \in [0,1]\). Cada população produz um histograma, e sobre cada histograma podemos desenhar uma curva suave que acompanha o formato do histograma. Neste momento a definição operacional é deliberadamente pobre:

Uma distribuição é o formato que os dados assumem no espaço.

Nada além disso, por enquanto. Não há fórmula, não há família paramétrica, não há nome próprio. A curva é um resumo geométrico do histograma. Toda a maquinaria — famílias, parâmetros, estimadores — virá depois, e virá quando fizer falta.

Vale notar já o que a curva não é. Ela não é uma probabilidade: a altura da curva em um ponto não é “a chance de \(x\) valer aquilo”. Voltaremos a esse ponto com cuidado no Bloco 2, porque ele causa confusão real.


A mesma ideia sobrevive intacta em duas dimensões. O histograma vira uma nuvem de pontos e a curva vira um conjunto de curvas de nível. O objeto é o mesmo; só a dimensão do espaço mudou.

Duas observações a guardar, ambas sementes de aulas futuras. Primeira: em duas dimensões ainda dá para desenhar, e o desenho continua informativo. Segunda: em vinte dimensões não dá — e o problema não é apenas gráfico. Estimar o formato de uma nuvem em \(\mathbb{R}^{20}\) com dados finitos é um problema qualitativamente diferente, o que vamos discutir em aulas futuras.


2.2 Classificação e o problema da discretização/corte

De volta a uma dimensão. As duas curvas se sobrepõem em uma faixa central. Um ponto que cai nessa faixa poderia ter vindo de qualquer uma das duas populações.

Suponha que você precise decidir, para cada novo \(x\), se ele veio de A ou de B. A regra mais simples possível é um limiar: escolher um valor \(t\) e declarar “classe A” quando \(x \le t\), “classe B” quando \(x > t\).

A pergunta: onde você corta?

Antes de continuar, responda. A resposta que quase toda turma dá é no ponto em que as duas curvas se cruzam. É uma resposta com boa aparência: é o ponto onde “as duas populações são igualmente plausíveis”, e ele tem a virtude de ser simétrico e de não exigir arbitragem.

Anote essa resposta. Ela está errada, e o resto do bloco existe para mostrar por quê e para mostrar qual é a correção.


2.3 Tipos de erros

Fixado o corte no cruzamento, existem exatamente dois tipos de erro, e eles correspondem a duas áreas na figura:

  • pontos da classe A que caem à direita do corte e são declarados B;
  • pontos da classe B que caem à esquerda do corte e são declarados A.

O vocabulário vem em duas camadas — primeiro a intuitiva, depois a técnica:

Intuitivo Técnico Também chamado
alarme falso erro Tipo I falso positivo
escape, o que passou batido erro Tipo II falso negativo

Advertência necessária. Os rótulos “Tipo I” e “Tipo II” não são propriedades da figura. Eles só ficam definidos depois que você declara qual classe é a hipótese nula. Em detecção de anomalia a convenção é natural: a nula é “normal”, e portanto o alarme falso é sinalizar anomalia onde não havia. Em um problema simétrico — dois dígitos manuscritos, duas espécies — a atribuição é pura convenção e precisa ser anunciada antes do uso, sob pena de a discussão inteira ficar ambígua. Nesta aula fixamos: A é a nula (normal), B é a alternativa (anômala).

O primeiro resultado real da aula é geométrico, não algébrico. Olhe as duas áreas hachuradas e mova o corte mentalmente:

Deslocar \(t\) para a esquerda aumenta a área de alarme falso e diminui a área de escape. Deslocar para a direita faz o oposto. Não existe \(t\) que zere as duas.

Esse é o compromisso fundamental da decisão sob sobreposição, e ele não é uma limitação do método: é uma propriedade das distribuições. Enquanto houver sobreposição, haverá erro irredutível — o chamado erro de Bayes. Nenhum classificador, por mais sofisticado, o elimina. Uma rede neural com um bilhão de parâmetros aplicada a este problema unidimensional não erra menos do que o melhor limiar; ela apenas gasta mais para chegar ao mesmo lugar.


A figura seguinte torna o compromisso quantitativo: para cada posição do corte, a fração de cada tipo de erro. As duas curvas são monótonas em direções opostas e não se anulam simultaneamente em ponto algum do domínio.


2.4 A conta que desmente a intuição

Até aqui uma informação foi omitida de propósito: as duas classes não são igualmente frequentes. Na amostra simulada há 950 pontos da classe A e 50 da classe B, num total de 1.000. A razão é 19 para 1.

Isso não muda nada nas curvas desenhadas — elas descrevem cada classe isoladamente, e continuam válidas. Mas muda tudo na contagem de erros, porque a contagem é feita sobre a amostra inteira, e nela A é dezenove vezes mais numerosa.

Vamos contar os erros de verdade, sobre os pontos simulados, em duas posições do corte: no cruzamento das curvas, que foi a resposta da turma, e num corte deslocado para a direita.

O corte deslocado erra muito menos. E ele não foi escolhido por tentativa e erro: sai de um princípio, que é o assunto do próximo passo.

O desconforto aqui é o ponto pedagógico. A resposta “corte no cruzamento” era intuitivamente óbvia, tinha justificativa verbal razoável — “é onde as duas são igualmente plausíveis” — e os dados acabaram de desmenti-la. Vale registrar exatamente onde a justificativa verbal falhou: igualmente plausíveis estava sendo confundido com igualmente prováveis. São coisas diferentes, e a diferença é a frequência das classes.

DicaPor que o corte “no cruzamento das curvas” está errado, e o que falta entrar na conta?

Escreva, com suas palavras, e compare a sua frase com a de um colega antes de avançar (2 min).

3 Regra do Produto, Marginais e Teorema de Bayes

Antes de corrigir a fronteira de decisão, precisamos formalizar a linguagem. Todas as probabilidades e densidades manipuladas nesta aula derivam de apenas duas regras fundamentais da teoria de probabilidade: a Regra da Soma e a Regra do Produto (PRML §1.2, pp. 14–24; DLFC §2.1.2, pp. 26–28).

3.1 Um pouco de teoria de probabilidade

Considere duas variáveis aleatórias: uma variável contínua \(X \in \mathcal{X}\) (as nossas medições) e uma variável discreta \(Y \in \{\mathcal{C}_1, \dots, \mathcal{C}_K\}\) (os rótulos de classe).

3.1.1 Distribuição Conjunta: \(p(x, \mathcal{C}_k)\)

A distribuição conjunta descreve a probabilidade de duas coisas acontecerem simultaneamente: a observação pertencer à classe \(\mathcal{C}_k\) e o valor medido cair nas proximidades de \(x\).

  • Em termos geométricos, é a curva (ou superfície) que leva em conta tanto o formato dos dados quanto a frequência relativa da classe no espaço original de amostragem.

