Computação e Sociedade
2026-09-28
Aula 6, em três peças:
1. Quatro espaços do dado (construto → observado → bruto → preparado), cada passagem com o seu viés.
2. Proxies reconstroem o atributo sensível removido — cegueira de atributo não resolve.
3. LGPD garante acesso, correção e revisão — mas não define “discriminatório”.
Até aqui: viés é um problema de entrada — o dado já vem torto.
Dica
Isso explica por que um modelo discrimina — não diz o quanto, nem o que fazer.
Hoje: viés vira um problema de decisão — algo que se mede e se projeta contra, não um acidente de sorte.
COMPAS (justiça criminal): réus negros com o dobro de chance de serem erroneamente marcados “alto risco” (ProPublica, 2016).
Recrutador Amazon (emprego): já visto na Aula 6 — hoje: como medir o viés antes de lançar? (Reuters, 2018)
Aviso
Saúde: algoritmo de alocação de cuidado subestimou sistematicamente pacientes negros mais graves — milhões receberam menos cuidado que pacientes brancos igualmente doentes (Science, 2019).
Ninguém escreveu “discrimine por raça” no código. Como medir isso antes de soltar o sistema em produção?
Ninguém programou para discriminar — e agora?
Nos três casos de abertura (COMPAS, Amazon, saúde), o modelo aprendeu o padrão discriminatório do próprio dado histórico, sem que ninguém tivesse escrito uma regra explícita de discriminação. Antes de qualquer definição formal de fairness, pense: se dois times de engenharia, um em cada empresa, tivessem querido checar isso antes do lançamento, o que precisariam ter comparado — e entre quem?
Dica: pense em o que precisa ser mantido igual, e para quais grupos, para que uma comparação faça sentido.
Dica
Seguindo: para comparar “o resultado da decisão entre grupos” com precisão, precisamos primeiro entender como a máquina chega a essa decisão.
Aprendizado de máquina: achar o modelo \(f\) que torna o dado observado \(X\) o mais provável.
Dica
\[\max_{f} \; P_f(X)\]
Para prever um resultado \(Y\) a partir de uma evidência \(X\):
Dica
\[\max_{f} \; P_f(Y \mid X)\]
Não é certeza — é o melhor palpite informado, calibrado pela frequência do padrão no dado de treino.
Evidência (\(X\)): salário (R$ 2.300), dívida (R$ 5.000), posse de imóvel.
Resultado (\(Y\)): bom pagador (\(Y{=}0\)) ou mau pagador (\(Y{=}1\)).
Dica
Objetivo: aprender a calcular \(P(Y{=}0 \mid X)\) com precisão, a partir de casos passados.
Mesmo motor dos três casos da Abertura:
Nenhum atributo sensível apareceu — ainda.

Dado real frequentemente carrega, entre suas colunas (ou entre proxies), um atributo sensível \(Z\) — raça, gênero, idade.
Aviso
Para o modelo, \(Z\) é só mais uma coluna — ele usa qualquer padrão que melhore a previsão, inclusive um baseado em \(Z\).
Reação intuitiva: tirar \(Z\) do dado de treino. Sem a coluna “raça”, como discriminar por raça?
Parcialidade mesmo desconhecendo
“Mesmo removendo \(Z\) explicitamente, o modelo frequentemente consegue reconstruí-lo a partir de variáveis correlacionadas (proxies, como o CEP).”
Já visto na Aula 6: CEP como proxy de raça/classe; histórico de utilização de saúde como proxy de raça (caso da seguradora).
Dica
Se cegueira não resolve, a saída é o oposto: definir explicitamente, em matemática, o que é uma decisão justa em relação a \(Z\).
Por que tirar a coluna não basta?
Uma fintech decide remover a coluna “gênero” do seu modelo de concessão de crédito, para evitar discriminação. Meses depois, uma auditoria interna encontra uma disparidade de aprovação entre clientes que se identificam como homens e mulheres, mesmo sem a coluna “gênero” ter sido usada em nenhum momento do treino. Avalie as afirmações sobre esse cenário.
Dica: pense em quais outras colunas do dado de uma fintech (profissão, histórico de consumo, tipo de plano de celular, por exemplo) podem estar correlacionadas com gênero, mesmo sem ser gênero.
Dica
Seguindo: se cegueira não resolve, como definimos, com uma fórmula, o que é (in)justiça?
Dica
\[P(Y{=}0 \mid X, Z{=}\text{branca}) > P(Y{=}0 \mid X, Z{=}\text{negra})\]
Mesmo perfil financeiro \(X\), resultado diferente conforme \(Z\) — a assinatura matemática da discriminação.
Não escala olhar pessoa a pessoa — versão agregada por grupo, com utilidade \(U\) (benefício/dano de uma decisão):
Dica
\[\Delta = \left| \mathbb{E}[U(Y_t, A_t) \mid Z{=}0] - \mathbb{E}[U(Y_t, A_t) \mid Z{=}1] \right|\]
Diferença entre o benefício médio que cada grupo recebe — compara populações, não indivíduos.
Dica
\[P(\hat{Y}{=}0 \mid Z{=}\text{branca}) = P(\hat{Y}{=}0 \mid Z{=}\text{negra})\]
Taxas de aprovação iguais entre grupos — sem checar qualificação real.
Aviso
Crítica: ignora se quem foi aprovado de fato merecia.
Dica
\[P(\hat{Y}{=}0 \mid Y{=}1, Z{=}\text{branca}) = P(\hat{Y}{=}0 \mid Y{=}1, Z{=}\text{negra})\]
Entre quem de fato é qualificado, a chance de aprovação deve ser igual.
Aviso
Crítica: nada diz sobre como os não qualificados de cada grupo são tratados.
Dica
Escolher a métrica é uma decisão de valores, não um detalhe técnico neutro — mesma tese da Aula 1, aplicada aqui.
Duas métricas, dois resultados diferentes
Um sistema de admissão universitária seleciona candidatos por nota de corte. Historicamente, o grupo A teve menos acesso a preparação de qualidade do que o grupo B, então uma fração menor do grupo A chega “qualificada” (\(Y=1\)) segundo os critérios da prova. A universidade tem duas opções de desenho do sistema: (i) ajustar a nota de corte para que a taxa de aprovação final seja igual entre os grupos A e B; (ii) manter a nota de corte única, mas garantir que, entre os candidatos realmente qualificados de cada grupo, a chance de aprovação seja igual.
Dica: relacione cada opção com uma das duas métricas definidas acima, e pense no que cada uma faz com candidatos não qualificados.
Dica
Seguindo: se toda métrica estática tem um limite, existe uma forma diferente de perseguir fairness — não igualando, mas melhorando o pior caso.
Em vez de igualar grupos, melhorar o resultado de quem está em pior situação — mesmo sem igualdade perfeita.
Dica
Princípio da Diferença (Rawls): “desigualdades […] para o maior benefício dos membros menos favorecidos da sociedade.”

