Exercícios — Aula 2: Representações Matriciais, Sistemas Lineares e Independência
Álgebra Linear e Otimização para Aprendizado de Máquina
Prof. Marcos Medeiros Raimundo
- \(X\in\mathbb{R}^{N\times d}\) denota uma matriz de design: cada uma das \(N\) linhas é o vetor de atributos de uma observação, cada uma das \(d\) colunas é um atributo medido em todas as observações, e \(\mathbf{w}\in\mathbb{R}^d\) é um vetor de pesos, de modo que \(X\mathbf{w}\in\mathbb{R}^N\) é o vetor de previsões (um número por observação).
- O produto \(X\mathbf{w}\) admite duas leituras equivalentes: por linha, cada entrada \(i\) de \(X\mathbf{w}\) é o produto interno \(\mathbf{x}_i^T\mathbf{w}\) entre a \(i\)-ésima observação e os pesos (a previsão daquela observação); por coluna, \(X\mathbf{w}=\sum_{j=1}^d w_j\,\mathbf{x}^{(j)}\) é uma combinação linear das colunas de \(X\) (cada \(\mathbf{x}^{(j)}\in\mathbb{R}^N\) sendo o atributo \(j\) medido em todas as observações), pesada pelas entradas de \(\mathbf{w}\).
- Para um sistema \(A\mathbf{x}=\mathbf{b}\), \([A\,|\,\mathbf{b}]\) denota a matriz aumentada (a matriz \(A\) com a coluna \(\mathbf{b}\) acrescentada), e \(\text{rk}(\cdot)\) denota o posto (número de colunas — equivalentemente, de linhas — linearmente independentes) de uma matriz.
- Alguns itens usam o California Housing Dataset (preço de imóveis por bairro na Califórnia) como exemplo concreto, com os atributos:
MedInc(renda mediana do bairro, em dezenas de milhares de dólares),HouseAge(idade média dos imóveis, em anos),AveRooms(média de cômodos por domicílio) eAveBedrms(média de quartos por domicílio).
Questões discursivas
Explique, com suas próprias palavras, as duas leituras do produto matriz-vetor \(A\mathbf{x}\) (por linha e por coluna, ver convenções acima), e diga qual das duas é mais útil para entender por que uma coluna redundante na matriz de design de um modelo linear não altera as previsões desse modelo.
Sabe-se que o conjunto-solução de um sistema linear homogêneo \(A\mathbf{x}=\mathbf{0}\) é sempre um subespaço vetorial de \(\mathbb{R}^n\) (contém a origem e é fechado sob soma e sob multiplicação por escalar). Explique por que esse resultado não se generaliza para um sistema não homogêneo \(A\mathbf{x}=\mathbf{b}\) com \(\mathbf{b}\ne\mathbf{0}\) — ou seja, por que o conjunto-solução de um sistema não homogêneo, quando existe e não é único, não passa pela origem nem é fechado sob soma.
No California Housing Dataset (ver convenções acima), os atributos
AveRoomseAveBedrmstêm correlação empírica \(0{,}865\) — forte, mas diferente de \(1\). Explique a diferença entre multicolinearidade exata (uma coluna sendo combinação linear exata de outra, o que reduz o posto da matriz de design) e quase-multicolinearidade (colunas fortemente correlacionadas, mas não exatamente dependentes, o que não reduz o posto). Por que a segunda é mais comum em dados reais do que a primeira?
Questões de Verdadeiro/Falso
Cada bloco de 4 itens trata do mesmo tema. A questão só é considerada correta se todos os 4 itens forem julgados corretamente (deixar em branco tem penalidade de 20% da nota da questão).
- □ Se a matriz de design fosse transposta (linhas = atributos, colunas = observações), o produto que calcula as previsões, \(X\mathbf{w}\), ainda faria sentido dimensional sem qualquer outra mudança na definição de \(\mathbf{w}\in\mathbb{R}^d\).
- □ No caso degenerado em que o dataset tem uma única observação (\(N=1\)), a matriz de design \(X\) se reduz a um vetor-linha, e o produto \(X\mathbf{w}\) ainda é bem definido e produz um único número (a previsão daquela observação).
- □ Somar a coluna “renda média” com a coluna “número de cômodos” de um dataset produziria um número sem interpretação física direta, ainda que a operação de soma de vetores esteja matematicamente bem definida.
