Aula 2: O Que é Ética, e o Ciclo Ético

Computação e Sociedade

Marcos M. Raimundo — Instituto de Computação, UNICAMP

2026-08-26

Highway Safety — um caso sem resposta óbvia

O Caso: Highway Safety

David Weber, 23 anos, engenheiro civil de segurança viária, tem $50.000 não comprometidos e precisa escolher um único projeto de segurança para recomendar ao distrito.


🏙️ Cruzamento A (urbano)

20.000 veículos/dia na via principal

2 fatalidades/ano 6 feridos/ano

(médias de 3 anos)

🌾 Cruzamento B (rural)

5.000 veículos/dia na via principal

1 fatalidade/ano 2 feridos/ano

(médias de 3 anos)


As duas melhorias propostas (instalar novos semáforos) custam exatamente o mesmo: $50.000. Não há orçamento para fazer as duas — David precisa escolher uma só.

Importante

A pergunta do livro: qual cruzamento David deveria recomendar — e qual é a justificativa para essa recomendação?

Por que essa pergunta não tem resposta técnica

Os números por si só não decidem: o Cruzamento A tem mais mortes em números absolutos (2 vs. 1 por ano); mas o Cruzamento B tem menos tráfego (5.000 vs. 20.000 veículos/dia), então o risco por veículo que passa é maior lá — quase o dobro, como veremos com números exatos no Bloco 4.


Aviso

Também não é questão de gosto pessoal ou de “achismo”. Precisamos de um raciocínio moral argumentável — que possa ser defendido e questionado por outra pessoa, com critérios explícitos.


O plano de hoje, em três etapas:

  1. Quatro teorias éticas normativas — e como a profundidade da análise pode inverter a conclusão de cada uma, sozinha, antes mesmo de comparar teorias diferentes entre si.
  2. O Ciclo Ético — um método de cinco fases para aplicar essas teorias a um caso concreto, sabendo quando voltar a uma fase anterior.
  3. Voltar a este caso exato, aplicando as duas ferramentas construídas nos Blocos 2 e 3.

Teorias Éticas Normativas

Três Pontos de Partida — e uma Quarta Teoria

Van de Poel & Royakkers organizam as teorias éticas por onde colocam o ponto de partida do julgamento moral:

Ator Ação Consequências
Teoria Ética das virtudes Deontologia Utilitarismo
Ponto de partida Virtudes Normas Valores

Hoje veremos as quatro com o mesmo peso — inclusive uma quarta, a ética do cuidado, tratada a fundo no fim do bloco. E em cada uma delas, o fio condutor é sempre o mesmo: a profundidade da análise pode inverter a conclusão, mesmo sem trocar de teoria.

Utilitarismo: Hedonismo e o Princípio da Utilidade

Bentham — hedonismo: prazer e dor são os “senhores soberanos” do ser humano — o único critério do bem e do mal.


O princípio da utilidade:

“A maior felicidade para o maior número de membros da comunidade. […] A ação com o melhor resultado (a maior utilidade) é a que deve ser preferida.”


O balanço moral: soma-se prazeres e dores esperados de cada ação (ponderados por intensidade, duração, certeza) — a mesma lógica, hoje, de toda análise de custo-benefício.

Mill Corrige Bentham — em Dois Pontos Distintos

1. Nem todo prazer vale o mesmo (prazeres qualitativos)

“É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito.”

Desejos “superiores” (intelectuais) > desejos “inferiores” (físicos) — mesmo com menos quantidade de prazer.


2. O princípio de liberdade (protege minorias)

“Cada pessoa é livre para buscar seu próprio prazer, contanto que isso não negue nem impeça o prazer de outras pessoas.”

Corrige o problema de Bentham: nada, no cálculo puro, protegia o indivíduo contra o interesse da maioria.

Utilitarismo: as Quatro Críticas Clássicas

1. Imprevisibilidade — consequências raramente são certas; “consequências esperadas” só formaliza a incerteza, não a elimina.

2. Justiça distributiva (Rawls) — a soma pode estar certa; a distribuição, injusta. O utilitarismo “não reconhece a separação fundamental entre as pessoas”.

Resposta parcial (Hare): utilidade marginal decrescente já empurra o cálculo para menos desigualdade, sozinha.

3. Ignora relações pessoais — o dilema do naufrágio (salvar o amigo ou o cirurgião famoso): o utilitarismo manda salvar quem é “mais útil”, ignorando quem especificamente é feliz.

