Aula 2: O Que é Ética, e o Ciclo Ético

Computação e Sociedade

Marcos M. Raimundo — Instituto de Computação, UNICAMP

2026-08-30

Highway Safety — um caso sem resposta óbvia

O Caso: Highway Safety

David Weber, 23 anos, engenheiro civil de segurança viária, tem $50.000 não comprometidos e precisa escolher um único projeto de segurança para recomendar ao distrito.


🏙️ Cruzamento A (urbano)

20.000 veículos/dia na via principal

2 fatalidades/ano 6 feridos/ano

(médias de 3 anos)

🌾 Cruzamento B (rural)

5.000 veículos/dia na via principal

1 fatalidade/ano 2 feridos/ano

(médias de 3 anos)


As duas melhorias propostas (instalar novos semáforos) custam exatamente o mesmo: $50.000. Não há orçamento para fazer as duas — David precisa escolher uma só.

Importante

A pergunta do livro: qual cruzamento David deveria recomendar — e qual é a justificativa para essa recomendação?

Por que essa pergunta não tem resposta técnica

Os números por si só não decidem: o Cruzamento A tem mais mortes em números absolutos (2 vs. 1 por ano); mas o Cruzamento B tem menos tráfego (5.000 vs. 20.000 veículos/dia), então o risco por veículo que passa é maior lá — quase o dobro, como veremos com números exatos no Bloco 4.


Aviso

Também não é questão de gosto pessoal ou de “achismo”. Precisamos de um raciocínio moral argumentável — que possa ser defendido e questionado por outra pessoa, com critérios explícitos.


O plano de hoje, em três etapas:

  1. Quatro teorias éticas normativas — e como a profundidade da análise pode inverter a conclusão de cada uma, sozinha, antes mesmo de comparar teorias diferentes entre si.
  2. O Ciclo Ético — um método de cinco fases para aplicar essas teorias a um caso concreto, sabendo quando voltar a uma fase anterior.
  3. Voltar a este caso exato, aplicando as duas ferramentas construídas nos Blocos 2 e 3.

Pergunta provocadora — o que faz do caso Highway Safety um problema moral?

Os dados de tráfego e acidentes de David não “decidem” por si só qual cruzamento escolher — mas isso não faz da escolha uma questão de gosto pessoal. O que, exatamente, transforma “qual cruzamento reformar” numa pergunta que precisa de raciocínio moral argumentável, e não só de uma tabela de números?

Dica: pense no que mudaria se os dois cruzamentos tivessem exatamente os mesmos números — a decisão deixaria de envolver valores em conflito, ou só deixaria de ser numericamente ambígua?

  • □ Se os dois cruzamentos tivessem exatamente o mesmo número de acidentes por veículo e o mesmo número absoluto de mortes, a escolha entre A e B deixaria de ser uma questão moral e se tornaria puramente administrativa (por exemplo, qual obra é mais barata de manter).
  • □ Se o Cruzamento B tivesse exatamente risco zero por veículo (ninguém nunca se machucasse lá, independentemente do tráfego), a tensão entre “reduzir mais vidas em números absolutos” (Cruzamento A) e “reduzir o risco relativo mais alto por veículo” (Cruzamento B) desapareceria, e a recomendação utilitarista e a recomendação baseada em justiça convergiriam para a mesma escolha.
  • □ O mesmo tipo de tensão do caso Highway Safety (total de vidas salvas vs. risco por unidade exposta) apareceria de forma estruturalmente análoga se um hospital tivesse que escolher entre expandir a UTI que atende mais pacientes no total ou a que atende proporcionalmente mais pacientes de alto risco.
  • □ Como o cálculo dos dados de tráfego não decide sozinho qual cruzamento escolher, a decisão de David é, no fundo, uma questão de preferência pessoal, sem nenhum critério objetivamente melhor que outro.

