Dados, Distribuições e Detecção de Anomalias

Aula 1 — Fundamentos Estatísticos do Aprendizado Supervisionado

Marcos M. Raimundo — Instituto de Computação, UNICAMP

2026-08-30

Proposta do Curso

A tese central do curso

Todo algoritmo supervisionado é a composição de três peças: uma suposição distributiva, uma verossimilhança e uma regra de decisão.

  • Objetivo: Não é aprender algoritmos novos, mas entender o que os que você já usa realmente fazem.
  • Diagnóstico de falha: Quando um modelo falha, a pergunta correta não é “qual hiperparâmetro eu ajusto?”, mas “qual das três peças está errada?” (quase sempre é a suposição distributiva).

A formulação estatística do aprendizado

  • Par \((x, y)\) com distribuição conjunta desconhecida \(p(x, y)\) e amostra \(\mathcal{D} = \{(x_n, y_n)\}_{n=1}^N\).
  • Classificação (\(Y \in \mathbb{N}\) adaptado) vs. Regressão (\(Y \subseteq \mathbb{R}\)): A diferença estrutural está quase inteiramente na escolha da distribuição do resíduo \(Y - f(X)\).
Prática do dia a dia Formalismo estatístico underlying
Mínimos Quadrados Máxima Verossimilhança sob erro Gaussiano
Regularização (L1 / L2) Inferência Bayesiana com Priori (Laplace / Gaussiana)
Resíduo de previsão Gradiente da log-verossimilhança

Fundamentação e pergunta de partida

Bibliografia de referência

  • PRML — Bishop, C. M. (2006), Pattern Recognition and Machine Learning
  • DLFC — Bishop, C. M. & Bishop, H. (2024), Deep Learning: Foundations and Concepts

Usados em paralelo. Divergências de notação ou ênfase são discutidas explicitamente.

A provocação conceitual

O que exatamente significa “aprender a distribuição dos dados”?

  • A tentação algorítmica: ajustar um hiperplano, otimizar uma perda, minimizar uma distância.
  • A perspectiva desta aula: entender como a geometria das densidades e a frequência das classes ditam a fronteira ótima antes de qualquer algoritmo rodar.

Roteiro de hoje

1. Classificar é comparar densidades — não otimizar uma fronteira direto.

2. Onde cortar entre duas classes? O que se perde nos dois lados (Erro Tipo I/II)?

3. E quando os dois erros não custam o mesmo?

4. Quando a melhor decisão é recusar decidir?

Distribuições, classificação e erros

O que é uma distribuição

Uma distribuição é o formato que os dados assumem no espaço.

  • Duas populações, uma variável \(x \in [0,1]\)
  • Histograma + curva suave que acompanha o histograma
  • Sem fórmula, sem nome, sem família — ainda

O que é uma Distribuição (2D)

O mesmo objeto, em mais dimensões

  • Histograma \(\to\) nuvem de pontos
  • Curva \(\to\) curvas de nível
  • Em 2D ainda dá para desenhar. Em 20D, não — Aula 4

Classificação e o problema da discretização/corte

Regra mais simples possível: um limiar \(t\).

\[ x \le t \;\Rightarrow\; \text{classe A} \qquad x > t \;\Rightarrow\; \text{classe B} \]

A resposta usual: no cruzamento das curvas.

Anote. Ela está errada.

Tipos de erros

Intuitivo Técnico Também chamado
alarme falso Tipo I falso positivo
escape Tipo II falso negativo

Atenção: “Tipo I/II” só existe depois de declarar a hipótese nula. Aqui: A = normal (nula), B = anômala.

O compromisso quantitativo

Mover o corte troca uma área pela outra. Nenhum corte zera as duas.

\(\Rightarrow\) erro de Bayes: irredutível, é propriedade dos dados.

A conta que desmente a intuição

O que estava escondido: as classes não são igualmente frequentes.

\[ 950 \text{ pontos da classe A} \qquad 50 \text{ pontos da classe B} \]

Vamos contar os erros de verdade — no cruzamento e num corte deslocado.

O corte deslocado erra menos

O corte deslocado erra muito menos.

E ele não veio de tentativa e erro — vem de um princípio.

Onde a justificativa verbal falhou:

“igualmente plausíveis” \(\ne\) “igualmente prováveis”

Por que o corte “no cruzamento das curvas” está errado, e o que falta entrar na conta?