3.1.2 Distribuição Condicional: \(p(x \mid \mathcal{C}_k)\) e \(p(\mathcal{C}_k \mid x)\)

A distribuição condicional descreve o comportamento de uma variável dado que a outra é fixada ou conhecida:

  • \(p(x \mid \mathcal{C}_k)\) é a densidade condicional de classe (ou verossimilhança): responde “sabendo que a observação vem da classe \(\mathcal{C}_k\), qual é a distribuição dos valores \(x\)?”.
  • \(p(\mathcal{C}_k \mid x)\) é a probabilidade a posteriori: responde a pergunta inversa e crucial do aprendizado supervisionado — “dado que observei o valor \(x\), qual é a probabilidade de ele ter vindo da classe \(\mathcal{C}_k\)?”.

3.1.3 Distribuição Marginal: \(p(x)\)

A distribuição marginal (ou evidência) representa a distribuição de \(X\) ignorando a qual classe cada ponto pertence. Obtemos a marginal somando (ou integrando) a conjunta sobre todos os estados da outra variável (Regra da Soma):

\[ p(x) \;=\; \sum_{j=1}^{K} p(x, \mathcal{C}_j) \;=\; \sum_{j=1}^{K} p(x \mid \mathcal{C}_j)\,p(\mathcal{C}_j). \]

3.1.4 A Regra do Produto e o Teorema de Bayes

A Regra do Produto relaciona a conjunta às condicionais e prioris:

\[ p(x, \mathcal{C}_k) \;=\; p(x \mid \mathcal{C}_k)\,p(\mathcal{C}_k) \;=\; p(\mathcal{C}_k \mid x)\,p(x). \]

Igualando as duas formas de reescrever a distribuição conjunta e isolando a posteriori \(p(\mathcal{C}_k \mid x)\), obtemos o Teorema de Bayes:

\[ \boxed{\;p(\mathcal{C}_k \mid x) \;=\; \frac{p(x \mid \mathcal{C}_k)\,p(\mathcal{C}_k)}{p(x)} \;=\; \frac{p(x \mid \mathcal{C}_k)\,p(\mathcal{C}_k)}{\sum_{j} p(x \mid \mathcal{C}_j)\,p(\mathcal{C}_j)}\;} \]

A leitura dos quatro papéis do Teorema de Bayes:

  • Priori \(p(\mathcal{C}_k)\): O conhecimento sobre a prevalência da classe antes de medir \(x\).
  • Verossimilhança \(p(x \mid \mathcal{C}_k)\): A compatibilidade da medição \(x\) com a classe \(\mathcal{C}_k\).
  • Evidência \(p(x)\): Um fator de normalização que garante que \(\sum_k p(\mathcal{C}_k \mid x) = 1\).
  • Posteriori \(p(\mathcal{C}_k \mid x)\): A incerteza atualizada sobre a classe após observar a evidência \(x\).

3.2 A importancia da priori e Bayes

Por que o corte no cruzamento falhou? Porque as curvas que desenhamos descrevem o formato de cada classe isoladamente. Elas respondem à pergunta “se o ponto veio de A, onde ele tende a cair? (\(P(x \mid \mathcal{C}_A)\))”. Não respondem à pergunta que importa, que é “de onde este ponto veio? (\(P(\mathcal{C}_k \mid x)\))”.

Para responder à segunda pergunta é preciso incorporar a informação que estava faltando: uma das classes é dezenove vezes mais frequente. A correção é literalmente escalar cada curva pela frequência da sua classe e cortar no cruzamento das curvas escaladas.

Agora, com os objetos já em cima da mesa, vale nomeá-los.

  • A frequência de cada classe é a priori: \(\pi_k = p(\mathcal{C}_k)\), com \(\pi_A = 0{,}95\) e \(\pi_B = 0{,}05\).
  • A curva isolada é a densidade condicional de classe: \(p(x \mid \mathcal{C}_k)\).
  • A curva escalada é a conjunta: \[p(x, \mathcal{C}_k) \;=\; p(x \mid \mathcal{C}_k)\, \pi_k .\]
  • Decidir pela conjunta maior é decidir pela posteriori maior, porque \[p(\mathcal{C}_k \mid x) \;=\; \frac{p(x \mid \mathcal{C}_k)\,\pi_k}{p(x)}\] \[\qquad\text{e } p(x) = \sum_j p(x \mid \mathcal{C}_j)\,\pi_j \text{ não depende de } k .\]

A prova de que o cruzamento das conjuntas é ótimo

Uma regra de decisão binária é uma partição \(\mathcal{X} = \mathcal{R}_A \cup \mathcal{R}_B\), com \(\mathcal{R}_A \cap \mathcal{R}_B = \emptyset\). A probabilidade de erro é (PRML, eqs. 1.78–1.79, pp. 39–40)

\[ p(\text{erro}) = \int_{\mathcal{R}_A} p(x, \mathcal{C}_B)\,\mathrm{d}x + \int_{\mathcal{R}_B} p(x, \mathcal{C}_A)\,\mathrm{d}x . \]

Cada ponto \(x\) contribui para exatamente uma das duas integrais, e a escolha de qual delas é livre e independente ponto a ponto. Logo o mínimo é obtido atribuindo cada \(x\) à região cuja contribuição é menor:

\[ x \in \mathcal{R}_A \iff p(x, \mathcal{C}_A) > p(x, \mathcal{C}_B) \iff p(\mathcal{C}_A \mid x) > p(\mathcal{C}_B \mid x). \]

A fronteira ótima é, portanto, o conjunto \(\{x : p(x,\mathcal{C}_A) = p(x,\mathcal{C}_B)\}\) — o cruzamento das conjuntas. Em termos de razão de verossimilhanças, a mesma condição é

\[ \frac{p(x \mid \mathcal{C}_B)}{p(x \mid \mathcal{C}_A)} \;=\; \frac{\pi_A}{\pi_B} \;=\; 19 , \]

o que explica quantitativamente por que o corte se deslocou tanto para a direita: só vale declarar B quando a evidência a favor de B for dezenove vezes mais forte, porque B é dezenove vezes mais rara.

Note o que o argumento não usou: nenhuma família paramétrica, nenhuma suposição de normalidade, nenhuma condição de regularidade além da existência das densidades. O resultado é geral.

Referência para a figura. PRML, Figura 1.24, p. 40, e §1.5.1, pp. 39–41. Atenção ao ler: essa figura plota as conjuntas, não as condicionais. Essa é exatamente a distinção que este bloco construiu, e é por isso que a figura só faz sentido depois do percurso, e não antes.


3.3 Exemplo: triagem médica

O mesmo fenômeno, agora no caso discreto e num contexto familiar. O exemplo é de DLFC §2.1.1, pp. 25–26, retomado em §2.1.4, p. 30.