V/F — Highway Safety: Resposta

Dica

  • ✗ Mesmo com números idênticos, gastar fundo público em segurança viária continua implicando valores em jogo (utilidade pública, justiça) — a dimensão moral não é criada pela ambiguidade numérica específica.
  • ✔ Sem risco algum em B, não haveria mais ninguém exposto ao risco desigual que justificaria escolher B por equidade — as duas lentes coincidiriam em A.
  • ✔ É a mesma estrutura de tensão (total agregado vs. risco por unidade exposta), só transposta de domínio.
  • ✗ Falso — não é “os dados decidem” ou “é gosto pessoal”: existe um terceiro caminho, o raciocínio moral estruturado e argumentável que esta aula constrói.

Retomando: a pergunta do caso tem duas partes — qual cruzamento, e por quê. A segunda parte exige ferramentas que ainda não construímos. Vamos construí-las nos próximos dois blocos.

Teorias Éticas Normativas

Pergunta provocadora — por que a mesma teoria discordou de si mesma três vezes?

No caso Ford Pinto, três formulações utilitaristas diferentes (o cálculo de ato raso da própria Ford, a correção pelo princípio de liberdade de Mill, o utilitarismo de regra) chegaram a três conclusões: não recolher, recolher, e recolher-e-obrigada. Nenhuma delas trocou de teoria. O que, exatamente, mudou entre uma formulação e a outra?

Dica: pense em qual pergunta cada formulação está, de fato, respondendo — “qual ato isolado maximiza o prazer agora?” não é a mesma pergunta que “qual regra geral maximiza o prazer no longo prazo?”.

  • □ Se a Ford tivesse aplicado, desde o início, um utilitarismo de regra em vez do cálculo de ato raso, a análise de custo-benefício que ela apresentou publicamente teria produzido a mesma recomendação de não recolher o carro.
  • □ Se a utilidade marginal decrescente do dinheiro fosse exatamente zero (um real vale exatamente o mesmo para qualquer pessoa, rica ou pobre), a resposta de Hare à crítica de Rawls sobre justiça distributiva perderia sua base, e o cálculo utilitarista puro não teria nenhuma tendência interna a favorecer distribuições mais igualitárias.
  • □ O mesmo padrão do caso Ford Pinto — um cálculo de ato raso e um cálculo de utilitarismo de regra, aplicados ao mesmo fato, gerando conclusões opostas — se aplicaria, em princípio, a uma empresa de software decidindo se corrige uma vulnerabilidade de segurança barata de explorar, mas presente em milhões de dispositivos.
  • □ Como Mill acrescenta o princípio de liberdade para proteger minorias, isso significa que, a partir de Mill, o utilitarismo deixou de ser uma teoria consequencialista e passou a ser equivalente à teoria kantiana quanto à proteção do indivíduo.

V/F — Por Que a Mesma Teoria Discordou de Si Mesma: Resposta

Dica

  • ✗ O utilitarismo de regra é exatamente o que reverte essa conclusão — a regra geral maximiza felicidade mesmo quando o ato isolado parecia mais vantajoso no cálculo raso.
  • ✔ Sem utilidade marginal decrescente, o mecanismo que empurra o cálculo para menos desigualdade “de graça” desaparece.
  • ✔ Mesma estrutura de argumento (ato vs. regra), outro domínio técnico.
  • ✗ O princípio de liberdade continua sendo um mecanismo pensado dentro do cálculo hedonista — não introduz o fundamento kantiano de tratar pessoas como fins em si mesmas.

Retomando: o que muda entre as três formulações é a pergunta que cada uma responde, não a teoria. Profundidade já basta para inverter a conclusão.

Pergunta provocadora — a rigidez de Kant é uma falha da teoria, ou de quem a aplica sem pluralismo?

Kant não admite exceção nenhuma às suas normas — nem para o assassino à porta. Ross responde sem abandonar as normas, só admitindo que uma norma prima facie pode ser superada por outra mais fundamental, na situação concreta. Isso resolve o problema, ou só o adia?

Dica: pense no que exatamente Ross muda — ele elimina o dever de dizer a verdade, ou só admite que outro dever pode pesar mais nesta situação específica?

