Inteligência
Artificial, Tecnologias Informacionais e seus possíveis impactos sobre
as Ciências Sociais
*
Tom
Dwyer
IFCH/UNICAMP
Introdução
No começo de 1999 estive visitando uma das mais informatizadas
universidades inglesas e depois de trabalhar durante alguns dias na sua
biblioteca central e nos seus centros de computação, me dei conta
que os recursos disponíveis ao pesquisador eram enormes. Me perguntei
como seria ser professor numa universidade onde os alunos poderiam, poucos
minutos depois da aula, conferir todos os dados que tinha sido passado, para
chegar na próxima aula até com perguntas embaraçosas. Ou
seja, pecebí que lá as possibilidades oferecidas pela tecnologia
tinham forçado uma modificação na base da
relação professor-aluno na qual o papel tradicional do professor
era transmitir conhecimento e o do aluno de receber. Perguntei para o professor
que tinha me convidado qual era a atual relação professor-aluno?
Ele me respondeu “SA”, perguntei “SA?”. “Pois
é” ele respondeu “Some e acha”. Ou seja, o professor
não fornece mais as informações, ele orienta o aluno e
ajuda ele a entender tudo que descobre nas suas pesquisas. Pensei em
professores que conheço em vários países que só
ensinam sobre o mundo a partir de livros e dados desatualizados, como eles
seriam vistos pelos alunos se trabalhassem numa universidade com este
nível de recursos? A resposta era cruel - eles seriam vistos como
preguiçosos, como palhaços ou como ideólogos defensores da
anti-ciência e do obscurantismo! O advento de revolução
informacional nas Ciênciais Sociais por colocar professores,
pesquisadores e alunos em contato com um amplo universo de
informações ameaça os defensores do obscurantismo e,
talvez por isto, do mesmo modo que a generalização da
alfabetização no passado, é tão combatida.
Mas a revolução informacional não apenas apresenta
novos recursos aos cientistas sociais, ela também abre novos campos de
pesquisa: engenharia genética, o papel dos meios tecnológicos em
governança, organizações virtuais, interação
em ambientes virtuais e, num sentido mais aplicado, ‘design’ de
sistemas informacionais. Várias áreas de pesquisa vão
necessariamente sofrer transformações: a sociologia do
desenvolvimento, a sociologia da juventude, antropologia urbana,
administração pública entre outras.
Tecnologias
de busca e classificação
Neste texto pretendo me concentrar sobre as ramificações do
desenvolvimento da inteligência artificial para as ciências sociais
no geral, e de maneira mais específica para a Sociologia. Muitas das
tecnologias que estão sendo desenvolvidas permitem, pelo menos, fazer
mais em menos tempo e com maior qualidade. Quando buscamos ‘Max
Weber’ dentro de um fichário manual nossos dedos passam de ficha
em ficha seguindo os processamento de nosso cérebro e sabemos que
estamos chegando naquilo que interessa quando encontramos ‘Marvin
Weber’ e que fomos além quando encontramos a ficha de
‘Mirian Weber’. O desenvolvimento de fichários
informatizados reduz, de maneira significativa, as possibilidades de erro no
ato da catalogação e também o tempo passado nestas
operações de pesquisa.
A idéia da pesquisa informatizada agora se espalha para outras
áreas. Podemos estar, por exemplo, trabalhando na análise de
centenas de páginas de transcrições de uma pesquisa de
campo, e queremos saber qual entrevistado falou sobre ‘Max Weber’ e
o que ele falou, se as transcrições foram digitalizadas a busca
desta resposta através da função ‘procurar’ de
um programa de editoracão de textos é muito mais fácil do
que se a busca fosse manual. Ou seja, este uso da operação
‘procurar’ aumenta nossa capacidade de produzir respostas
rápidas a perguntas precisas e pontuais.