Uma doença tem prevalência de 1 em 100. Um teste detecta a doença em 90% dos doentes (\(\text{sensibilidade} = 0{,}90\)) e produz resultado positivo em 3% dos saudáveis (\(\text{falso positivo} = 0{,}03\)). Uma pessoa testa positivo. Qual a probabilidade de que esteja doente?

\[ \begin{aligned} p(D \mid +) &= \frac{p(+ \mid D)\,p(D)}{p(+ \mid D)\,p(D) + p(+ \mid \bar{D})\,p(\bar{D})}\\ & = \frac{0{,}90 \times 0{,}01}{0{,}90 \times 0{,}01 + 0{,}03 \times 0{,}99}\\ & = \frac{0{,}0090}{0{,}0387} \approx 0{,}233 . \end{aligned} \]

Cerca de 23% — não 90%, que é a resposta que a maioria dá. A intuição falha aqui exatamente como falhou no Passo 4, e pela mesma razão: a verossimilhança \(p(+ \mid D) = 0{,}90\) é alta, mas a priori \(p(D) = 0{,}01\) é baixíssima, e o produto é o que decide.

Em contagens absolutas, sobre 10.000 pessoas: 100 doentes, das quais 90 testam positivo; 9.900 saudáveis, das quais 297 testam positivo. Total de 387 positivos, 90 dos quais realmente doentes — 23%.

Esta é a segunda aparição do mesmo fenômeno em poucos minutos, e não a primeira. É por isso que ela funciona: a turma já sabe que a raridade da classe muda a conclusão, e aqui apenas reencontra o fato no caso discreto.

DicaNo exemplo da triagem médica, qual número é a priori? Qual é a verossimilhança? Qual é a evidência?

Escreva os três nomes ao lado dos três números do enunciado, e confira com um colega (2 min).

4 Propriedades de Distribuições Contínuas

Antes de tratar a Beta em detalhe, precisamos formalizar as ferramentas matemáticas que nos permitem caracterizar, comparar e ajustar uma variável aleatória contínua \(X \in \mathcal{X} \subseteq \mathbb{R}\).

4.1 Densidade vs. Probabilidade

Para uma variável aleatória contínua, a probabilidade de um valor exato é zero (\(P(X = x) = 0\)). O objeto fundamental é a função densidade de probabilidade (PDF) \(p(x)\) (DLFC §2.2, pp. 32–33):

\[ P(a \le X \le b) = \int_a^b p(x)\,\mathrm{d}x, \qquad p(x) \ge 0, \qquad \int_{-\infty}^{\infty} p(x)\,\mathrm{d}x = 1. \]

Duas consequências imediatas essenciais para o resto do curso:

  1. A densidade pode exceder \(1\): A restrição de integração a 1 limita a área, não a altura. Uma distribuição Uniforme no intervalo \([0, 0{,}01]\) possui densidade constante \(p(x) = 100\). Aqui está o trecho com a formatação original em Markdown, sem as tags do LaTeX, pronto para você substituir no seu documento Quarto:

  2. Mudança de variável e o Jacobiano: Diferente de uma probabilidade discreta, a densidade se altera quando “esticamos” ou “encolhemos” o espaço para garantir que a probabilidade total (a área sob a curva) seja preservada. Se \(y = g(x)\) for uma transformação bijetora e diferenciável, a probabilidade em um pequeno intervalo deve ser a mesma nos dois espaços: \(p_Y(y)\,\mathrm{d}y = p_X(x)\,\mathrm{d}x\). Isolando \(p_Y(y)\), obtemos a regra da mudança de variável, que inclui o Jacobiano (o fator que mede a distorção do espaço):

\[p_Y(y) \;=\; p_X\big(g^{-1}(y)\big) \left\vert{} \frac{\mathrm{d}g^{-1}(y)}{\mathrm{d}y} \right\vert{}.\]

Exemplo prático: Seja \(X\) uma variável com densidade uniforme no intervalo \([0, 2]\), ou seja, \(p_X(x) = 0{,}5\). Se aplicarmos a transformação quadrática \(y = x^2\) (bijetora para \(x \ge 0\)), a função inversa é \(x = \sqrt{y}\). A derivada é \(\frac{\mathrm{d}x}{\mathrm{d}y} = \frac{1}{2\sqrt{y}}\). A nova densidade não é apenas o valor antigo realocado, mas sim multiplicada pela distorção:

\[p_Y(y) \;=\; 0{,}5 \times \left\vert{} \frac{1}{2\sqrt{y}} \right\vert{} \;=\; \frac{1}{4\sqrt{y}} \quad \text{para } y \in (0, 4].\]

O problema da moda: O exemplo acima mostra que uma densidade constante (plana) se transformou em uma curva que diverge perto de \(y=0\). Por carregar este Jacobiano, a moda de uma densidade não é invariante a reparametrizações. O pico da distribuição muda de lugar dependendo de como o espaço é medido, enquanto a decisão discreta de classificação (\(\arg\max_k p(\mathcal{C}_k \mid x)\)) permanece imune a isso.

4.2 Resumos Populacionais: Os Momentos

Os momentos são resumos numéricos que descrevem a localização, dispersão e forma da densidade \(p(x)\).

  • Momento de Ordem \(k\) (em relação à origem): \[ \mu_k' = \mathbb{E}[X^k] = \int_{-\infty}^{\infty} x^k p(x)\,\mathrm{d}x. \]
  • Primeiro Momento (Média / Valor Esperado): \(\mu = \mathbb{E}[X]\). Define o centro de massa da distribuição.
  • Momentos Centrais de Ordem \(k\) (em relação à média): \[ \mu_k = \mathbb{E}[(X - \mu)^k] = \int_{-\infty}^{\infty} (x - \mu)^k p(x)\,\mathrm{d}x. \]
  • Segundo Momento Central (Variância): \(\sigma^2 = \operatorname{Var}[X] = \mathbb{E}[(X - \mu)^2] = \mathbb{E}[X^2] - \mu^2\). Mede a dispersão ao redor do centro.
  • Terceiro Momento Central Padronizado (Assimetria / Skewness): \(\gamma_1 = \mathbb{E}\!\left[\left(\frac{X - \mu}{\sigma}\right)^3\right]\). Mede o desequilíbrio das caudas em relação ao centro (\(\gamma_1 = 0\) para distribuições simétricas).
  • Quarto Momento Central Padronizado (Curtose / Kurtosis): \(\gamma_2 = \mathbb{E}\!\left[\left(\frac{X - \mu}{\sigma}\right)^4\right] - 3\). Mede a concentração no centro e o peso relativo das caudas em comparação à Gaussiana (\(\gamma_2 = 0\)).

4.3 Caudas de uma Distribuição

A cauda da distribuição descreve a taxa de decaimento de \(p(x)\) quando \(|x| \to \infty\). O comportamento assintótico da cauda dita a probabilidade atribuída a eventos extremos (valores muito distantes da média).

  • Caudas Leves (Exponenciais ou Sub-gaussianas): O decaimento ocorre na taxa de \(\exp(-x^2)\) ou \(\exp(-x)\). Exemplos: Gaussiana, Exponencial. Eventos a \(5\sigma\) da média são praticamente impossíveis.
  • Caudas Pesadas (Polinomiais / Sub-exponenciais): O decaimento ocorre a uma taxa de potência \(x^{-\nu}\). Exemplo: \(t\) de Student, Pareto. A probabilidade de observações extremas decai muito devagar, tornando o surgimento de outliers um fenômeno estrutural e esperado.
DicaPor que ajustar uma Gaussiana a escores de crédito normalizados em \([0,1]\) é, no mínimo, arriscado?