Escreva, com suas palavras, e compare a sua frase com a de um colega antes de avançar (2 min).

Cruzamento de condicionais vs. conjuntas

Dica

Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:

  • □ Se \(\pi_A\) e \(\pi_B\) forem quase iguais mas não exatamente iguais (por exemplo, \(0{,}501\) e \(0{,}499\)), o cruzamento das condicionais e o cruzamento das conjuntas ainda coincidirão exatamente, por serem “praticamente” iguais.
  • □ A área de alarme falso e a área de escape podem, ambas, ser reduzidas a zero pela escolha certa do limiar \(t\).
  • □ Aumentar a frequência relativa da classe B desloca a fronteira ótima para a esquerda.
  • □ Ignorar a frequência das classes é o mesmo que assumir \(\pi_A = \pi_B\).

Cruzamento de condicionais vs. conjuntas — Resposta

Dica

  • ✗ Só coincidem exatamente quando as prioris são exatamente iguais; uma diferença pequena desloca o cruzamento das conjuntas por uma quantidade pequena, mas não nula.
  • ✗ Enquanto houver sobreposição das densidades, existe erro irredutível (erro de Bayes); nenhum \(t\) zera as duas áreas.
  • ✔ Se B fica mais frequente, é preciso menos evidência relativa a favor de B para declará-la (o limiar de razão de verossimilhanças \(\pi_A/\pi_B\) cai), então a região de B cresce e a fronteira se desloca para a esquerda, tomando território de A.
  • ✔ Cortar no cruzamento das condicionais é exatamente agir como se as duas classes fossem igualmente prováveis.

Por que o corte “no cruzamento das curvas” está errado, e o que falta entrar na conta?

Dica

(Escreva uma frase. Compare com um colega antes de avançar — 2 min.)

Regra do Produto, Marginais e Teorema de Bayes

A linguagem formal: As regras do jogo

Todas as escolhas da aula derivam de duas regras básicas:

  1. Regra da Soma (Marginalização): \(p(x) = \sum_{j} p(x, \mathcal{C}_j)\)
  2. Regra do Produto: \(p(x, \mathcal{C}_k) = p(x \mid \mathcal{C}_k)\,p(\mathcal{C}_k)\)

Os 4 objetos fundamentais

  • Conjunta \(p(x, \mathcal{C}_k)\): Probabilidade de observar \(x\) e pertencer à classe \(\mathcal{C}_k\).
  • Verossimilhança \(p(x \mid \mathcal{C}_k)\): Formato dos dados \(x\) dentro da classe \(\mathcal{C}_k\).
  • Priori \(p(\mathcal{C}_k)\): Prevalência da classe na população geral.
  • Evidência \(p(x)\): Densidade total de \(x\) ao longo de todas as classes (\(p(x) = \sum_j p(x \mid \mathcal{C}_j) p(\mathcal{C}_j)\)).

O Teorema de Bayes

Invertendo a regra do produto (\(p(x, \mathcal{C}_k) = p(\mathcal{C}_k \mid x)\,p(x)\)):

\[ \boxed{p(\mathcal{C}_k \mid x) = \frac{p(x \mid \mathcal{C}_k)\,p(\mathcal{C}_k)}{p(x)}} \]

\[\text{Posteriori} \;\propto\; \text{Verossimilhança} \;\times\; \text{Priori}\]

  • O denominador \(p(x)\) não depende de \(k\): Para comparar classes em um ponto \(x\) fixo, basta comparar as conjuntas \(p(x \mid \mathcal{C}_k)\,p(\mathcal{C}_k)\).
  • priori: \(\pi_k = p(\mathcal{C}_k)\)
  • condicional de classe: \(p(x \mid \mathcal{C}_k)\)
  • conjunta: \(p(x,\mathcal{C}_k) = p(x\mid\mathcal{C}_k)\,\pi_k\)
  • decidir pela conjunta maior \(=\) decidir pela posteriori maior

Pergunta

Por que a evidência \(p(x)\) pode ser ignorada ao comparar classes?

Dica: pense no que muda, e no que não muda, quando você troca de classe \(\mathcal{C}_k\) para \(\mathcal{C}_j\) na fórmula de Bayes.