4. Fins justificam meios — até direitos humanos fundamentais podem ser quebrados se o resultado agregado for melhor.

Resposta parcial: utilitarismo de regras — julga a regra geral, não o ato isolado.

Ford Pinto: Três Cálculos, Três Conclusões

1. Ford (ato-utilitarista raso):

“O custo social total de reformar todos os carros era maior do que o custo social dos acidentes esperados.”

não recolher


2. Princípio de liberdade (Mill):

“Segundo esse princípio, a Ford deveria ter recolhido e reparado o carro.”

recolher


3. Utilitarismo de regra:

“A Ford estava eticamente obrigada a recolher o carro — exigido por regras das quais toda a sociedade se beneficiaria no longo prazo.”

recolher, e obrigada


Aviso

Mesma família de teoria, mesmo caso, três conclusões. O problema nunca foi “utilitarismo” — foi a profundidade (e a conveniência) do cálculo que a Ford escolheu.

Teoria Kantiana: Três Ideias, em Ordem

1. Autonomia: ser moral não é obedecer regras externas — é a própria pessoa, pela razão, determinando o que é certo e se obrigando por dever (não por conveniência ou medo de punição).


2. Norma hipotética vs. categórica

“Uma norma hipotética costuma ter a forma: ‘se você quer X, faça Y.’”

Uma norma categórica não depende de nenhum objetivo escolhido — vale incondicionalmente, para qualquer pessoa.


3. O imperativo categórico — o único princípio racional supremo, do qual tudo deriva. Duas formulações equivalentes, a seguir.

1ª Formulação: Universalidade

“Aja apenas segundo a máxima pela qual você possa, ao mesmo tempo, querer que ela se torne uma lei universal.”


Exemplo simples: quebrar uma promessa

Máxima: “posso quebrar minhas promessas quando for conveniente.”

Se todo mundo agisse assim, ninguém mais confiaria em promessa nenhuma — a própria prática de prometer desapareceria. A máxima se autodestrói quando universalizada.


Não é sobre consequências ruins — é uma contradição lógica: a ação só é possível porque a maioria das pessoas NÃO age assim.

2ª Formulação: Reciprocidade

“Aja de modo a tratar a humanidade, seja na sua própria pessoa, seja na de qualquer outro, sempre também como um fim, nunca meramente como um meio.”


Exemplo simples: o empréstimo desonesto

Pedir dinheiro emprestado prometendo pagar, sabendo que não vai pagar — a pessoa não teria emprestado se soubesse a verdade.

“Estou usando a racionalidade dela como um meio para atingir meu próprio objetivo.”


Dica

O problema não é usar serviços de alguém (normal) — é negar a informação que a pessoa precisaria para decidir racionalmente por si mesma.

O Problema da Formulação da Máxima

Máxima rasa (favorável a Ford)

“Empresas podem decidir não corrigir um defeito quando o custo supera um limiar atuarial.” — parece universalizável.


Máxima honesta e específica (o livro)

“A Ford vai comercializar o Ford Pinto, sabendo que o carro é inseguro, sem informar os consumidores.” — ninguém confiaria em comprar um carro.


Nota

Síntese própria, não do livro-base: a teoria não decide, por si só, o quão específica a máxima deve ser.

Ford Pinto Pela Lente Kantiana

Universalidade: se todo fabricante vendesse carros inseguros sem avisar, ninguém confiaria em comprar carro nenhum — a máxima não pode ser universalizada.


Reciprocidade: ao não informar os consumidores, Ford os usou como meio para seu lucro, não como fins racionais capazes de decidir — o mesmo mecanismo do exemplo do empréstimo desonesto.


Nota

Note: o kantiano nem precisa calcular custo-benefício. A falha está em não informar.

Quando a Norma Parece Clara Demais: Rigidez

Kant, em ensaio próprio (1797, Sobre um Suposto Direito de Mentir por Filantropia): mentir é errado mesmo para um assassino perguntando onde está seu amigo.


Nota de precisão

Não vem de Van de Poel & Royakkers — conhecimento geral sobre a obra do próprio Kant.


Aviso

“Kant não permite nenhuma exceção em sua teoria.” — a maioria sente que mentir ali é obviamente certo. Isso revela o problema da rigidez.

A Saída de Ross: Normas Prima Facie

Prima facie (latim: “à primeira vista”) — dois níveis do bem:

“O que parece ser bom à primeira vista, e aquilo que é bom depois de levarmos tudo em consideração.”