Escreva um argumento em uma frase, sem usar a palavra “feio” (2 min).

5 Detecção de Outliers

Muitas variáveis de interesse vivem confinadas em \([0,1]\): escores de crédito normalizados, taxas de inadimplência, proporções de uso, frações de tempo, probabilidades calibradas na saída de um classificador. Para todas elas, a Gaussiana é uma escolha ruim — e o problema não é estético.

Uma Gaussiana ajustada a dados em \([0,1]\) coloca massa fora do suporte. Se a média estimada for \(0{,}15\) e o desvio \(0{,}12\), o modelo atribui cerca de 10% de probabilidade a valores negativos, que são impossíveis. Pior: um limiar calculado como quantil desse modelo pode cair fora do domínio — um limiar em \(-0{,}03\) não é conservador, é sem sentido, e o código que o usa não vai reclamar.

O suporte do modelo é uma decisão de modelagem, não uma tecnicalidade.

A distribuição Beta (PRML, eq. 2.13, p. 71) é a escolha natural:

\[ \operatorname{Beta}(x \mid a, b) = \frac{\Gamma(a+b)}{\Gamma(a)\,\Gamma(b)}\; x^{a-1}\,(1-x)^{b-1}, \qquad x \in [0,1],\quad a,b > 0 , \]

onde \(\Gamma(\cdot)\) é a função gama, que satisfaz \(\Gamma(z+1) = z\,\Gamma(z)\) e \(\Gamma(n) = (n-1)!\) para \(n\) inteiro. O fator \(\Gamma(a+b)/[\Gamma(a)\Gamma(b)]\) é exatamente o inverso da função beta \(B(a,b)\), e garante normalização.

Com apenas dois parâmetros, a família cobre uma variedade de formatos notável (PRML, Figura 2.2, p. 72):

  • \(a, b < 1\): forma de U — massa nas duas extremidades, densidade divergente nas bordas;
  • \(a = b = 1\): uniforme;
  • \(a, b > 1\): unimodal, com assimetria controlada pela razão \(a/b\);
  • \(a = b\): simétrica em torno de \(0{,}5\), com concentração crescente em \(a\).
AvisoAviso de leitura — PRML §2.1.1

O PRML introduz a Beta como priori conjugada sobre o parâmetro \(\mu\) de uma Bernoulli, não como densidade de dados observados. Aqui usamos a Beta como modelo de observações contínuas em \([0,1]\).

A matemática é a mesma; a interpretação não é. No PRML, o argumento da Beta é um parâmetro desconhecido; aqui, é um dado medido. Quem for ler §2.1.1 sem esse aviso vai se perder — e o DLFC não ajuda, porque não cobre a Beta em lugar nenhum.


5.1 Ajustar a Beta

Não há solução em forma fechada para Beta, e é preciso resolvê-lo numericamente — Newton, ou scipy.stats.beta.fit. O problema é bem comportado (\(\ell\) é côncava nesta parametrização), mas isso não produz uma fórmula.

Note que as estatísticas suficientes são \(\sum_n \ln x_n\) e \(\sum_n \ln(1-x_n)\)médias logarítmicas, não a média aritmética. É por isso que momentos e MLE dão respostas diferentes, e é por isso que zeros e uns exatos são fatais: \(\ln 0 = -\infty\).

Este contraste é o primeiro encontro do curso com uma distinção que retorna nas Aulas 5 e 7:

Forma fechada e otimalidade são propriedades diferentes. O estimador de momentos tem fórmula e não é eficiente; o de máxima verossimilhança é assintoticamente eficiente e não tem fórmula.

ImportanteArmadilha prática: zeros e uns exatos

Quando \(a < 1\) ou \(b < 1\), a densidade da Beta diverge nas extremidades, e uma observação exatamente igual a \(0\) ou \(1\) torna a verossimilhança infinita ou indefinida. Dados reais limitados a \([0,1]\) contêm zeros exatos com enorme frequência — taxas de inadimplência de carteiras sem eventos, proporções de uso nulo, escores saturados.

Correções honestas: (i) clipping para \([\varepsilon, 1-\varepsilon]\), declarando \(\varepsilon\); (ii) a transformação de Smithson–Verkuilen, \(x' = \big(x(N-1) + 1/2\big)/N\); (iii) modelos zero/one-inflated, que tratam as bordas como uma componente discreta separada. A pior opção é descobrir isso em silêncio no laboratório e mexer no dado até o fit parar de reclamar.

Nota rápida — a família também importa para robustez, não só para o suporte. O mesmo raciocínio de “qual família assumir” que escolheu a Beta pelo suporte tem uma segunda dimensão: o gradiente da log-verossimilhança da Gaussiana cresce linearmente com a distância do ponto ao centro e nunca satura, enquanto o da \(t\) de Student satura e vai a zero quando o ponto está muito longe — por isso a \(t\) é o ajuste padrão quando se espera outliers no próprio processo de estimação (não confundir com a detecção de anomalias do próximo bloco, que é sobre pontos novos, não sobre robustez do ajuste).


5.2 Detecção de anomalias e o limiar

Mude agora o cenário. Suponha que você não tenha exemplos rotulados de anomalia — o caso realista na maior parte das aplicações de monitoramento. Você dispõe apenas de uma amostra do comportamento normal.

O procedimento padrão: ajustar uma densidade \(p(x)\) somente aos dados normais e declarar anômalo o que cai numa região de exclusão. Duas formas usuais de definir essa região:

  • cauda: \(\{x > t\}\) — apropriada quando a anomalia é direcional;
  • conjunto de nível: \(\{x : p(x) < \lambda\}\) — apropriada em geral, e a única que generaliza para \(\mathbb{R}^d\).

Com a Beta ajustada, a taxa de alarme falso é exatamente calculável, porque é uma integral da densidade ajustada:

\[ \text{Tipo I} \;=\; P(x > t) \;=\; 1 - I_t(a, b), \]

onde \(I_t(a,b) = B(t; a, b)/B(a,b)\) é a função beta incompleta regularizada — a CDF da Beta. Invertendo, o limiar que produz exatamente uma taxa de alarme falso \(\alpha\) é o quantil

\[ t_\alpha = I^{-1}_{1-\alpha}(a, b). \]

Ou seja: o limiar deixa de ser um número escolhido a olho e passa a ser um quantil do modelo ajustado, com taxa de alarme falso \(\alpha\) por construção.

A limitação que o Bloco 1 tornou visível

NotaO ponto central da aula

Com uma única densidade ajustada, o erro Tipo II não está definido.

Não existe modelo do que é uma anomalia. Logo, a probabilidade de deixar passar uma anomalia — \(P(x \le t \mid \text{anômalo})\) — não pode ser calculada, porque a distribuição condicionante não existe.

Compare com o Bloco 1: lá havia duas curvas, e os dois erros eram duas áreas, ambas mensuráveis. Aqui há uma curva, e só uma das áreas existe. A assimetria não é um defeito do método — é uma consequência direta de não haver dados da segunda classe.