Um terceiro tipo de operação é, do ponto de vista do
pesquisador, mais importante. Programas especializados, tais como o NUD*IST
(agora NVivo), Ethnograph e outros, permitem a catalagoção
automatizada de palavras em linguagem natural, imagens, conceitos e
codificações desenvolvidos pelo pesquisador. Assim, uma das
técnicas mais antigas das ciências sociais, a análise de
conteúdo, é potencialmente transformada com o advento destes
programas. Estas tecnologias informacionais replicam várias atividades
mecânicas e rotineiras do pesquisador, e porque permitem o pesquisador a
pedir comparações sistemáticas e econômicas entre
diversas categorias de dados, ajudam o pesquisador a classificar seus dados, a
interconectar classes de dados, e a partir disso de perceber a
frequência, forma e conteúdo de certas relações
entre classes de dados. Não apenas uma parte do suor e da chatice deste
tipo de pesquisa é eliminado mas, também, a qualidade da pesquisa
aumenta porque permite comparações sistemáticas a serem
feitas (sem gastos excessivos de tempo e recursos) de modo a testar
noções e hipóteses. Assim a informatização
aumenta nossa capacidade de cruzar informações, construir e
reformular conceitos à luz do progresso na análise e teorizar de
maneira indutiva.
Isto faz que algumas pesquisas, antes inviáveis por causa do tempo
que seria necessário passam a ser possíveis. Hoje em dia temos,
devido à informatização crescente da sociedade, um
número enorme de dados que existem em forma digital. Jornais e revistas
são publicados em CD-Rom permitindo que qualquer aluno de
graduação compare de maneira sistemática o tratamento dado
por diferentes jornais ao mesmo fenômeno: crime, genero, políticas
sociais, movimentos sociais, campanhas políticas (Fan, 1997)
Organizações complexas, de todos os tipos, também produzem
uma grande variedade de informação de natureza quantativa e
qualitativa em form digitilizada para uso interno. Um sociólogo do
trabalho poderia facilmente se sentir afogado pelo excesso de
informações disponíveis, mas se ele for treinado no uso de
programas de planilha (ex. Excell) de um lado e de análise quantitativa
de dados qualitativos (ex. NUD*IST) do outro, ele terá a seu dispor
ferramentas que o permitirão classificar e analisar este material de
maneira o mais completa quanto possível, o que teria sido
impossível usando técnicas de pesquisa tradicionais. Este tipo de
tecnologia informacional acaba funcionando de maneira análoga ao
microscópio, permitindo enxergar aquilo que era nebuloso de maneira mais
nítida, e de enxergar aquilo que antes era invisível a olho nu.
Mas sem uma formação teórica uma imagem aumentada pelo
microscópio apenas aparece mais bonita! Não basta só ver
melhor e em maiores detalhes é preciso saber interpretar aquilo que
está sendo observado graças ao uso destas tecnologias. Até
o presente momento nenhuma tecnologia conseguiu substituir o trabalho
teórico que o pesquisador tem que fazer para que seus dados passem a ter
significado no campo da ciência.
Um primeiro problema que surge com isto é como que estas tecnologias
informacionais podem ser usadas por pessoas com uma inadequada
formação teórica, ou seja, mesmo se as pesquisas foram bem
realizadas de ponto de visto técnico as análises produzidas
acabarão faltando substância de ponto de visto teórico. Um
segundo problema é que a disponibilidade e a predominância destas
tecnologias acaba dominando a escolha de problemas, no limite apenas problemas
capazes de serem pesquisados empregando estas tecnologias seriam considerados
legítimos, assim definindo outros problemas de grande relevância
como ilegitimos.
Nesta introdução falei em duas coisas que estão
acontecendo: em primeiro lugar pesquisadores estão empregando recursos
informacionais para alavancar suas capacidades de analisar grandes quantidades
de dados. Assim, uma pesquisa que, no passado, consumia grandes recursos
humanos de assistentes de pesquisa trabalhando em tarefas bastante repetitivas,
pode agora ser feita por um pesquisador que sabe manipular certos programas de
computação, tem uma boa intuição sociológica
e compreensão da construção de teoria. Em segundo lugar a
crescente informatização de registros e outros dados sobre
múltiplos aspectos da vida social transforma a estrutura básica
do sistema de aprendizagem em ciências sociais. Desta forma, o professor
especialista em transmitir séries de dados a respeito do mundo perde seu
lugar para o professor que ajuda o aluno a interpretar os dados que ele mesmo
colheu. Assim o professor ensina cada um a virar seu próprio
teórico.