  • □ Se a evidência \(p(x)\) dependesse de \(k\) (fosse calculada de forma diferente para cada classe), ainda seria válido comparar só as conjuntas \(p(x\mid\mathcal{C}_k)\,\pi_k\) para decidir a classe mais provável.
  • □ No limite em que uma classe tem priori zero (nunca ocorre na população), sua posteriori \(p(\mathcal{C}_k\mid x)\) é zero para qualquer \(x\), independentemente de quão bem \(x\) se pareça com a verossimilhança dessa classe.
  • □ Num sistema de recomendação que usa Bayes para prever se um usuário vai clicar num anúncio, a “priori” corresponde à taxa média de cliques da população, e a “verossimilhança” corresponde ao perfil de comportamento típico de quem clica — a mesma estrutura de quatro objetos, só que noutro domínio.
  • □ Como a evidência \(p(x)\) é “só um fator de normalização” na comparação entre classes, isso significa que ela não carrega nenhuma informação útil sobre os dados.

Resposta

Por que a evidência some da comparação — Resposta

  • ✗ Se \(p(x)\) dependesse de \(k\), comparar só as conjuntas deixaria de ser válido — é exatamente por ela não depender de \(k\) que dá para ignorá-la.
  • ✔ Priori zero \(\Rightarrow\) posteriori zero, não importa a verossimilhança.
  • ✔ Mesma estrutura (priori/verossimilhança/conjunta/posteriori), outro domínio.
  • \(p(x)\) não carrega informação para a comparação entre classes (por isso cancela), mas continua sendo a densidade marginal dos dados — informativa em outros usos, como a detecção de anomalias do Bloco 6.

Voltando à pergunta: \(p(x)\) some da comparação porque é a mesma para todas as classes num mesmo ponto \(x\) — não porque seja desprovida de significado.

O cruzamento das conjuntas funciona

Exemplo: triagem médica

Prevalência \(p(D) = 0{,}01\). Sensibilidade \(p(+\mid D) = 0{,}90\). Falso positivo \(p(+\mid\bar D) = 0{,}03\).

Teste positivo. Probabilidade de estar doente?

\[ p(D\mid+) = \frac{0{,}90 \times 0{,}01}{0{,}90\times0{,}01 + 0{,}03\times0{,}99} \approx \mathbf{0{,}233} \]

Em 10.000 pessoas: 90 verdadeiros positivos contra 297 falsos positivos.

Mesma lição do Passo 4, no caso discreto: a priori decide.

No exemplo da triagem médica, qual número é a priori? Qual é a verossimilhança? Qual é a evidência?

Escreva os três nomes ao lado dos três números do enunciado, e confira com um colega (2 min).

Teorema de Bayes: priori, verossimilhança e evidência

Dica

Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:

  • □ No limite em que a prevalência da doença tende a \(100\%\), a posteriori \(p(D\mid+)\) tende a \(1\), mesmo com uma taxa de falso positivo alta.
  • □ Se a evidência \(p(x)\) fosse calculada usando só a verossimilhança da classe do numerador (\(p(x\mid\mathcal{C}_k)\pi_k\)), sem somar as demais classes, a posteriori resultante ainda somaria \(1\) entre todas as classes.
  • □ Numa fábrica que testa peças com um sensor de defeitos, saber apenas a sensibilidade e a taxa de falso positivo do sensor é suficiente para calcular \(p(\text{defeito}\mid\text{alerta})\), mesmo sem saber a proporção real de peças defeituosas na linha.
  • □ Como a posteriori é proporcional ao produto entre verossimilhança e priori, dobrar a priori de uma classe sempre dobra sua posteriori final.

Teorema de Bayes: priori, verossimilhança e evidência — Resposta

Dica

  • ✔ Com prevalência quase total, o numerador (verdadeiros positivos) domina o denominador, não importa quão ruim seja o falso positivo.
  • ✗ Sem somar sobre todas as classes, o denominador se torna igual ao próprio numerador para aquela classe, e a “posteriori” viraria trivialmente \(1\) só para ela — quebrando a soma-\(1\) entre classes.
  • ✗ Sem a proporção real de defeituosas (a priori), o Teorema de Bayes não pode ser aplicado; sensibilidade e falso-positivo sozinhos não bastam.
  • ✗ Dobrar a priori de uma classe muda também o denominador (a evidência), que soma sobre todas as classes; a posteriori final geralmente aumenta por um fator menor que \(2\).