Este é o momento de maior retorno da aula, e ele só funciona nesta ordem. Se a detecção de anomalia viesse antes do caso de duas classes, a ausência da segunda curva não seria sentida como ausência — seria apenas a forma como as coisas são.

Três saídas honestas

1. Assumir um modelo de anomalia. A escolha mais simples é a uniforme, \(q(x) = 1\) em \([0,1]\). Nesse caso a razão de verossimilhanças fica

\[ \frac{q(x)}{p(x)} = \frac{1}{p(x)} , \]

e o teste ótimo “declarar anomalia quando \(q(x)/p(x) > \tau\)” é idêntico a “declarar anomalia quando \(p(x) < 1/\tau\)” — isto é, ao conjunto de nível.

A conclusão merece ser dita em voz alta: cortar na cauda já é supor, implicitamente, que anomalias são uniformes. A suposição estava lá o tempo todo, apenas escondida. Isso importa porque a suposição é frequentemente ruim — em muitos domínios as anomalias se concentram em regiões específicas, e uma uniforme é a pior descrição possível desse fato.

2. Estimar empiricamente. Se houver uma amostra contaminada com anomalias rotuladas, ainda que pequena e enviesada, o Tipo II pode ser estimado nela. A estimativa herda todos os vieses da amostra rotulada — e em domínios com seleção (crédito, fraude, triagem) esses vieses são severos, porque só se observa o rótulo de quem foi aprovado.

3. Aceitar e declarar. Reportar apenas a taxa de alarme falso, deixando explícito que a taxa de detecção é desconhecida. Isso é legítimo, desde que declarado. O que não é legítimo é apresentar um número de “detecção” derivado de uma suposição não anunciada.

6 Teoria da Decisão: Custo, Avaliação e Rejeição

Voltamos ao cenário de duas classes dos Blocos 1–4 — as populações A e B, a fronteira \(T_{CONJ}\) que corta no cruzamento das conjuntas \(\pi_A f_A(x)\) e \(\pi_B f_B(x)\). Até aqui, cada erro contou como um ponto: um alarme falso e um escape pesavam exatamente o mesmo na conta. Essa suposição — chamada perda 0-1 — foi conveniente para introduzir a ideia de fronteira ótima, mas raramente é verdadeira na prática. Deixar passar uma transação fraudulenta não custa o mesmo que investigar uma transação legítima por engano; deixar passar um tumor não custa o mesmo que pedir um exame extra. Esta seção trata do que muda quando os dois erros deixam de pesar igual, de como avaliar um classificador além da contagem bruta de acertos, e de uma terceira opção — não decidir — que a perda 0-1 nunca permitiu considerar.

6.1 Custo assimétrico: nem todo erro pesa o mesmo

A ideia central é substituir a contagem de erros por uma função de perda \(L(\text{decisão}, \text{classe verdadeira})\), um número que resume o prejuízo de cada decisão possível (PRML §1.5.2, p. 41; DLFC §5.2.1–5.2.3, pp. 139–143). Com duas classes e duas decisões, a perda tem quatro entradas, mas só duas importam quando os acertos não custam nada: \(C_I\), o custo de um alarme falso (decidir B quando a verdade é A), e \(C_{II}\), o custo de um escape (decidir A quando a verdade é B).

A perda esperada total, somada sobre a população inteira, é

\[ R(t) = C_I \int_t^{\infty} \pi_A f_A(x)\, dx \;+\; C_{II} \int_{-\infty}^{t} \pi_B f_B(x)\, dx . \]

Minimizar \(R(t)\) em relação ao corte \(t\) leva à mesma lógica do Bloco 4, só que agora ponderada pelo custo: o corte ótimo cai exatamente onde as duas perdas marginais se equilibram,

\[ C_I\, \pi_A f_A(t) \;=\; C_{II}\, \pi_B f_B(t). \]

Quando \(C_I = C_{II}\), essa equação é idêntica à do Bloco 4 e devolve \(T_{CONJ}\). A perda 0-1 não é um caso mais simples — é o caso particular em que os dois custos coincidem por suposição, quase nunca por justificativa.

Exemplo concreto, o mesmo do Exercício 3: suponha que deixar passar uma anomalia real (escape, Tipo II) custe 10 vezes mais que investigar um alarme falso (Tipo I) — \(C_{II}/C_I = 10\). A figura abaixo mostra as duas curvas ponderadas pelo custo e o novo corte \(T_{custo}\), ao lado do antigo \(T_{CONJ}\).

O corte se move de \(T_{CONJ} \approx 0{,}72\) para \(T_{custo} \approx 0{,}53\) — mais à esquerda, mais perto do território de B. Isso é exatamente o que se espera: se um escape agora custa dez vezes mais, o modelo deve ficar mais disposto a arriscar um alarme falso para evitá-lo. Note que o custo puxou a fronteira de volta em direção a \(T_{COND} \approx 0{,}47\) (o cruzamento ingênuo das condicionais do Bloco 1) — sem coincidir com ele: a assimetria de custo (fator 10) compensa parte da assimetria de frequência (fator 19), mas não toda.

6.2 Além da acurácia: matriz de confusão, precisão e recall

Mudar o corte muda os números — mas “número de erros” já não é a métrica certa para comunicar o resultado, porque ela trata os dois tipos de erro como intercambiáveis (voltamos à perda 0-1 pela porta dos fundos se resumirmos tudo a “acurácia”). A ferramenta padrão é a matriz de confusão (DLFC §5.2.5, pp. 147–148), que separa os quatro desfechos possíveis. Convencionamos B como a classe positiva (é a classe rara, a “alternativa” já fixada no Bloco 1):

previsto A previsto B
real A verdadeiro negativo (VN) falso positivo (FP) — alarme falso
real B falso negativo (FN) — escape verdadeiro positivo (VP)

Dela derivam três resumos, cada um respondendo uma pergunta diferente:

\[ \text{precisão} = \frac{VP}{VP+FP}, \qquad \text{recall} = \frac{VP}{VP+FN}, \qquad \text{FPR} = \frac{FP}{FP+VN}. \]

Precisão responde “dos alarmes que o modelo disparou, quantos eram reais?”. Recall responde “das anomalias reais, quantas o modelo pegou?” — é o mesmo complemento da taxa de escape (Tipo II) que já usamos desde o Bloco 1. Nenhuma das duas, sozinha, resume o desempenho; um modelo que nunca dispara alarme tem precisão indefinida e recall zero, e um modelo que dispara sempre tem recall \(100\%\) e precisão igual à prevalência de B.

O paradoxo da acurácia. Com \(\pi_A=0{,}95\), um classificador ingênuo que sempre declara “A”, sem olhar para \(x\), já acerta \(95\%\) das vezes (DLFC ilustra o mesmo ponto com um exemplo de triagem de câncer em que “não fazer nada” atinge \(99{,}9\%\) de acurácia — §5.2.5, p. 148). Isso não é um classificador útil; é um classificador que nunca encontra uma única anomalia. A acurácia, sozinha, não distingue os dois casos.