A
Inteligência Social Artificial
A inteligência artificial é definida como “a capacidade
de um computador digital ou aparelho robótico controlado por um
computador a cumprir tarefas normalmente associadas com processos intelectuais
superiores, caraterísticas de seres humanos tais como capacidade de
raciocinar, descobrir significados, generalizar ou aprender a partir de
experiências do passado. Se usa a expressão para se referir aquele
ramo da ciência da computação que cuida do desenvolvimento
de sistemas dotados com tais capacidades.” (Encyclopaedia Britannica)
Dentro deste contexto Bainbridge et ali. definem a inteligência social
artificial como “a aplicação de técnicas de
inteligência mecânica a fenômenos sociais.... inclusive
construção de teoria e análise de dados.” (1994,
408) Os autores se referem à representação da vida em
sociedade, grupos ou organizações através de processos de
modelagem que produzem simulações do comportamento humano em
determinados contextos. Eles também discutem o uso de técnicas de
inteligência artificial para ajudar com a pesquisa e a análise de
dados.
Desde a década de 40, cientistas sociais têm refletido sobre
como teorias de computação e cibernética podem transformar
suas ciências e formar uma base da interdisciplinaridade. A idéia
da aplicação de técnicas de inteligência artificial
(IA) à análise do mundo social comecou se cristalizar em meados
da decada de 80 quando um congresso na Inglaterra resultou na
publicação do livro ‘Ação Social e
Inteligência Artificial’ de Gilbert e Heath (1985). A
noção tem respaldo na Antropologia (Chablo, 1996) e na
Ciência Política (Kimber, 1991) e também em áreas
próximas a nossa: Psicologia, Saúde Pública, Criminologia,
Administração e Economia.
O
que a Sociologia Pode Fazer para a Inteligência Artificial
?
No
livro “Mind over Machine” os irmãos Dreyfus escreveram nos
últimos anos a pesquisa sobre a IA “nos ensinou muito sobre nos
mesmos mais por seus fracassos do que pelos sucessos.” (Dreyfus e
Dreyfus, 1986, 11) Collins diz em 1992 que ele imaginava ser impossível
desenvolver uma IA de grande alcance sem recorrer à Sociologia. Como a
Sociologia pode contribuir ao projeto de construção de IA? O
modelo tradicional de IA é construído na base da idéia de
que uma pessoa age como indivíduo dentro do mundo, e não de uma
pessoa dentro de um sistema de interações sociais que existe
dentro do mundo. Esta simplificação produz como referência
central uma relação entre IA e a psicologia cognitiva, o projeto
da IA de simular o comportamento de um (ou mais) ator humano. A
noção de inteligência usada ignora o fato central à
sociologia interacionista de que interagimos com outros seres humanos em
contextos sociais. Mas estes esforços de construção da IA
não simulam o comportamento do ator humano numa relação
social.
Doran
propõe em Gilbert e Heath (1985) que uma área interessante
é a ação social, onde a IA busca construir sistemas onde
multiplos ‘atores virtuais’ cooperam na execução de
uma tarefa em comum. É preciso um enorme trabalho para representar, em
forma computacional, estes atores. Para Doran a agenda de pesquisa inclui: como
representar os conhecimentos e crenças de um ator, como agregar atores
numa entidade maior, como garantir que os atores memorizem seus projetos de
modo a poder acessa-los de maneira adequada? Hoje existem outros projetos que
trazem uma contribuição sociológica ao desenvolvimento da
IA. (Prietula, Carley e Gasser, 1998) Ou seja, existe uma
contribuição da sociologia ao desenvolvimento de técnicas
de IA em algumas áreas da ação humana.
O
que a Inteligência Artificial (e algumas outras tecnologias
informacionais) Podem Contribuir para o Desenvolvimento da Sociologia?