Exemplo do livro: provas de alunos vs. amigo

Prometer corrigir provas até sexta vs. ajudar um amigo em apuros — ambas são normas prima facie, mas só “ajudar seu amigo é uma norma auto-evidente”.


Ross não descarta a promessa — ele mostra que, nesta situação, um dever pesa mais que o outro. Muda a situação, pode inverter.

Ética das Virtudes: o Caráter de Quem Age

“A ética das virtudes foca na natureza da pessoa que age […] quais características boas ou desejáveis as pessoas deveriam ter.”


Aristóteles — eudaimonia, a vida boa

“A vida boa é uma vida ativa, em conformidade com as virtudes necessárias para realizar o potencial exclusivamente humano de cada um.”


O meio-termo (exemplo: coragem)

Covardia ⟵ Coragem ⟶ Imprudência


Não há fórmula fixa — exige sabedoria prática para achar o meio-termo em cada situação.

Profundidade Aqui é Outra Coisa: Virtude ou Imitação?

Crítica (Frankena)

Não dá instrução concreta de como agir num caso.

Crítica (Kant)

Um “psicopata frio” pode ter autocontrole e firmeza — virtudes na mão errada tornam alguém mais perigoso.


Rotular uma ação de “corajosa” é fácil. Saber se o traço está a serviço do quê exige sabedoria prática, não uma fórmula.

Virtudes de Engenharia (Pritchard) e o Caso LeMessurier

Perícia técnica, comunicação clara, cooperação, objetividade, abertura à crítica, resistência, criatividade, busca pela qualidade, rigor no relato do trabalho.


Citicorp Center (1977): contratantes trocam solda por parafusos sem avisar o engenheiro-projetista. Um ano depois, um estudante liga com uma dúvida. LeMessurier não descarta — testa de novo, e descobre que o prédio pode cair numa tempestade de 16 anos.


Dica

Ele avisa advogados, seguradoras e a prefeitura voluntariamente, arriscando a própria reputação — “foi preciso muita coragem […] abertura à crítica.”

Ética do Cuidado: da Norma à Relação

“As pessoas aprendem normas e valores dentro de contextos específicos, ao encontrar pessoas concretas com emoções.”

— inspirada em Carol Gilligan


Relações especiais (filhos, amigos — mas também empresas com empregados, fornecedores, vizinhos) geram obrigações especiais, que não podem ser derivadas de um princípio geral único.


Assimetria é central: pai-filho, empregador-empregado, médico-paciente — a vulnerabilidade de um lado gera dever de cuidado no outro. O que fazer não pode ser fixado de antemão por regra — depende do contexto.

Crítica: Vaga Demais?

“Não fica claro o que ‘cuidado’ exatamente significa […] não dá indicações concretas de como agir numa situação específica, em contraste com o utilitarismo ou a ética kantiana.”


Mesma crítica de Frankena à ética das virtudes, agora aplicada aqui: bonita em teoria, pouco prescritiva na prática.

Ford Pinto, pela Terceira Vez

Leitura rasa

“Ford não tem relação pessoal com milhões de compradores anônimos — ética do cuidado não se aplica.”


O livro discorda

“Essa relação era assimétrica, já que os consumidores […] dependiam da informação que a Ford fornecia. A Ford deveria reconhecer essa vulnerabilidade […].”


Dependência assimétrica basta — não precisa de proximidade emocional. Três teorias, três exames do mesmo caso, o mesmo padrão de reversão de uma leitura rasa para uma mais cuidadosa.

Aplicação em Engenharia: Normas de Engajamento (Devon)

Competência, conhecimento interdisciplinar, fluxos de informação democráticos, times democráticos, orientação a serviço, diversidade, cooperatividade, criatividade, gestão de projeto.


Nota

Desloca a responsabilidade moral do indivíduo isolado para o arranjo social em que a engenharia acontece.

Nenhuma Teoria Decide Por Você

“Mesmo que usar uma ou mais das teorias não garanta tomar a decisão certa, uma decisão moral que simplesmente ignora as teorias éticas […] é geralmente claramente antiética.”