No exemplo da triagem médica, qual número é a priori? Qual é a verossimilhança? Qual é a evidência?

Dica

(Escreva os três nomes ao lado dos três números. Confira com um colega.)

Propriedades de Distribuições Contínuas

Densidade vs. Probabilidade

  • \(P(X = x) = 0\) para qualquer ponto isolado.
  • Probabilidade é a área sob a curva: \(P(a \le X \le b) = \int_a^b p(x)\,\mathrm{d}x\).
  • Densidade \(p(x)\) pode passar de \(1\) (ex: Uniforme em \([0, 0{,}01] \implies p(x) = 100\)).
  • Mudança de variável exige Jacobiano: \(p_Y(y) = p_X(x) \left|\frac{\mathrm{d}x}{\mathrm{d}y}\right|\).
    • Exemplo: \(X\) uniforme em \([0,2]\) (\(p_X=0{,}5\)), \(y=x^2\). Como \(\frac{\mathrm{d}x}{\mathrm{d}y}=\frac{1}{2\sqrt y}\): \(p_Y(y) = 0{,}5\times\frac{1}{2\sqrt y} = \frac{1}{4\sqrt y}\) — uma densidade constante virou uma curva que diverge perto de \(y=0\).
    • Consequência: a moda da densidade depende da parametrização! A decisão discreta \(\arg\max_k p(\mathcal{C}_k\mid x)\) não sofre disso.

Os Momentos da Distribuição

  • Média (\(\mu\)): Primeiro momento \(\mathbb{E}[X]\) — centro de massa.
  • Variância (\(\sigma^2\)): Segundo momento central \(\mathbb{E}[(X-\mu)^2]\) — dispersão.
  • Assimetria (Skewness): Terceiro momento padronizado \(\mathbb{E}\!\left[\left(\frac{X-\mu}{\sigma}\right)^3\right]\) — inclinação das caudas.
  • Curtose (Kurtosis): Quarto momento padronizado \(\mathbb{E}\!\left[\left(\frac{X-\mu}{\sigma}\right)^4\right] - 3\) — peso relativo das caudas.

O Comportamento de Cauda

O comportamento de \(p(x)\) quando \(|x| \to \infty\) define a sensibilidade a eventos extremos.

  • Caudas Leves (Decaimento Exponencial/Quadrático):
    • \(p(x) \sim \exp(-x^2)\) (Gaussiana) ou \(\exp(-|x|)\) (Laplace).
    • Valores a \(5\sigma\) são virtualmente impossíveis.
  • Caudas Pesadas (Decaimento Polinomial):
    • \(p(x) \sim x^{-\nu}\) (\(t\) de Student com \(\nu\) graus de liberdade).
    • Outliers têm probabilidade não desprezível.

Por que ajustar uma Gaussiana a escores de crédito normalizados em \([0,1]\) é, no mínimo, arriscado?

Escreva um argumento em uma frase, sem usar a palavra “feio” (2 min).

Por que ajustar uma Gaussiana a escores de crédito normalizados em \([0,1]\) é, no mínimo, arriscado?

Dica

(Uma frase, sem usar a palavra “feio”. Compare com um colega.)

Detecção de Outliers

Qual distribuição para dados em \([0,1]\)?

Dados em \([0,1]\): escores normalizados, taxas, proporções, probabilidades calibradas.

  • Gaussiana ajustada aí coloca massa fora do suporte
  • Limiar como quantil pode cair fora do domínio — e o código não reclama

O suporte do modelo é uma decisão de modelagem, não uma tecnicalidade.

\[ \operatorname{Beta}(x\mid a,b) = \frac{\Gamma(a+b)}{\Gamma(a)\Gamma(b)}\,x^{a-1}(1-x)^{b-1} \]

Ajustar a Beta

Momentos — forma fechada. Com média \(m\) e variância \(v\) amostrais, se \(v < m(1-m)\). Máxima verossimilhança — não tem forma fechada. Resolvida numericamente via scipy.stats.beta.fit. Não prometa uma fórmula que não existe.

Estatísticas suficientes da Beta são \(\sum_n\ln x_n\) e \(\sum_n\ln(1-x_n)\)médias logarítmicas, não a média aritmética. É por isso que momentos e MLE dão respostas diferentes.

Forma fechada e otimalidade são propriedades diferentes: momentos tem fórmula e não é eficiente; MLE é assintoticamente eficiente e não tem fórmula (mesma distinção volta nas Aulas 5 e 7).