Entrevistando
com a ajuda de tecnologias de Inteligência Artificial
Desde
a década de 60 pesquisadores estão desenvolvendo programas que
entrevistam. No seu último livro Sherry Turkle conta um pouco da
história da penetração desta tecnologia dentro da
psicoterapia e os argumentos dos desenvolvedores a respeito do programa ELIZA
(que ocorreram entre o final dos anos 70 e meados dos anos 80). Em meados da
década de 80 surgiram programas concebidos para auto-ajuda e estes
auxiliaram usuários a relaxar, evitar crises depressivas, fazer um
regime ou desenvolver um programa de exercícios físicos. Baseados
em técnicas de multipla-escolha esta tecnologia passou a ser
representada de maneira favorável na imprensa. Em 1990 um estudo
comparou 3 grupos de pessoas com sintomas de depressão: aquele tratado
com psicoterapia, aquele tratado com psicoterapia informatizada e um grupo de
controle. Após 6 semana de tratamento os dois primeiros grupos
alcançaram os mesmos índices de melhoras de saúde. O
programa Depression 2.0 é construído em torno de uma teoria
cognitiva-comportamentalista facilmente modelada num computador. Após
uma entrevista o usuário estabelece os fatores que estão gerando
sua depressão, aceitando ou rejeitando as
‘posições’ tomadas pelo programa conforme a utilidade
emprestada a cada pergunta e a resposta dada pelo programa. Ou seja, alguns
pacientes com necessidade de tratamento psicoterapeutico passaram a aceitar
ser entrevistados por uma máquina dotada de um grau de
inteligência artificial e ter caminhos de ação
‘recomendados’ pela máquina! (Turkle, 1996, 102-124)
Nas
ciências sociais investiga-se o uso desta mesma tecnologia para
administrar entrevistas. Três vantagens são observadas: primeira,
a maior facilidade em receber respostas a perguntas sobre temas delicados,
segunda, a possibilidade de usar hiper-textos para direcionar a entrevista e
assim aprofundar questões específicas e, na hora de tabular as
respostas, realizar grandes economias de tempo e esforço e terceira, a
realização de sondagens de opinão pública pela
internet. Com respeito à primeira vantagem, a entrevista automatizada
oferece uma maior facilidade em receber respostas a perguntas sobre temas
delicados (pessoas entrevistadas sobre sexualidade ou corrupção,
por exemplo, podem responder mais facilmente a uma máquina do que a um
ser humano). (Johnston e Walton, 1995) Nos Estados Unidos durante o recente
‘National Household Survey on Drug Abuse’ realizou-se uma
experiência com entrevistas assistidas por computador e descobiu-se um
aumento nos relatos de uso de drogas em relação à
entrevista tradicional, e também o programa permitiu aos entrevistados
corrigir inconsistências (detectadas por computador) nas respostas.
(Lessler et al. 2000) Com respeito à segunda vantagem, além de
poder melhor direcionar as entrevistas e poder interrogar entrevistados sobre
insconsistências nas respostas, na hora de tabular as respostas há
grandes economias de tempo e esforço. Em relação à
terceira vantagem, sondagens de opinão pública podem, num futuro
próximo, ser realizadas através da internet. Famílias de
baixa renda serão incluidas na amostra através da
doação de computadores e ligações à
internet. Experimentos já estão demostrando a validade das
respostas obtidas com esta abordagem (Featherman, 2000) e para Bainbridge
(1999) uma grande vantagem da adoção desta técnica
é a redução de custos da pesquisa.
Extensão
da Capacidade de Leitura e Classificação de Textos
Nos
últimos anos desenvolveu-se uma série de programas que são
capazes de ler textos e classificar suas partes - sejam escritos estes ou
visuais. Num primeiro momento o pesquisador constroí suas categorias de
análise, e num segundo momento, grandes quantidades de
informações podem ser classificadas automaticamente conforme os
padrões fixados pelo pesquisador, para em seguida serem analisadas.
Programas do tipo Nud*ist e seu substituto NVivo, Ethnograph, Atlas/ti e
HyperResearch são exemplos. Outros artigos nesta revista analisam o uso
destes programas e por esta razão não convém entrar em
detalhes aqui. Basta dizer, em primeiro lugar, que um grande leque de
documentos pode ser analisado com a ajuda destes programas: partes não
gráficas de páginas na www, jornais preservados em CD-Rom, anais
de congressos, relatórios de organizações, dialógos
em salas de bate papo na internet e até imagens digitizadas. Estes
programas agora facilitam a execução de pesquisas antes
consideradas impossíveis ou excessivamente caras.