Dica
\[\max_{f} \; \left( \min_{z} \; \mathbb{E}[U \mid Z=z] \right)\]
\(\min_z\): identifica o grupo pior servido pelo modelo atual.
\(\max_f\): escolhe, entre todos os modelos, o que maximiza essa utilidade mínima.
Dica
Resultado: o melhor modelo possível para quem está pior — não o que iguala médias.

Aviso
Utilitarista: maximiza o bem-estar total — mesmo deixando um grupo bem atrás dos demais.
Dica
Rawlsiano/maximin: eleva especificamente o grupo pior servido, mesmo sem maximizar a soma.
Todas as métricas até aqui são de um instante só — mas decisões de hoje mudam o dado de amanhã.
Dica
Mesmo mecanismo do laço de policiamento preditivo (Aula 6): decisão → dado novo → nova decisão.
Aviso
Rótulos seletivos: só observamos o resultado de quem recebeu decisão positiva — quem foi recusado nunca revela se pagaria.
O que a auditoria não está vendo
Um banco audita seu modelo de crédito comparando, entre clientes que receberam empréstimo, a taxa de inadimplência entre o grupo A e o grupo B, e encontra taxas parecidas — conclui que o modelo é justo. Um pesquisador de fora aponta que essa auditoria pode estar incompleta.
Dica: pense em quem nunca aparece nesse cálculo.
Dica
Dica
Seguindo: juntando os fios da aula — o que fica de responsabilidade de quem constrói esses sistemas?
Aviso
“Simplesmente aplicar ‘toolkits de fairness’ prontos, sem entendimento profundo, cria uma dívida técnica perigosa.” (Raimundo, 2025)
Escolher a métrica é uma decisão de valores (Bloco 4) — um toolkit genérico não decide isso por você.
Dica
“O desafio crítico é encontrar especialistas […] que consigam colaborar com especialistas de domínio, cientistas sociais e eticistas.”
Sem escapar da matemática: qual métrica? como modelar longo prazo? como lidar com rótulo não observado?
Dica
Mas matemática sozinha não escolhe os valores por trás da métrica — o encontro técnica/ética da disciplina inteira.
1. “Injusto”, matematicamente? Desigualdade explícita entre grupos de \(Z\) — individual, de grupo, ou Rawlsiana.
2. Por que esconder \(Z\) não resolve? Proxies reconstroem a informação — “justiça pela ignorância” falha.
3. Uma única definição? Não — Teorema da Impossibilidade: escolher é decisão ética.
4. Ajuste ou projeto desde o início? M²FGB e fairness de longo prazo tratam fairness como objetivo de treino.
Hoje: a matemática de tornar um algoritmo mais justo.
Dica
Aula 8: todo esse cálculo roda em algum lugar físico — o custo material e territorial da infraestrutura por trás de cada decisão automatizada.
UNICAMP — Instituto de Computação