Armadilha: zeros e uns exatos

  • Se \(a<1\) ou \(b<1\), a densidade diverge nas bordas
  • \(\ln 0 = -\infty\) quebra a verossimilhança
  • Dados reais em \([0,1]\) têm zeros exatos o tempo todo

Correções: clipping declarado, Smithson–Verkuilen (\(x' = (x(N-1)+1/2)/N\)), modelos zero/one-inflated.

Família também importa para robustez, não só suporte: o gradiente da log-verossimilhança da Gaussiana cresce linearmente com a distância e nunca satura; o da \(t\) de Student satura e vai a zero longe do centro — por isso \(t\) é o ajuste padrão quando se espera outliers no próprio ajuste (não confundir com detectar anomalias em pontos novos, tema do próximo bloco).

Aviso de leitura — PRML §2.1.1

O PRML introduz a Beta como priori conjugada sobre o parâmetro \(\mu\) de uma Bernoulli, não como densidade de dados observados. Aqui a Beta é modelo de observações contínuas em \([0,1]\) — mesma matemática, interpretação diferente. O DLFC não ajuda: não cobre a Beta em lugar nenhum.

A distribuição Beta

Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:

  • □ Quando \(a=b=1\) (a Beta se reduz à Uniforme\([0,1]\)), a moda da distribuição deixa de existir como um único ponto, já que a densidade é constante em todo o suporte.
  • □ Se, em vez do método de momentos, usássemos só a média amostral (sem a variância) para estimar \(a\) e \(b\), haveria informação suficiente para determinar os dois parâmetros de forma única.
  • □ Ao estimar a taxa de conversão de anúncios de uma campanha de marketing (um valor em \([0,1]\)), se todos os anúncios observados tiverem taxas estritamente entre \(1\%\) e \(99\%\), a armadilha de zeros/uns exatos não afeta esse ajuste, mesmo que \(a\) ou \(b\) estimados sejam menores que \(1\).
  • □ Como uma amostra maior deixa a estimativa de variância mais precisa, ela elimina completamente a chance de o estimador de momentos produzir uma estimativa de \(a\) ou \(b\) sem sentido (negativa).

A distribuição Beta — Resposta

Dica

  • ✔ Toda a Uniforme tem densidade constante; não há um único ponto de máximo, a moda não é bem definida.
  • ✗ Uma única equação (a média) não basta para dois parâmetros desconhecidos; o método precisa de pelo menos dois momentos (média e variância).
  • ✔ A armadilha é sobre observações exatamente iguais a \(0\) ou \(1\), não sobre o valor de \(a\) ou \(b\) em si; sem zeros/uns exatos nos dados, a verossimilhança continua bem definida e finita.
  • ✗ Mais dados reduzem a probabilidade de uma estimativa degenerada (é um argumento assintótico), mas não eliminam completamente o risco em nenhuma amostra finita.

Detecção de anomalias e o limiar

Sem anomalias rotuladas: ajustar \(p(x)\) só nos dados normais.

Região de exclusão: cauda \(\{x>t\}\) ou conjunto de nível \(\{x : p(x)<\lambda\}\).

\[ \text{Tipo I} = P(x>t) = 1 - I_t(a,b) \qquad\Longrightarrow\qquad t_\alpha = I^{-1}_{1-\alpha}(a,b) \]

O limiar é um quantil do modelo; \(\alpha\) vale por construção.

Com uma única densidade ajustada, o erro Tipo II não está definido.

  • Bloco 1: duas curvas \(\Rightarrow\) dois erros, duas áreas
  • Aqui: uma curva \(\Rightarrow\) só uma área existe
  • Não há modelo de anomalia \(\Rightarrow\) não há \(P(\text{escape})\)

Três saídas honestas

  1. Assumir um modelo de anomalia. Se uniforme: \[ \frac{q(x)}{p(x)} = \frac{1}{p(x)} \] \(\Rightarrow\) cortar na cauda já supõe anomalias uniformes. A suposição sempre esteve lá.
  2. Estimar com amostra contaminada rotulada — herda o viés de seleção
  3. Aceitar e declarar: reportar só o Tipo I, dizendo que é só o Tipo I

Pergunta

Das três saídas honestas para o Tipo II indefinido, alguma delas realmente “resolve” o problema?