Hoje é possível fazer análises assistidas por
computadores que sejam comparativas tanto no tempo quanto no espaço,
análises que examinam muitas dimensões não apenas da vida
política e social mas também intelectual. Por exemplo, o fato de
que bibliografias de artigos e livros possam ser digitilizadas permite o
mapeamento, através da análise de citações, dos
‘colégios invisíveis’ que sustentam as carreiras e o
desenvolvimento intelectual dos autores. (Baldi, 1998)
No
passado quando um pesquisador queria sistematizar conhecimentos numa
área, fazendo um ‘estudo dos estudos’ era necessário
codificar os documentos manualmente, hoje a emergência de tecnologias
informacionais permite a análise de documentos digitizados a ser
assisitida por computador. Desde pelo menos a decada de 40 existem excelentes
‘estudos de estudos’ que revelam com frequência descobertas
suprendentes. No livro ‘Social Structure’ Murdoch (1949) analisou
250 sociedades na base de estudos feitos por mais que 250 pesquisadores. Entre
suas múltiplas descobertas há várias surpresas, por
exemplo, o relacionamento familiar de longe o mais observado (em 137
sociedades) foi aquele entre o marido e a sua sogra, o segundo mais observada
foi entre marido e a irmã de sua mulher (88 sociedades). Para
classificar a natureza do relacionamento entre o marido e sua sogra, Murdoch
desenvolveu uma escala de 5 pontos indo de ‘frio’ a
‘caloroso’. Nenhuma sociedade observada permite a
manutenção de relacionamentos classificados como
‘calorosos’ entre o marido e sua sogra. Na grande maioria dos casos
apenas relacionamentos ‘frios’ são mantidos. Caplow teoriza,
no seu livro sobre teoria triádica, que todo relacionamento entre
três pessoas ou entidades resulta na formação de uma
coalizão de dois contra um. Na base das informações
sistematizadas por Murdoch, Caplow teoriza que o homem mantém um
relacionamento distante com sua sogra para evitar que se forme uma
relação triádica insustentável na qual a esposa
será obrigada a formar uma coalizão ou com seu marido contra sua
prórpria mãe ou com sua mãe contra seu marido. (Caplow,
1968, 105) As ciências sociais comparadas desde sempre se basem em
estudos comparativos, ou no tempo ou no espaço. O
tipo
de trabalho desenvolvido por Murdoch é fruto de um amplo e
sistemático ‘estudo dos estudos’ ele serve como prototipo
devido à maneira na qual a base de dados usada permite hipóteses
de cunho comparativo a serem testadas de maneira rigorosa. Hoje em dia o
desenvolvimento de técnicas de análise informatizada nos leva a
esperar que o número de análises comparadas, de ‘estudos de
estudos’, aumentará num futuro próximo.
Este
tipo de tecnologia informacional copia a atividade humana, reproduz
artificialmente e rapidamente atos rotineiros de pesquisadores, tais como
classificação ou codificação de dados qualitativos,
atos que teriam que ser executados manualmente se estas tecnologias não
existissem. Uma vez os dados classificados, o pesquisador tem a
responsabilidade de aceitar, modificar ou rejeitar as
classificações antes de proceder à análise dos
resultados.
Estas
tecnologias ainda estão em fase de desenvolvimento, a
generalização de seu uso depende não apenas da
capacitação de professores e técnicos mas também
da resolução de vários de seus conhecidos problemas e do
alcançe de um certo nível de aceitação no meio
academico. Como Wilma Mangabeira (1996) ensina o grau de
aceitação varia de país a país. É
possível que no futuro estas tecnologias serão tão
importantes para o desenvolvimento de alguns tipos de análise de
natureza qualitativa quanto foi o desenvolvimento de programas computacionais,
tais como SPSS e SAS, para o tratamento de certos dados quantitativos.
Inteligência
Artificial e pesquisas que se servem de estatísticas
Na
área de uso de estatísticas podemos também enxergar a
contribuição da IA. Para o pesquisador iniciante o programa
‘Statistical Navigator’ o ajuda a decidir quais entre mais de 200
tipos de análise estatística são melhores para seu
projeto. Para que o pesquisador consiga escolher bem há uma entrevista
computadorizada a respeito de seus objetivos e prioridades. Após esta
entrevista uma série de alternativas é apresentada ao pesquisador
que, através de hiper-texto, consegue ter a descrição de
cada método para ajudá-lo a tomar sua decisão.
A
Extensão do olhar humano
Em
‘Vigiar e Punir’ Michel Foucault escreve a respeito da
importância da extensão do raio de visão humana para a
formação de mecanismos de controle social. Ele demonstra a
pertinência desta idéia com referência ao Panoptican
desenvolvido por Bentham onde, a partir da arquitetura, uns poucos observadores
conseguem supervisionar as atividades de um grande número de pessoas
sem, no entanto, serem visíveis.