Os números confirmam o paradoxo com a própria amostra da aula: em \(t=T_{CONJ}\), a acurácia é \(95{,}6\%\) — só \(0{,}6\) ponto percentual acima do classificador ingênuo — mas o recall é \(34\%\): duas em cada três anomalias reais escapam pela fronteira teoricamente ótima. Isso não é uma contradição com o Bloco 4 (a fronteira continua sendo a que minimiza o erro esperado sob perda 0-1 e as priors corretas); é uma evidência de que “minimizar o erro esperado” e “ter um bom detector de anomalias” são objetivos diferentes quando as classes são desbalanceadas, e de que a acurácia esconde essa diferença.

DicaSe a acurácia de 95,6% mal supera o classificador ingênuo, a fronteira ótima do Bloco 4 está errada?

Escreva sua resposta e compare com um colega antes de avançar (2 min).

6.3 A curva ROC: o mesmo sweep do Bloco 1, replotado

Precisão e recall descrevem um corte \(t\). Para comparar cortes entre si — ou para escolher um sem se comprometer de antemão com um custo específico — varremos \(t\) de \(0\) a \(1\) e plotamos a taxa de falso positivo (FPR, eixo \(x\)) contra o recall (TPR, eixo \(y\)) em cada ponto. O resultado é a curva ROC (DLFC §5.2.6, pp. 148–150), e ela não é um objeto novo: é o mesmo par de curvas Tipo I/Tipo II do Bloco 1 (tipo1, tipo2 na figura daquele bloco), só que uma plotada contra a outra em vez de contra \(t\).

A diagonal \(\text{FPR}=\text{TPR}\) é o desempenho de um classificador que decide por sorteio, ignorando \(x\); qualquer curva acima dela discrimina melhor que o acaso. A área sob a curva (AUC) resume a curva inteira num número: \(0{,}5\) é o acaso, \(1{,}0\) é a separação perfeita. Uma propriedade importante, e contraintuitiva na primeira vez que se vê: a curva ROC não depende da priori \(\pi_A,\pi_B\) — ela é construída inteiramente a partir das condicionais \(f_A, f_B\). Mudar o desbalanceamento das classes move o ponto de operação ótimo sobre a curva, mas não muda a curva em si.

Os dois cortes já discutidos aparecem como dois pontos sobre a mesma curva: \(T_{CONJ}\) (baixo FPR, recall baixo) e \(T_{custo}\) (FPR maior, recall bem mais alto). Nenhum dos dois é “o ponto certo” da ROC em abstrato — a ROC só descreve o que é possível; qual ponto escolher depende do custo relativo dos dois erros, que é precisamente a pergunta da seção anterior. A AUC alta (\({\approx}0{,}94\)) diz que as duas classes são bem separáveis por \(x\); ela não diz onde cortar.

6.4 Opção de rejeição: quando não decidir é a decisão certa

Todas as regras de decisão até aqui — mesmo sob custo assimétrico — forçam uma escolha entre A e B para todo \(x\), inclusive para o \(x\) bem no meio da região de sobreposição, onde as duas posteriores estão quase empatadas. A opção de rejeição (PRML §1.5.3, p. 42) relaxa essa exigência: introduz uma terceira ação, “não decidir, encaminhar para revisão humana”, disponível quando a posteriori vencedora não é convincente o suficiente.

A regra, devida a Chow: fixe um limiar \(\theta \in (0{,}5, 1]\) e rejeite sempre que \(\max_k p(\mathcal{C}_k \mid x) < \theta\). Isso define uma faixa em torno da fronteira de decisão, não mais um único ponto de corte — a faixa é exatamente onde as duas posteriores ficam mais perto de \(0{,}5\) do que \(\theta\) permite. Rejeitar só compensa quando o custo de pedir revisão humana é menor que o custo esperado do erro que a revisão evita; caso contrário, a opção de rejeição, embora disponível, nunca deveria ser usada.

Com \(\theta = 0{,}6\), a faixa de rejeição cobre de \(x\approx 0{,}69\) a \(x\approx 0{,}75\) — estreita, porque as duas densidades só ficam de fato próximas numa vizinhança curta de \(T_{CONJ}\) — e captura cerca de \(2{,}1\%\) da população. Fora dessa faixa, decidir continua sendo a escolha certa: a posteriori já é convincente o bastante para não valer a pena o custo de uma revisão manual. A opção de rejeição não substitui a fronteira construída nos Blocos 2–4; ela reconhece que perto da fronteira, decidir com confiança baixa pode custar mais do que admitir a dúvida.

Isso fecha o ferramental de decisão binária desta aula: custo assimétrico desloca onde cortar; matriz de confusão, precisão e recall dizem como avaliar o corte escolhido além de uma única taxa de acerto; a ROC compara todos os cortes possíveis de uma vez, sem se comprometer com um custo; e a rejeição introduz uma terceira ação para quando nenhum corte é confiável o suficiente. As quatro peças respondem à mesma pergunta original do Bloco 2 — “onde você corta?” — com um grau crescente de sofisticação sobre o que “corte” pode significar.

7 Conclusão

A aula inteira cabe em três frases.

  1. Distribuição é o formato dos dados no espaço. Não é uma fórmula; a fórmula é uma escolha posterior, e escolher a fórmula é escolher o que contará como outlier.

  2. Classificar é comparar formatos ponderados pela frequência das classes. Ignorar a ponderação é o erro que cometemos no Bloco 1 — e é o mesmo erro que a maioria dos pipelines comete ao usar \(0{,}5\) como corte de uma probabilidade prevista.

  3. O limiar é uma decisão, e ela tem custo explícito. Custo e priori entram de forma idêntica na fronteira ótima, e ambos precisam ser declarados.

Um quarto ponto, negativo mas igualmente importante: com uma única densidade, só o Tipo I é calculável. Todo número de “taxa de detecção” produzido por um detector treinado apenas em dados normais depende de uma suposição sobre as anomalias, mesmo quando ninguém a escreveu.

Ponte para a Aula 2

Tudo isto usou uma variável. Com \(d\) variáveis, a densidade condicional de classe \(p(x \mid \mathcal{C}_k)\) passa a ser um objeto em \(\mathbb{R}^d\), e estimá-la com dados finitos deixa de ser possível sem impor estrutura: um histograma com \(M\) células por eixo exige \(M^d\) células, e o número de amostras por célula desaba exponencialmente.

Naive Bayes é a primeira suposição estrutural que o curso introduz, e é a mais brutal possível:

\[ p(x \mid \mathcal{C}_k) \;=\; \prod_{i=1}^{d} p(x_i \mid \mathcal{C}_k). \]

Ela torna o objeto estimável a um custo linear em \(d\). O preço dessa suposição — quando ela é inofensiva, quando é desastrosa, e por que o Naive Bayes classifica bem mesmo produzindo probabilidades péssimas — é o assunto da próxima aula. E lá a razão de verossimilhanças, que esteve implícita o tempo todo neste bloco, finalmente será formalizada, já no caso multidimensional.