Dica: pense no que cada saída entrega de fato — um número, ou uma suposição escondida atrás de um número.

  • □ Se existisse uma pequena amostra rotulada de anomalias (mesmo enviesada), a saída “estimar empiricamente” deixaria de herdar qualquer viés de seleção.
  • □ No limite em que o modelo de anomalia assumido \(q(x)\) fosse exatamente uniforme e a densidade normal ajustada \(p(x)\) também fosse uniforme, a razão de verossimilhanças \(q(x)/p(x)\) seria constante em todo o domínio, e nenhum limiar de razão discriminaria nada.
  • □ Um sistema de detecção de fraude que só tem transações legítimas rotuladas (nunca fraudulentas) sofre exatamente do mesmo problema: consegue calibrar a taxa de alarme falso, mas não tem como medir, sem alguma suposição extra, a taxa de fraudes que passariam sem detecção.
  • □ Como “aceitar e declarar” (a terceira saída) não estima o Tipo II, isso significa que essa opção é sempre cientificamente pior do que “assumir um modelo de anomalia” (a primeira saída).

Resposta

As três saídas honestas — Resposta

  • ✗ Uma amostra rotulada ainda herda o viés de como ela foi coletada — ter algum número não elimina o viés, só o torna calculável.
  • ✔ Duas uniformes \(\Rightarrow\) razão constante \(\Rightarrow\) nenhum limiar discrimina — o teste degenera.
  • ✔ Mesmo problema estrutural, outro domínio.
  • ✗ Assumir um modelo de anomalia ruim (ex.: uniforme quando anomalias se concentram) pode ser pior do que declarar honestamente que só o Tipo I é conhecido — nenhuma das três é universalmente melhor.

Voltando à pergunta: nenhuma “resolve” — as três só tornam explícito, de formas diferentes, o preço de não ter dados da segunda classe.

Teoria da Decisão: Custo, Avaliação e Rejeição

Voltamos às populações A e B dos Blocos 1–4. Até aqui, todo erro pesou o mesmo (perda 0-1).

Três perguntas que faltam:

  1. E se um erro custar mais que o outro?
  2. “95% de acurácia” é sempre uma boa notícia?
  3. Por que decidir sempre, mesmo quando os dados não dão certeza nenhuma?

Custo assimétrico: nem todo erro pesa o mesmo

Função de perda \(L(\text{decisão}, \text{verdade})\) — resume o prejuízo de cada erro.

\[ C_I \pi_A f_A(t) = C_{II}\, \pi_B f_B(t) \quad\Leftarrow\quad \text{corte ótimo} \]

\(C_I = C_{II}\) \(\Rightarrow\) recupera \(T_{CONJ}\) do Bloco 4. Perda 0-1 é o caso particular, não o caso geral.

Exemplo: escapar uma anomalia custa 10× mais que um alarme falso.

Pergunta

Existe uma razão de custos \(C_{II}/C_I\) que desfaz completamente o efeito da priori, recuperando o cruzamento ingênuo das condicionais?

Dica: escreva a equação do corte ponderado por custo e substitua \(C_{II}/C_I\) pela razão de prioris.

  • □ Se \(C_{II}/C_I\) fosse exatamente igual a \(\pi_A/\pi_B=19\), o corte ponderado por custo \(T_{custo}\) coincidiria exatamente com \(T_{COND}\), o cruzamento ingênuo das condicionais do Bloco 1.
  • □ No limite em que \(C_I\to 0\) (um alarme falso não tem custo nenhum) mantendo \(C_{II}\) positivo, o corte ótimo tenderia para o valor mínimo possível de \(x\) — soando o alarme quase sempre.
  • □ Numa triagem de câncer em que um exame negativo falso (deixar passar um câncer real) custa muito mais que um falso positivo (exame adicional desnecessário), a mesma lógica de ponderar as curvas por custos assimétricos se aplica, deslocando o corte na mesma direção (mais alarmes, menos escapes).
  • □ Como a perda 0-1 (\(C_I=C_{II}\)) é o caso mais simples de calcular, isso significa que ela é a escolha mais correta sempre que os custos reais dos dois erros não forem conhecidos com precisão.