— Van de Poel & Royakkers (2011, p. 107)


flowchart TB
    C["🚦 Highway Safety<br/>Site A ou Site B?"]
    U["⚖️ Utilitarismo<br/>Qual reduz mais o total<br/>de mortes e feridos?"]
    K["📏 Teoria Kantiana<br/>Qual distribui o risco<br/>mais igualmente?"]
    A1["? resposta pendente"]
    A2["? resposta pendente"]

    C --> U --> A1
    C --> K --> A2

    classDef case fill:#3b82f6,stroke:#1d4ed8,stroke-width:2px,color:#fff;
    classDef util fill:#10b981,stroke:#047857,stroke-width:2px,color:#fff;
    classDef kant fill:#f59e0b,stroke:#b45309,stroke-width:2px,color:#fff;
    classDef pending fill:#e5e7eb,stroke:#9ca3af,stroke-width:2px,color:#374151;

    class C case;
    class U util;
    class K kant;
    class A1,A2 pending;

O Ciclo Ético Como Método

O Ciclo Ético: um Método, Não uma Fórmula

“O ciclo ético ajuda você a fazer uma análise sistemática e completa do problema moral, e a justificar suas decisões finais em termos morais.”

— Van de Poel & Royakkers (2011, pp. 137–138)


flowchart TB
    P1["1️⃣ Formulação do<br/>Problema Moral"]
    P2["2️⃣ Análise do<br/>Problema"]
    P3["3️⃣ Opções de Ação"]
    P4["4️⃣ Avaliação Ética"]
    P5["5️⃣ Reflexão"]
    F["✅ Ação<br/>Moralmente Aceitável"]

    P1 --> P2 --> P3 --> P4 --> P5 --> F
    P5 -.->|"feedback"| P1
    P4 -.->|"feedback"| P2
    P3 -.->|"feedback"| P1

    classDef fase fill:#3b82f6,stroke:#1d4ed8,stroke-width:2px,color:#fff;
    classDef final fill:#10b981,stroke:#047857,stroke-width:2px,color:#fff;

    class P1,P2,P3,P4,P5 fase;
    class F final;

Não é linear — é iterativo, com retornos a fases anteriores. Fio condutor de hoje: Gilbane Gold (fábrica que despeja chumbo e arsênio na água).

Fase 1: Formular Bem o Problema — Três Critérios

❌ Tentativa 1 — Factual

“O chumbo e o arsênio na água vão causar efeitos à saúde?” — pergunta de fato, não de valor.

❌ Tentativa 2 — Prática

“Como a cidade pode garantir as duas empresas como fonte de bem-estar?” — pergunta de meios, não moral.

✅ Formulação que Funciona

“David deveria informar o público […] mesmo que a gerência da Z-Corp não considere isso um problema sério?”


Três critérios: o que está em jogo + quem tem que agir + por que é uma questão moral.

Fase 2: Analisar — Três Elementos

Valores

Saúde pública, cuidado ambiental, honestidade, lealdade, integridade

Interessados

Z-Corp, prefeitura, agricultores, moradores, David

Fatos incertos

Capacidade da estação de tratamento; risco de David perder o emprego


Nota

Fato incerto não paralisa: formule de forma hipotética — “se x, opção A; se y, opção B.”

Fase 3: Opções — Cuidado com o Preto-no-Branco

Estratégia Preto-no-Branco

Só duas opções (agir ou não). “Em situações mais complexas, é simplista demais.”


Estratégia de cooperação (Gilbane Gold, reformulado):

  1. Método de tratamento melhor e mais barato
  2. Contatar a sociedade de engenharia
  3. Contatar o conselho municipal
  4. Contatar a própria estação de tratamento


Denúncia pública (whistle-blowing): último recurso — custo alto para todos.

Fase 4: O Kit de Ferramentas de Avaliação

Formais

  • Códigos profissionais (Aula 3)
  • Utilitarismo (ato/regra)
  • Pareto
  • Kant → teste de respeito / teste de liberdade
  • Análise de virtudes

Informais

  • Intuição
  • Senso comum (pesar valores)


Caso Jasmine

Diretora sob pressão para relaxar o código de obras. Kant: máxima não pode ser universalizada. Utilitarismo de ato: aceitar dá o melhor resultado agregado. Discordam.

Fase 5: Reflexão — Equilíbrio Reflexivo Amplo

Coerência entre três tipos de crença: julgamentos ponderados, princípios morais, teorias de fundo.


Dica

Duas perguntas: o framework sustenta minha intuição? Ele captura os aspectos moralmente relevantes — ou deixa algum de fora?