8 Exercícios

8.1 Questões discursivas

  1. Um colega afirma: “se as duas classes têm o mesmo número de exemplos, o corte no cruzamento das condicionais e o corte no cruzamento das conjuntas coincidem.” Essa afirmação é verdadeira? Justifique usando a relação entre conjunta, condicional e priori construída no Bloco 2.

  2. Um detector de fraude é treinado apenas com transações legítimas (não há exemplos rotulados de fraude disponíveis). Explique, em termos de \(p(x \mid \mathcal{C}_A)\) e \(p(x \mid \mathcal{C}_B)\), por que a taxa de detecção (Tipo II) desse sistema não pode ser calculada — apenas estimada sob uma suposição adicional. Que suposição seria essa?

  3. (De PRML, Exercício 1.24, adaptado) Considere um problema de decisão de duas classes em que a perda de classificar incorretamente um exemplo da classe \(\mathcal{C}_A\) como \(\mathcal{C}_B\) é \(\lambda\) vezes maior que o erro oposto. Reformule a regra de decisão da Fase 2 (cruzamento das conjuntas) para incorporar esse custo assimétrico. O que muda na conta do exemplo da triagem médica se falso negativo custar 10 vezes mais que falso positivo?

8.2 Questões de Verdadeiro/Falso

Cada bloco de 4 itens trata do mesmo tema. A questão só é considerada correta se todos os 4 itens forem julgados corretamente (deixar em branco tem penalidade de 20% da nota da questão).

DicaDistribuições, priori e fronteira de decisão
  1. ( ) Se as duas classes fossem igualmente frequentes (\(\pi_A=\pi_B=0{,}5\)) em vez de \(\pi_A=0{,}95\), o cruzamento das conjuntas passaria a coincidir exatamente com o cruzamento das condicionais \(T_{COND}\).

  2. ( ) No limite em que \(\pi_A \to 1\) (quase toda a população pertence à classe A), o cruzamento das conjuntas \(T_{CONJ}\) tende a se afastar cada vez mais do cruzamento das condicionais \(T_{COND}\), na direção do território de B.

  3. ( ) Considere uma triagem de segurança em aeroportos em que \(99\%\) dos passageiros não representam ameaça. Mesmo com condicionais simétricas e bem separadas, cortar sempre no cruzamento das CONDICIONAIS (ignorando essa priori \(99\%/1\%\)) não é a regra de decisão ótima sob perda 0-1.

  4. ( ) Como o cruzamento das condicionais não depende das prioris, conclui-se que a taxa de erro total (Tipo I + Tipo II, ponderados pelas prioris) também não depende de onde as prioris colocam o peso relativo entre os dois tipos de erro.

DicaTeorema de Bayes e o exemplo da triagem médica
  1. ( ) No limite em que a prevalência da doença tende a zero, mantendo sensibilidade e falso positivo fixos em \(0{,}90\) e \(0{,}03\), a posteriori \(p(D\mid+)\) também tende a zero.

  2. ( ) Se a prevalência da doença fosse \(50\%\) em vez de \(1\%\) (mantendo sensibilidade \(0{,}90\) e falso positivo \(0{,}03\)), a posteriori \(p(D\mid+)\) passaria a ser maior que \(90\%\).

  3. ( ) Num teste de triagem usado em campanhas de vacinação em massa, com prevalência ainda menor (1 em 10.000) e sensibilidade e especificidade excelentes (99% cada), a proporção de positivos que são realmente doentes seria ainda menor do que no exemplo da aula.

  4. ( ) Como a evidência \(p(+)\) é definida como \(\sum_k p(+\mid\mathcal{C}_k)p(\mathcal{C}_k)\), ela representa a probabilidade de um resultado positivo vindo especificamente da classe doente.

DicaA distribuição Beta e detecção de anomalias
  1. ( ) No limite em que \(a\to\infty\) e \(b\to\infty\) mantendo \(a/(a+b)\) constante, a distribuição Beta se concentra cada vez mais estreitamente em torno de sua média, tendendo a uma distribuição degenerada (variância \(\to 0\)).

  2. ( ) Se os dados de uma folha realmente seguissem uma Beta em forma de U (\(a=0{,}5\), \(b=0{,}5\)), um estimador de momentos ainda recuperaria corretamente esses parâmetros a partir da média e variância amostrais, mesmo sem assumir nada sobre a forma da distribuição.

  3. ( ) Num sistema de recomendação que modela a taxa de cliques (CTR) de cada anúncio (um valor em \([0,1]\)), a Beta seria uma escolha tão razoável quanto no exemplo de escores de anomalia desta aula, e sofreria da mesma armadilha se algum anúncio tivesse CTR observada de exatamente \(0\%\) ou \(100\%\).

  4. ( ) Como treinar apenas com dados “normais” permite estimar bem a densidade \(p(x\mid\mathcal{C}_A)\), conclui-se que a taxa de detecção (Tipo II) também pode ser calculada diretamente dos dados de treino, sem qualquer suposição adicional sobre as anomalias.

DicaTipos de erro e o limiar de decisão
  1. ( ) Se, em vez de duas classes unimodais com uma única região de sobreposição, a classe B fosse bimodal (uma “bolha” de densidade de cada lado de A), deslocar o limiar \(t\) para a direita poderia, em algum trecho, reduzir simultaneamente as duas taxas de erro.

  2. ( ) No limite em que o limiar captura toda a reta como pertencente a uma única classe, a taxa de erro associada a essa classe vai a zero e a do outro tipo vai a \(100\%\), independentemente da forma das densidades.

  3. ( ) Num sistema de triagem de spam, se “Tipo I” for classificar um e-mail legítimo como spam e “Tipo II” for deixar passar um spam verdadeiro, qual rótulo é “Tipo I” depende de qual classe é declarada a hipótese nula — não é uma propriedade fixa do problema.

  4. ( ) Como aumentar o limiar \(t\) tipicamente reduz a taxa de erro Tipo I e aumenta a Tipo II, conclui-se que a soma Tipo I + Tipo II é sempre constante, não importa onde \(t\) esteja.

DicaPriori, verossimilhança, evidência e posteriori
  1. ( ) Se, em vez de duas classes, tivéssemos \(K=10\) classes, a evidência \(p(x)\) ainda seria calculada somando a conjunta \(p(x,\mathcal{C}_j)\) sobre todas as classes, agora com 10 termos.

  2. ( ) No limite em que \(\pi_A\to 1\), a posteriori \(p(\mathcal{C}_A\mid x)\) tende a \(1\) para qualquer valor observado de \(x\), mesmo que \(x\) seja um valor típico da classe B.

  3. ( ) Num tribunal, se o “prior” for a crença de culpa antes de ver evidência e a “verossimilhança” for o quão bem a evidência se encaixa com a culpa, um prior muito baixo de culpa (presunção de inocência) exige evidência proporcionalmente mais forte para produzir uma posteriori de culpa convincente.

  4. ( ) Como a posteriori é proporcional ao produto entre verossimilhança e priori, duas classes com a mesma verossimilhança \(p(x\mid\mathcal{C}_k)\) num ponto \(x\) sempre têm posteriores iguais nesse ponto, independentemente das prioris.