Resposta

Custo assimétrico — Resposta

  • \(C_{II}/C_I=\pi_A/\pi_B\) cancela exatamente a ponderação pela priori, recuperando \(T_{COND}\).
  • \(C_I\to 0\): qualquer alarme falso “vale a pena” para evitar um escape que ainda custa algo — o corte migra para o extremo.
  • ✔ Mesma lógica, outro domínio.
  • ✗ Não conhecer os custos exatos não é evidência de que eles sejam iguais — é só incerteza; a perda 0-1 é uma suposição, “quase nunca por justificativa” (texto da aula), não uma escolha segura por omissão.

Voltando à pergunta: sim — quando o fator de custo cancela exatamente o fator de priori, as duas assimetrias se anulam e sobra só a assimetria das condicionais.

Além da acurácia: matriz de confusão, precisão e recall

Matriz de confusão — positivo = classe B (a rara):

previsto A previsto B
real A VN FP (alarme falso)
real B FN (escape) VP

\[ \text{precisão}=\frac{VP}{VP+FP} \qquad \text{recall}=\frac{VP}{VP+FN} \]

Paradoxo: com \(\pi_A=95\%\), um classificador que sempre diz “A” já acerta \(95\%\) — e nunca encontra uma anomalia.

Se a acurácia de 95,6% mal supera o classificador ingênuo, a fronteira ótima do Bloco 4 está errada?

Escreva sua resposta e compare com um colega antes de avançar (2 min).

Acurácia, desbalanceamento e o paradoxo da acurácia

Dica

Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:

  • □ Uma acurácia de \(95\%\) garante que o classificador é útil para detectar a classe rara.
  • □ No limite em que a prevalência da classe rara B tende a zero, a acurácia do classificador ingênuo “sempre A” tende a \(100\%\), mesmo que ele nunca detecte uma única instância de B.
  • □ Se o corte \(T_{CONJ}\) minimiza o erro esperado sob perda 0-1 e prioris corretas, ele necessariamente maximiza o recall também.
  • □ Precisão e recall podem, ambos, cair ao mesmo tempo que a acurácia sobe, quando as classes são muito desbalanceadas.

Acurácia, desbalanceamento e o paradoxo da acurácia — Resposta

Dica

  • ✗ Um classificador que sempre prevê a classe majoritária também tem acurácia alta e recall zero.
  • ✔ Com \(\pi_B\to 0\), o classificador “sempre A” erra cada vez menos em proporção, apesar de ter recall sempre igual a zero — o mesmo mecanismo do exemplo de \(99{,}9\%\) do DLFC.
  • \(T_{CONJ}\) minimiza o erro ponderado pela frequência das classes, não o recall; com \(\pi_B\) pequeno, isso tolera um recall baixo em troca de poucos alarmes falsos sobre a classe majoritária.
  • ✔ É exatamente o mecanismo do paradoxo: a classe majoritária domina a contagem de acertos.

A curva ROC: o mesmo sweep do Bloco 1, replotado

ROC = mesmo sweep de \(t\) do Bloco 1, replotado: FPR (eixo \(x\)) vs. recall (eixo \(y\)).

Diagonal = acaso (AUC \(=0{,}5\)). Separação perfeita = AUC \(=1{,}0\).

Propriedade: a curva ROC não depende da priori — só das condicionais \(f_A,f_B\). A priori move o ponto de operação, não a curva.

Pergunta

A AUC é alta (\({\approx}0{,}94\)). Isso já diz qual limiar \(t\) usar?

Dica: separe o que a curva ROC descreve (o que é possível) do que ela não escolhe por você.

  • □ Se as prioris \(\pi_A,\pi_B\) mudassem (por exemplo, a prevalência real da anomalia dobrasse), a curva ROC em si mudaria de formato, ainda que os pontos \(T_{CONJ}\) e \(T_{custo}\) sobre ela se deslocassem.
  • □ No limite em que a AUC é exatamente \(0{,}5\), a curva ROC coincide com a diagonal, e nenhuma escolha de limiar \(t\) consegue produzir um classificador melhor do que decidir por sorteio.
  • □ Comparar dois modelos de crédito diferentes (dois conjuntos de atributos, por exemplo) pela AUC de suas curvas ROC é uma forma válida de avaliar qual discrimina melhor bons e maus pagadores, sem precisar já ter decidido o custo relativo de aprovar um mau pagador vs. rejeitar um bom.
  • □ Como a AUC de \(0{,}94\) já indica que as duas classes são bem separáveis, isso significa que o ponto de operação \(T_{CONJ}\) (que considera só a priori, não o custo) já é a melhor escolha possível sobre a curva.