- □ Se dois atributos tiverem escalas numéricas muito distintas (ex.: renda em dólares e número de cômodos), isso impede, por si só, que a matriz de design seja usada corretamente num produto matriz-vetor \(X\mathbf{w}\).
- □ Se \(A\in\mathbb{R}^{m\times n}\) e \(B\in\mathbb{R}^{n\times k}\) com \(k=1\), o produto \(AB\) se reduz exatamente ao produto matriz-vetor \(A\mathbf{x}\), com \(\mathbf{x}=B\) visto como vetor-coluna.
- □ Se a matriz de design \(X\) tivesse mais colunas do que linhas (\(d>N\)), o produto \(X\mathbf{w}\) com \(\mathbf{w}\in\mathbb{R}^d\) ainda estaria bem definido e produziria um vetor de previsões em \(\mathbb{R}^N\).
- □ Trocar a ordem do produto matriz-vetor, calculando \(\mathbf{w}^T X^T\) em vez de \(X\mathbf{w}\), produz o mesmo conjunto de valores de previsão, ainda que como um vetor-linha em vez de vetor-coluna.
- □ Como o produto \(AB\) só está definido quando o número de colunas de \(A\) é igual ao número de linhas de \(B\), isso significa que \(A\mathbf{x}\) e \(\mathbf{x}^TA\) nunca podem estar ambos definidos para a mesma matriz \(A\) e o mesmo vetor \(\mathbf{x}\).
- □ Se a matriz \(A\) tivesse todas as suas colunas iguais entre si (idênticas), a leitura “por linha” de \(A\mathbf{x}\) deixaria de ser válida, mas a leitura “por coluna” continuaria válida.
- □ No caso em que \(\mathbf{x}\) é o vetor da base canônica \(\mathbf{e}_j\) (uma única entrada igual a \(1\), as demais \(0\)), a leitura “por coluna” de \(A\mathbf{x}\) se reduz exatamente à \(j\)-ésima coluna de \(A\), isolada.
- □ As duas leituras do produto matriz-vetor descrevem operações matematicamente diferentes, que apenas coincidem por coincidência numérica.
- □ Se \(X\) é uma matriz de design e \(\mathbf{w}\) tem exatamente uma entrada não nula (só o peso de um único atributo), a leitura “por coluna” de \(X\mathbf{w}\) implica que o vetor de previsões é simplesmente um múltiplo escalar da coluna daquele atributo em \(X\).
Um modelo de Regressão Linear Múltipla, ajustado por \(N\) observações e \(d\) atributos, corresponde ao sistema linear \(X\mathbf{w}=\mathbf{y}\), em que \(X\in\mathbb{R}^{N\times d}\) é a matriz de design e \(\mathbf{y}\in\mathbb{R}^N\) é o vetor-alvo. Diz-se sobredeterminado quando \(N\gg d\) (muito mais observações do que parâmetros).
- □ Se, em vez de \(N\gg d\), tivéssemos \(N=d\) exatamente e a matriz \(X\) tivesse posto completo, o sistema \(X\mathbf{w}=\mathbf{y}\) teria, genericamente, exatamente uma solução — nem sobredeterminado nem subdeterminado.
- □ No limite em que \(d=1\) (um único atributo), o sistema \(X\mathbf{w}=\mathbf{y}\) sobredeterminado (\(N\gg 1\)) se reduz a encontrar um único escalar \(w\) que melhor “explica” \(N\) pontos \((x_i,y_i)\).
- □ Um sistema sobredeterminado de reconhecimento facial, com muito mais pixels medidos (\(N\)) do que parâmetros de um modelo de regressão a estimar (\(d\)), enfrentaria, genericamente, o mesmo problema de “nenhuma solução exata” que um sistema sobredeterminado de preços de imóveis (muito mais bairros do que atributos).
- □ Como um sistema sobredeterminado não tem, genericamente, solução exata, isso implica que a Regressão Linear Múltipla é uma técnica inútil nesse regime.
- □ Existe algum sistema sobredeterminado (mais equações que incógnitas) que tenha, mesmo assim, uma solução exata — não é uma impossibilidade lógica, só um evento não genérico.