Hoje
as instituições totais não são mais os
únicos lugares onde as atividades humanas podem ser monitorados por
observadores invisíveis. Nos grades centros urbanos cameras de video
estão sendo usados de maneira generalizada: na porta de casa, nas ruas,
nos shopping centers. Será que estamos cada vez mais presos dentro de um
aparelho estilo Panoptican? Vivemos Bentham na época dos Bits? As
sociedades vão precisar desenvolver novos mecanismos de
proteção da privacidade individual e mecanismos de combate
à concentração de poder nas mãos daqueles que
observam a sociedade, ou seja, de evitar um estado policial à la 1984 de
Orwell. Na ‘Wired’, a revista cultural da sociedade de
informação, Brin especula que se todos os cidadãos
tivessem acesso em tempo real às imagens geradas por estas cameras -
haverá uma democratização do controle do sistema de
controle social. (Brin, 1996 ) Ou seja, em vez de dupla reflexividade, haveria
um duplo Panoptican com os cidadãos observando o trabalho dos agentes
policiais e ao mesmo tempo os cidadãos teriam acesso às mesmas
imagens da rua, a porta de casa ou do shopping observadas pelos policiais.
Para
os cientistas sociais a geração e armazenamento destas imagens em
forma digital produz um material de pesquisa, como nos mostra o tele-jornalismo
brasileiro, que pode servir a várias finalidades. A pergunta que se
coloca é qual é a importância da existência destas
imagens para pesquisadores em ciências sociais? As respostas já
estão começando a ser dadas na prática, para mim a coisa
mais importante é de sair da utilização narrativa deste
material para alcançar algum nível de análise mais
teórico. As tecnologias de tratamento informatizado de imagens permitem
o desenvolvimento de classificações de imagens, (Evans, 2000) no
futuro próximo o desenvolvimento tanto das tecnologias quanto das
capacidades humanas, devem levar a análises sistemáticas e
quantitivas de grandes volumes de informações visuais.
Raudensbush
e Sampson (1997) descrevem seus esforços de observação
sistemática de bairros americanos usando cameras de vídeo.
Além disso o estudo envolve um promissor recurso a múltiplos
métodos: filmagem de video, entrevistas, dados de censo, dados
extraídos de sondagens, estatísticas de patologias sociais e
entrevistas. Todos são analisados de modo a apresentar uma visão
completa da vida em comunidade. Inspirados pelo conceito de
‘observação social sistemática’ desenvolvido
por Reiss (1971) os pesquisadores buscam construir sua
‘ciência’ - ‘ecometrics’. Numa das
inovações metodológicas os pesquisadores filmaram as ruas
principais dos bairros em determinadas horas. Para construir suas
análises os pesquisadores usavam as imagens para complementar e
contestar dados recolhidos de outras fontes. Assim foi possível ter
maior clareza sobre descompassos entre os dados sobre processos sociais e as
representações destes processos. Devida à capacidade desta
auto-denominada ‘ciência’ de integrar dados recolhidos a
partir de múltiplas fontes, os autores concluem que a abordagem é
bastante promissora “para a avaliação confiável e
válida de processos sociais a nível da vizinhança.”
(Raudenbush e Sampson, 1997, 33) O armazenamento de imagens captadas
rotineiramente por cameras de vídeo representa um primeiro passo para
estimular o desenvolvimento de profissionais capazes de analisar imagens
através de óticas construidas pelas ciências sociais. O
segundo passo é estimular grupos de alunos e pesquisadores a ter vontade
de analisar a sociedade a partir de suas ‘observações da
realidade social’ assistidas por computadores, e estimular tanto
treinamento técnico quanto a formação teórica dos
membros destes grupos.
Mas
podemos chegar rapidamente num dos mais importantes limites da
exploração destas tecnologias informacionais. Limite de onde
é possível enxergar a sombra do uso destas tecnologias, que sejam
visuais, de audio ou de texto, por agências de controle social que
agirão de maneira incompatível como os princípios da
democracia e respeito a privacidade. No passado a sociologia desenvolveu
técnicas de survey que acabaram alimentando disciplinas tais como a
Ciência Política e o Marketing. Estas disciplinas estimularam a
aplicação das tecnologias não mais de maneira
científica - mas de modo a aumentar o poder daqueles que as empregavam.