Resposta

A ROC não escolhe o limiar por você — Resposta

  • ✗ A curva ROC não depende da priori — só as condicionais \(f_A,f_B\) a definem; mudar a prevalência move o ponto de operação sobre a curva, não a curva em si.
  • ✔ AUC \(=0{,}5\): curva na diagonal, nenhum limiar discrimina melhor que o acaso.
  • ✔ AUC compara discriminabilidade sem comprometer nenhum custo.
  • ✗ AUC alta diz que a separação é boa; não diz onde cortar — isso ainda depende do custo relativo dos dois erros.

Voltando à pergunta: não. A AUC descreve o que é possível ao longo de toda a curva; onde cortar é uma decisão de custo, feita no bloco anterior.

Opção de rejeição: quando não decidir é a decisão certa

Toda regra até aqui decide sempre — mesmo onde a posteriori está quase empatada.

Regra de Chow: rejeite quando \(\max_k p(\mathcal{C}_k\mid x) < \theta\).

Define uma faixa de indecisão, não mais um ponto de corte.

Só compensa se o custo da revisão humana for menor que o custo esperado do erro evitado.

Pergunta

A opção de rejeição está sempre matematicamente disponível — mas ela deveria sempre ser usada?

Dica: pense no que acontece com a faixa de rejeição nos dois extremos de \(\theta\).

  • □ Se \(\theta\) fosse exatamente \(0{,}5\) em vez de estar em \((0{,}5, 1]\), a faixa de rejeição definida pela regra de Chow encolheria até desaparecer (largura zero).
  • □ No limite em que \(\theta\to 1\), a faixa de rejeição cresce até cobrir todo o domínio — a regra rejeitaria (encaminharia para revisão humana) qualquer ponto, mesmo aqueles com posteriori bem próxima de \(1\).
  • □ Num sistema de triagem automática de currículos que encaminha para revisão humana os casos “na dúvida” e decide automaticamente os demais, o mesmo raciocínio de custo (rejeitar só compensa se a revisão custar menos que o erro esperado evitado) se aplica, mesmo sendo um domínio bem diferente de diagnóstico médico.
  • □ Como a opção de rejeição está sempre disponível matematicamente (basta escolher um \(\theta\)), usá-la é sempre uma melhoria em relação a decidir sempre, para qualquer \(\theta\) escolhido.

Resposta

Rejeitar está disponível — mas nem sempre compensa — Resposta

  • \(\theta=0{,}5\): como \(\max_k p(\mathcal{C}_k\mid x)\ge 0{,}5\) sempre (duas classes somam 1), nada nunca é rejeitado — faixa nula.
  • \(\theta\to 1\): exige quase certeza total — quase tudo vira rejeição.
  • ✔ Mesmo raciocínio de custo, outro domínio.
  • ✗ Disponibilidade não é garantia de benefício — “a opção de rejeição, embora disponível, nunca deveria ser usada” quando o custo da revisão supera o custo esperado do erro evitado.

Voltando à pergunta: não — rejeitar só compensa quando a conta de custo (revisão vs. erro evitado) favorece a rejeição; disponibilidade matemática não é justificativa.

O que aprendemos sobre teoria da decisão

  1. Custo assimétrico desloca onde cortar
  2. Matriz de confusão / precisão / recall avaliam um corte além da acurácia
  3. ROC compara todos os cortes de uma vez, sem se comprometer com um custo
  4. Rejeição — uma terceira ação, para quando nenhum corte é confiável

Conclusão

O que aprendemos

  1. Distribuição é o formato dos dados no espaço
  2. Classificar é comparar formatos ponderados pela frequência das classes
  3. O limiar é uma decisão, com custo explícito

E o ponto negativo: com uma densidade, só o Tipo I é calculável.

Proxima Aula: Tudo isto usou uma variável. Com \(d\) variáveis:

\[ p(x\mid\mathcal{C}_k) \in \mathbb{R}^d \;\longrightarrow\; M^d \text{ células} \]

Naive Bayes — a primeira suposição estrutural do curso:

\[ p(x\mid\mathcal{C}_k) = \prod_{i=1}^d p(x_i\mid\mathcal{C}_k) \]

O preço dessa suposição é o assunto da próxima aula.