- □ No caso-limite em que \(m=0\) (sistema sem nenhuma equação), qualquer \(\mathbf{x}\in\mathbb{R}^n\) é, trivialmente, uma “solução” — o sistema tem infinitas soluções por vacuidade.
- □ O sistema \(x_1+x_2=4\) e \(2x_1+2x_2=8\) (a segunda equação é a primeira multiplicada por \(2\), logo descreve a mesma reta) tem infinitas soluções, e esse conjunto-solução tem uma propriedade que o distingue do caso homogêneo \(x_1+x_2=0\): ele não passa pela origem, já que \(0+0\ne4\).
- □ Um sistema linear real que admitisse exatamente duas soluções distintas \(\mathbf{x}_1\ne\mathbf{x}_2\) teria, na verdade, que ter infinitas soluções — incluindo toda combinação \(\lambda\mathbf{x}_1+(1-\lambda)\mathbf{x}_2\).
- □ Se um sistema homogêneo \(A\mathbf{x}=\mathbf{0}\) tem apenas a solução trivial, então o sistema não homogêneo correspondente \(A\mathbf{x}=\mathbf{b}\), quando tem solução, tem exatamente uma solução (nunca infinitas).
- □ No caso em que \(A\) é a matriz nula (\(A=\mathbf{0}\)), o sistema homogêneo \(A\mathbf{x}=\mathbf{0}\) tem \(\mathbb{R}^n\) inteiro como conjunto-solução, e o sistema não homogêneo \(A\mathbf{x}=\mathbf{b}\) com \(\mathbf{b}\ne\mathbf{0}\) não tem solução alguma.
- □ O conjunto-solução de um sistema não homogêneo \(A\mathbf{x}=\mathbf{b}\), com \(\mathbf{b}\ne\mathbf{0}\), também é sempre um subespaço vetorial.
- □ Se \(\mathbf{x}_1,\mathbf{x}_2\) são duas soluções distintas de \(A\mathbf{x}=\mathbf{b}\) com \(\mathbf{b}\ne\mathbf{0}\), a soma \(\mathbf{x}_1+\mathbf{x}_2\) também é, em geral, solução do mesmo sistema.
- □ Se um conjunto de vetores \(\{\mathbf{x}_1,\dots,\mathbf{x}_k\}\) é linearmente dependente, então necessariamente pelo menos um deles pode ser escrito como combinação linear dos demais.
- □ Um conjunto formado por um único vetor não nulo, \(\{\mathbf{x}_1\}\) com \(\mathbf{x}_1\ne\mathbf{0}\), é sempre linearmente independente.
- □ Se um dos atributos da matriz de design fosse literalmente o vetor nulo (uma coluna de zeros, ex.: um atributo binário que nunca é ativado em nenhuma amostra do dataset), essa coluna, junto com qualquer outra coluna não nula, formaria um conjunto linearmente dependente.
- □ Como um conjunto de vetores linearmente independentes “não tem redundância”, isso significa que todo subconjunto de um conjunto linearmente dependente também deve ser linearmente dependente.
Considere os vetores \(\mathbf{v}_1=(2,1)\), \(\mathbf{v}_2=(1,3)\) e \(\mathbf{v}_3=(4,9)\) em \(\mathbb{R}^2\), para os quais vale \(\mathbf{v}_3=0{,}6\,\mathbf{v}_1+2{,}8\,\mathbf{v}_2\) — uma combinação não trivial de \(\mathbf{v}_1,\mathbf{v}_2\) que reconstrói \(\mathbf{v}_3\) exatamente, logo os três vetores são linearmente dependentes.
- □ Se \(\mathbf{v}_3\) tivesse sido escolhido de forma completamente aleatória (em vez do valor específico \((4,9)\) usado acima), o resultado — dependência linear entre os três vetores — ainda seria garantido.
- □ \(d+1\) vetores quaisquer em \(\mathbb{R}^d\) são sempre linearmente dependentes.
- □ É possível encontrar 5 vetores linearmente independentes em \(\mathbb{R}^3\).
- □ Como o número máximo de vetores linearmente independentes em \(\mathbb{R}^d\) é \(d\), isso implica que qualquer conjunto de exatamente \(d\) vetores em \(\mathbb{R}^d\) é automaticamente linearmente independente.