DicaDensidade vs. probabilidade
  1. ( ) No limite em que um intervalo \([a,b]\) encolhe para um único ponto, a probabilidade \(P(a\le X\le b)\) tende a zero, mesmo que a densidade \(p(a)\) seja um número grande (por exemplo, \(1000\)).

  2. ( ) Se \(X\) fosse uma variável aleatória discreta em vez de contínua, a afirmação “\(P(X=x)=0\) para qualquer ponto isolado” deixaria de valer em geral.

  3. ( ) Numa distribuição Uniforme\([0,\,10^{-6}]\), a densidade dentro do intervalo vale \(10^6\), e isso não viola nenhum axioma de probabilidade, pois a integral sobre todo o domínio continua valendo exatamente \(1\).

  4. ( ) Como a densidade \(p(x)\) pode ultrapassar \(1\) sem problema algum, conclui-se que ela também pode ser negativa em algum ponto, desde que a integral total sobre o domínio ainda valha \(1\).

DicaMudança de variável e o Jacobiano
  1. ( ) Se a transformação \(y=g(x)\) não fosse bijetora (por exemplo, \(y=x^2\) com \(x\) variando em toda a reta real), a fórmula \(p_Y(y)=p_X(g^{-1}(y))|dx/dy|\) ainda poderia ser aplicada diretamente, sem nenhuma modificação.

  2. ( ) No limite em que a derivada \(g'(x)\to 0\) num ponto, a densidade transformada \(p_Y(y)\) nesse ponto tende a \(+\infty\) (supondo \(p_X\) positiva e finita ali).

  3. ( ) Ao converter uma distribuição de renda de reais para log(reais), a moda da distribuição pode mudar de posição relativa, mesmo sendo a mesma variável aleatória subjacente, só medida numa escala diferente.

  4. ( ) Como a moda de uma densidade pode mudar sob reparametrização, a decisão de classificação \(\arg\max_k p(\mathcal{C}_k\mid x)\) também muda de classe vencedora dependendo de como \(x\) é parametrizado.

DicaMomentos de uma distribuição
  1. ( ) No limite em que uma distribuição se torna cada vez mais concentrada (variância \(\to 0\)), sua curtose em excesso não necessariamente tende a zero — pode permanecer positiva, negativa ou indefinida, dependendo de como a forma se concentra.

  2. ( ) Como distribuições simétricas em torno da média têm skewness zero, conclui-se que skewness zero implica necessariamente que a distribuição é simétrica.

  3. ( ) Numa distribuição de renda familiar (cauda longa à direita, poucas famílias muito ricas), espera-se skewness positiva, e a média tende a ficar acima da mediana, não abaixo.

  4. ( ) Como curtose em excesso zero indica uma cauda comparável à Gaussiana, conclui-se que toda distribuição com curtose em excesso zero deve ser, ela mesma, uma Gaussiana.

DicaCaudas leves vs. pesadas
  1. ( ) No limite em que os graus de liberdade \(\nu\) da distribuição \(t\) de Student tendem a infinito, sua cauda deixa de ser mais pesada que a Gaussiana e a distribuição converge para a própria Gaussiana.

  2. ( ) Se uma distribuição de cauda pesada fosse usada para modelar erros de medição de um instrumento, eventos a \(5\sigma\) de distância da média deixariam de ser “praticamente impossíveis”.

  3. ( ) Em mercados financeiros, retornos diários de ações costumam ter caudas mais pesadas que a Gaussiana, consistente com o uso de distribuições como a \(t\) de Student em vez da Gaussiana para modelar retornos.

  4. ( ) Como a distribuição \(t\) de Student com poucos graus de liberdade tem cauda mais pesada que a Gaussiana, ela necessariamente não tem variância finita, para qualquer valor de \(\nu\).

DicaForma fechada vs. máxima verossimilhança (Beta)
  1. ( ) Se, em vez da Beta, os dados de uma folha realmente seguissem uma distribuição Gaussiana, o MLE dos parâmetros também exigiria um procedimento numérico iterativo, assim como ocorre com a Beta.

  2. ( ) No limite em que \(a=b\) (Beta simétrica em torno de \(0{,}5\)), o estimador de momentos produziria uma estimativa de \(a\) igual à de \(b\) só se a média amostral for exatamente \(0{,}5\).

  3. ( ) Ao ajustar uma Beta por máxima verossimilhança num pacote estatístico, o software provavelmente usa um método numérico iterativo para resolver as equações de verossimilhança, em vez de uma fórmula fechada.

  4. ( ) Como o MLE é assintoticamente eficiente e o estimador de momentos, em geral, não é, conclui-se que o estimador de momentos é sempre uma escolha pior, para qualquer tamanho de amostra \(N\).

DicaArmadilha de zeros e uns exatos
  1. ( ) No limite em que \(a\to 0^+\) (mantendo \(b\) fixo), a densidade da Beta próxima de \(x=0\) diverge cada vez mais rapidamente, tornando uma observação exatamente igual a \(0\) ainda mais problemática.

  2. ( ) Se todos os dados de treino, por coincidência, estivessem estritamente dentro do intervalo aberto \((0,1)\) — sem nenhum zero ou um exato —, a armadilha discutida nesta aula deixaria de ser uma preocupação para aquele conjunto específico, mesmo que \(a<1\) ou \(b<1\).

  3. ( ) Num conjunto de avaliações de produtos normalizadas para \([0,1]\) (nota de 0 a 5 estrelas dividida por 5), é comum observar exatamente os valores extremos \(0\) e \(1\), tornando essa armadilha uma preocupação prática real, não só teórica.

  4. ( ) Como o clipping para \([\varepsilon,1-\varepsilon]\) é uma correção honesta desde que \(\varepsilon\) seja declarado, conclui-se que qualquer escolha de \(\varepsilon\) produz resultados de ajuste igualmente bons.

DicaErro de Bayes e detecção com uma única densidade
  1. ( ) No limite em que \(p(x\mid\mathcal{C}_A)\) e \(p(x\mid\mathcal{C}_B)\) se tornam idênticas em todo o domínio, o erro de Bayes tende ao valor máximo possível para um problema de duas classes.

  2. ( ) Um classificador arbitrariamente complexo (bilhões de parâmetros), treinado com dados infinitos, poderia reduzir o erro de Bayes a zero, mesmo havendo sobreposição real entre as densidades das classes.

  3. ( ) Num sistema de reconhecimento facial em que duas pessoas têm rostos extremamente parecidos (gêmeos idênticos), mesmo o melhor classificador teoricamente possível terá uma taxa de erro irredutível maior que zero para distinguir essas identidades, refletindo a sobreposição real das características faciais.

  4. ( ) Como todo número de “taxa de detecção” de um detector treinado só com dados normais depende de alguma suposição sobre as anomalias, conclui-se que esses detectores nunca são úteis na prática, já que a suposição pode estar errada.

8.3 Aviso

As questões de Verdadeiro/Falso e discursivas ficam sem solução neste arquivo — são para resolução autônoma do aluno, fora do horário de aula.