Quando Voltar? Três Setas, Três Motivos

Seta 1 (Fase 3→1): gerar opções revela um falso binário na formulação original. (reconstrução nossa)


Seta 2 (Fase 4→1): a avaliação revela uma dimensão moral (ex.: justiça) que a formulação original não via. (explícito no livro)


Seta 3 (Fase 4→2): testar um framework revela um fato que faltava checar. (reconstrução nossa)


Dica

Veremos as três, ao vivo, no caso Highway Safety a seguir.

Aplicando o Ciclo ao Caso Highway Safety

Fase 1: Nem Sempre é Óbvio Que é um Problema Moral

“Não fica claro, pela própria formulação, por que é um problema moral. […] muitas pessoas […] afirmam que […] a opção A deveria ser escolhida.”


Análise: interessados (motoristas, contribuintes, conselho); valores (segurança, justiça, utilidade pública); fato incerto (fatores de redução são médias nacionais, não específicas dos dois cruzamentos).

Seta 1 Acontecendo: Whitbeck Contra o Falso Binário

“O problema é apresentado como uma escolha forçada […]. Instalar placas de trânsito nas duas interseções pode ser uma alternativa.”

— Whitbeck (1998a, apud p. 151)


Aviso

Isto é a Seta 1 (Fase 3→1): gerar opções revela um binário mais estreito do que a realidade. O livro só cita a crítica — a reconstrução do loop é nossa.

Fase 4: Duas Teorias, Duas Recomendações

⚖️ Utilitarismo → Cruzamento A

“Em todos os cálculos, o Cruzamento A tem o maior benefício bruto e o maior benefício líquido.”

📏 Kant → Cruzamento B

“Indivíduos que se aproximam do Cruzamento B enfrentam um risco maior […]. Uma escolha pelo Cruzamento B seria, portanto, mais justa.”

Seta 2 Acontecendo (a Única Explícita no Livro)

“Considerar o caso a partir de um ponto de vista deontológico ajuda a perceber que há um problema moral em potencial aqui. […] alguém só reconhece as considerações de justiça no passo 4 […]. Essa pessoa pode então voltar ao passo 1.”

— Van de Poel & Royakkers (2011, p. 150)

Seta 3 Acontecendo: o Teste de Reciprocidade Exige Checar um Fato

“O segundo imperativo categórico de Kant […] é difícil de aplicar a este caso […] a racionalidade dos outros não está em questão.”

— Van de Poel & Royakkers (2011, p. 152)


Nota

A checagem desse fato pertence à Fase 2. O livro não nomeia isso como “voltar” — é nossa leitura do que o texto faz implicitamente.

Fase 5: Reflexão — Nem Todo Argumento Pesa Igual

“O resultado de que o teste utilitarista seleciona o Cruzamento A é bastante robusto. O mesmo não é tão verdadeiro para a abordagem de Kant, ou para o teste de justiça.”

— Van de Poel & Royakkers (2011, p. 153)


Dica

O ponto central: o Ciclo Ético não elimina o desacordo — ele o torna explícito, argumentável, e situado no tempo. Vimos as três setas acontecerem, não só em abstrato.

Fechamento: A Bússola Moral

Hoje Cobrimos as Quatro Perspectivas de Steen

“Minha proposta é usar essas perspectivas em paralelo. Cada uma pode complementar as outras.”

— Marc Steen (2022, p. 135)


Steen chama de… Vimos hoje como…
Consequencialismo Utilitarismo
Deontologia Teoria kantiana
Ética das virtudes Ética das virtudes
Ética relacional Ética do cuidado


Nota de precisão

Não confirmamos que as duas formulações são idênticas palavra por palavra — mas partem do mesmo lugar: relações concretas e assimétricas.


Deliberação Ética Rápida

“Tivemos bons resultados com workshops […] através dessas quatro perspectivas éticas.”

Um mesmo projeto, quatro perguntas, 1–2 horas.

A Metáfora da Bússola Moral

“Uma bússola só mostra onde fica o norte magnético. Ela não diz para onde ir.”

— Marc Steen (2022, p. 139)


Nota

A mesma bússola pode apontar direções diferentes dependendo de quão a fundo você lê o mostrador — vimos isso quatro vezes hoje, com o Ford Pinto (utilitarismo, kantismo, e a formulação da máxima).


Ponte para a Aula 3

Hoje: teorias filosóficas, abstratas e universais.

Próxima aula: códigos de ética profissionais (ACM, SBC, IEEE) — orientação mais formal e institucional, e seus limites.