O fato de que as ciências sociais estão explorando estas
tecnologias impõe a responsabilidade de desenvolver princípios
éticos no uso delas.
IA
e o Ensino
Programs
de computação
Programas
tais como o ‘Statistical Navigator’ a qual me referí acima
podem servir de ferramenta de apoio didático num curso de métodos
e técnicas. No passado vimos outros casos onde novas tecnologias
contribuiram a parcialmente transformar o ensino, na Antropologia a
introdução de vídeo em sala de aula contribuí para
transformar o ensino. Hoje a IA agora ameaça chegar no ensino.
Na
revista ‘Teaching Sociology’ Brent et ali. (1989) descrevem o
programa ‘Erving’ que simula a perspectiva de Erving Goffman. O
usuário vai do palco aos bastidores, ele assiste a
interação de pessoas e vai aprendendo em termos Goffmanianos
sobre os sistemas de interação social. O computador também
pode testar a compreensão que o usuário tem da teoria de Goffman.
Ou seja, a tradicional prova de múltipla escolha é refinada, os
resultados saem na hora e sem que nenhum professor precise se estressar com a
atribuição de notas!
Na
Universidade Carnegie Mellon um sistema chamado ‘Entrevistas
Sintéticas’ foi desenvolvido. Para aprender sobre a vida de um
teórico ou de sua teoria você entra numa situação
que lembra uma vídeo-conferência. O aluno faz perguntas em
linguagem natural e um progama de IA busca nos arquivos de material gravado em
vídeo a resposta que o teórico julgaria mais apropriada,
transmitindo a mesma ao aluno. O primeiro teórico incluido é
Albert Einstein. (Port, 1999, 52-53)
Transformação
do Ensino
Algumas
tecnologias que empregam IA vão, com certeza, chegar em salas de aula de
alunos de ciências sociais. Isto pode acontecer talvez do mesmo modo em
que CD-Roms chegaram em escolas transformando o ensino de línguas
estrangeiras. No Brasil podemos especular que as universidades particulares,
com seus volumosos recursos financeiros, posturas que misturam o desejo de ser
modernos com finalidades propagandisticas e fortes orientações de
reduzir o custo de ensino por aluno, serão as primeiras a adotar estas
tecnologias.
No
momento atual o formato tradicional de ensino está sendo abalado em
algumas áreas. Na administração de empresas e marketing,
universidades brasileiras estão tendo que se equipar para concorrer com
cursos oferecidos através da Internet por universidades estrangeiras. Em
outras áreas a internet está fazendo uma importante
incursão, como demonstrei no começo deste texto, permitindo
alunos a ter fácil acesso a dados atualizados e assim contribuindo
não apenas à transformação da relação
professor-aluno mas também de acesso a informações.
É
importante lembrar de um princípio fundamental da
computação. Em todo sistema automatizado há sempre algo
que não pode ser automatizado, e ironicamente este ‘algo’
passa a ter um papel cada vez mais crucial na medida em que a
informatização avança. No caso de ensino este
‘algo’ é o papel do professor. Numa sociedade de
informação o papel do professor muda, o professor não
transmite mais informações ele ajuda o aluno a interpretar as
informações que ele mesmo recolheu e também estimula o
aluno a procurar outras informações, e o aluno por sua vez tem
que contar com o apoio de bibliotecários profissionais. A
compreensão do mundo se desenvolve a partir da capacidade de processar e
interpretar informações dentro de uma construção
teórica que tem legitmidade científica (a referência
à noção de ciência visa excluir qualquer
diálogo com falsas ciências tais como a astrologia e com
ideologias que são travestidas de ciências). Dentro deste contexto
faço a hipótese de que haverá uma nítida
valorização daqueles professores de ciências sociais que
saibam construir teoria e que consigam ensinar esta habilidade a seus alunos.
(vê um esforço tipicamente americano de reflitir sobre o papel da
abordagem computacional na construção de
explicações (Brent, Thompson, Vale. 2000)).