Duas colunas de um dataset são ditas exatamente multicolineares quando uma é múltiplo escalar exato da outra — por exemplo, a mesma grandeza física medida em duas unidades diferentes, como “área em m²” e “área em pés²” (relacionadas por um fator de conversão fixo, \(1\text{m}^2\approx10{,}76\text{ pés}^2\)).
- □ Se, em vez de “área em m²” e “área em pés²”, tivéssemos “área em m²” e “área em m² mais um ruído de medição aleatório e independente”, essas duas colunas formariam um par exatamente multicolinear (dependência linear exata).
- □ No caso em que duas colunas de atributos são idênticas (não só proporcionais, mas exatamente iguais, ex.: o mesmo atributo duplicado por erro de importação de dados), elas são um caso particular de multicolinearidade exata, com fator de proporcionalidade igual a \(1\).
- □ Duas colunas de um dataset financeiro, “salário anual” e “salário mensal” (uma sendo exatamente 12 vezes a outra, sem nenhuma variação adicional), formariam um par de colunas multicolineares exatas, pela mesma lógica do exemplo de área em m²/pés².
- □ Como medir o mesmo atributo em duas unidades diferentes tipicamente produz colunas multicolineares exatas, isso significa que toda dupla de atributos fisicamente relacionados entre si (não necessariamente a mesma grandeza em unidades diferentes) também deve ser exatamente multicolinear.
- □ Se uma matriz \(A\in\mathbb{R}^{m\times n}\) tivesse todas as suas \(n\) colunas idênticas entre si (e \(n>1\)), seu posto seria exatamente \(1\), independentemente de \(m\) e \(n\).
- □ O posto de uma matriz \(A\in\mathbb{R}^{m\times n}\) nunca pode ser maior que \(\min(m,n)\).
- □ Uma matriz de design \(X\in\mathbb{R}^{N\times d}\) com \(N\gg d\) (o regime típico de aprendizado supervisionado com muitas observações e poucos atributos) tem, no melhor caso (posto completo), \(\text{rk}(X)=d\) — nunca \(N\), mesmo com \(N\) muito maior que \(d\).
- □ Uma matriz é dita deficiente em posto quando seu posto é maior do que \(\min(m,n)\).
- □ Se \(\text{rk}(A)\ne\text{rk}([A|\mathbf{b}])\) para um sistema específico, isso implica necessariamente que \(\text{rk}([A|\mathbf{b}]) = \text{rk}(A)+1\), nunca uma diferença maior.
- □ No caso em que \(\mathbf{b}=\mathbf{0}\) (sistema homogêneo), \(\text{rk}([A|\mathbf{0}]) = \text{rk}(A)\) sempre, e portanto o critério de solvabilidade é automaticamente satisfeito.
- □ Um sistema \(A\mathbf{x}=\mathbf{b}\) em que \(A\) tem posto deficiente, mas \(\mathbf{b}\) está fora do espaço gerado pelas colunas de \(A\), não tem solução, mesmo que \(A\) tenha, tecnicamente, “várias direções redundantes” disponíveis.
- □ Como posto deficiente pode indicar multicolinearidade exata, toda vez que um sistema \(A\mathbf{x}=\mathbf{b}\) não tem solução, a causa deve ser posto deficiente de \(A\).
No California Housing Dataset (ver convenções acima), os atributos AveRooms e AveBedrms têm correlação empírica \(0{,}865\) e a matriz de design formada pelos 4 atributos usuais tem posto completo igual a \(4\).
- □ Se a correlação entre
AveRoomseAveBedrmsfosse exatamente \(1{,}0\) (em vez de \(0{,}865\)), o posto da matriz de design cairia de \(4\) para \(3\). - □ No limite em que a correlação entre dois atributos tende a \(1\) mas nunca a alcança exatamente (ex.: \(0{,}999999\)), o posto da matriz permanece tecnicamente completo, mas o sistema fica numericamente cada vez mais instável.
- □ Quase-multicolinearidade pode causar instabilidade numérica no ajuste de um modelo, mesmo sem reduzir tecnicamente o posto da matriz.
- □ Dois atributos de um dataset médico, “peso em kg” e “índice de massa corporal (IMC)”, fortemente correlacionados mas não exatamente proporcionais (o IMC depende também da altura), ilustrariam o mesmo tipo de quase-multicolinearidade discutido para
AveRooms/AveBedrms, não uma multicolinearidade exata.