Construção
de Teoria
As
tecnologias informacionais servem para testar hipóteses de pesquisadores
e também para gerar novas hipóteses. A partir do momento em que o
pesquisador constroí interrelações lógicas entre
hipóteses verificadas estamos falando na execução de uma
das atividades fundamentais das ciências sociais, a
construção de teoria. (Glaser e Strauss, 1967) Há
também cientistas que se dedicam a construir ‘agentes’, ou
seja, formas de vida artificial que podem simular comportamentos tanto de
animais quanto de seres humanos. Tenta-se desenvolver modelos computacionais
que simulam o que acontece em sociedades em caso de guerra, fome, desastres
etc. Os modelos são baseados em observações de
comportamentos, em dados empíricos registrados através de
observações de muitos casos tanto em termos qualitativos quanto
quantitativos. Parece que estes esforços de simulação
funcionam melhor quando se trata comportamentos que são
‘automáticos’ e por esta razão têm um maior
grau de previsibilidade do que ações que embutem um grau de
cálculo e reflexividade. A partir de modelos simples de comportamento,
Epstein e Axtell (1996) buscam descodificar estruturas e ações
coletivas tais como ecosistemas, epidemias, corridas armamentistas, guerrras e
descobrir as regras localizadas que geram estes fenômenos. Outros se
arriscam a fazer o trabalho teórico necessário para desenvolver
simulações de situações sociais mais complexas.
(Goldspink, 2000) A revista on-line
Journal
of Artificial Societies and Social Simulation
publica artigos científicos sobre o desenvolvimento e uso de modelos de
sistemas sociais povoados por múltiplos agentes.
(www.soc.surrey.ac.uk/JASSS)
Conclusão
Neste
texto procurei trazer algumas noções das fronteiras do
desenvolvimento de tecnologias informacionais que são relevantes
às ciências sociais. Examinei alguns softwares e projetos frutos
da sociedade de informação que alavancarão
transformações na maneira na qual se faz ciências sociais:
no ensino, na pesquisa e na teorização. Uma coisa é certa:
as qualificações dos cientistas sociais vão ter que mudar
para poder incorporar estas tecnologias, inclusive será
necessário que as ciências sociais desenvolvam uma
relação mais estreita com as ciências da
computação, seus pesquisadores precisam de nós para
desenvolver produtos tais como IA, e muitas vezes nós vamos precisar
trabalhar junto com eles para podermos usar as tecnologias informacionais para
analisar o mundo social.
Nem
tudo que foi mencionado neste artigo vai se incorporar à prática
dos cientistas sociais. É um fato da sociedade de
informação que as pessoas muitas vezes atribuem às
tecnologias capacidades muito maiores que elas conseguem demostrar na
prática. Neste caso o cientista social pode ser levado a um beco sem
saída por modismo.
Vou
agora abandonar um pouco o foco anterior sobre IA para falar em termos mais
amplos; existe uma rede mundial de computadores, existem muitos CD-Roms
espalhados pelas bibliotecas de ciências sociais no Brasil, o Projeto
Prossiga de bibliotecas virtuais é apoiado pelo CNPq, bancos de dados
são regularmente compilados sobre os mais diversos temas, sites de
internet estão brotando com dados governamentais, (Lavoratti, 2000)
relatórios e até com dados comparativos. O desafio é
juntar estas diversas fontes de informação de modo a melhorar o
acesso que os cientistas sociais brasileiros têm aos dados e às
informações. Há quase meio século UNESCO defende o
desenvolvimento de grandes e sistemáticas comparações
internacionais. Ryssevik (1994) lança a idéia de
Laboratórios Sociais Virtuais integrando dados de modo a facilitar
certas pesquisas comparadas. Outros desenvolvem projetos de
observatórios sociais, um destes projetos tem um nome evocativo - o
‘Social Hubble’ (SMBH, 2000). Estes projetos e idéias visam
fortalecer nossa capacidade de desenvolver análises comparativas. No
futuro parece inevitável que as tecnologias informacionais, inclusive a
inteligência social artificial, vão contribuir de maneira
crescente ao desenvolvimento de nossa ciência.
*
Paper apresentado pela primeira vez no Congresso da Sociedade Brasileira de
Sociologia em agosto de 1999 em Porto Alegre. Novas versões foram
apresentadas no Congresso da SBPC e SBS de Brasília em julho de 2000, na
FAFICH/UFMG e no IFCH/UNICAMP no decorrer de primeiro semestre de 2000 e em
agosto de 2000 no II Conferência Científica da UFRGS ‘A
Pesquisa e Novos Paradigmas da Sociedade’.
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