  • □ Se Kant tivesse aceitado a distinção de Ross entre normas prima facie e normas auto-evidentes, o dilema do assassino à porta deixaria de ser um problema para a ética kantiana, porque mentir para salvar o amigo poderia ser justificado como o dever mais fundamental na situação, superando o dever prima facie de dizer a verdade.
  • □ No limite em que uma máxima é formulada de forma extremamente genérica e abstrata (por exemplo, “agir de acordo com uma política de custo-benefício”), o teste de universalidade do imperativo categórico deixa de conseguir, por si só, distinguir uma ação moralmente aceitável de uma inaceitável.
  • □ A mesma lógica usada para mostrar que a Ford tratou os consumidores como meros meios (ao não informar sobre o defeito, minando a capacidade racional deles de decidir) se aplicaria a uma empresa de tecnologia que engana usuários sobre como seus dados são usados através de um termo de uso deliberadamente obscuro, mesmo que nenhum dano físico ocorra.
  • □ Como tanto Kant quanto Ross concordam que existem deveres morais, a diferença entre suas posições é apenas terminológica — Ross só deu um nome novo (prima facie) para as mesmas exceções que Kant já permitiria caso a caso.

V/F — A Rigidez de Kant: Resposta

Dica

  • ✔ É exatamente o que a distinção de Ross faz — vocabulário preciso para dizer que ali, mentir é o dever mais profundo.
  • ✔ É o “problema da formulação da máxima” — máximas rasas escapam do teste mesmo cobrindo ações problemáticas.
  • ✔ Mecanismo idêntico — enganar a racionalidade negando informação —, não a presença de dano físico.
  • ✗ A diferença é estrutural: Kant não permite nenhuma exceção; Ross permite superação caso a caso. Isso muda o que a teoria prescreve.

Retomando: Ross não elimina o dever de dizer a verdade — mostra que, nesta situação, outro dever pesa mais. Ajuste pluralista, não abandono.

Pergunta provocadora — virtude, ou imitação de virtude?

LeMessurier foi louvado por coragem e abertura à crítica. Kant, por sua vez, usa o “psicopata frio” para mostrar que autocontrole e firmeza também podem tornar alguém mais perigoso, não menos. O que distingue uma virtude genuína de um traço de caráter que só imita uma virtude na superfície?

Dica: pense no que LeMessurier fez com a informação que recebeu — não só que traço de personalidade ele demonstrou, mas a serviço de quê esse traço estava.

  • □ Se LeMessurier tivesse decidido não investigar a dúvida do estudante, por avaliar que já havia seguido todos os testes padrão exigidos por norma técnica, isso teria sido uma violação de uma regra profissional explícita — o mesmo tipo de violação que a reciprocidade kantiana identificou no caso Ford Pinto.
  • □ No limite em que uma pessoa tem coragem e autocontrole extremos, mas nenhuma preocupação genuína com o bem-estar de outros (o “psicopata frio” citado no livro), essas qualidades deixam de funcionar como virtudes morais e passam a funcionar como instrumentos que tornam a pessoa mais eficaz em causar dano.
  • □ A lista de virtudes profissionais de Pritchard (perícia técnica, abertura à crítica, disposição para fazer concessões, etc.) se aplicaria, com adaptações mínimas de vocabulário, a um cientista de dados avaliando se um modelo preditivo está pronto para produção, mesmo fora do contexto de engenharia civil em que o livro a apresenta.
  • □ Como a ética das virtudes, segundo a crítica de Frankena, “não dá pistas concretas sobre como agir”, isso significa que ela é inútil para avaliar decisões de engenharia, e só o utilitarismo e o kantismo (que geram uma resposta) deveriam ser usados na prática profissional.

V/F — Virtude ou Imitação: Resposta

Dica

  • ✗ Não investigar não violaria regra nenhuma — o ponto do caso é o oposto: LeMessurier foi além de qualquer obrigação formal.
  • ✔ É a crítica de Kant citada no livro — as mesmas qualidades, na mão errada, tornam alguém mais perigoso, não menos.
  • ✔ Perícia técnica e abertura à crítica transferem bem para outros domínios técnicos.
  • ✗ O caso LeMessurier mostra o contrário: nem utilitarismo nem kantismo capturam, sozinhos, por que ouvir a crítica de um estudante é louvável. Falta de prescrição não é inutilidade.

Retomando: o que distingue virtude de imitação é a serviço de quê o traço está sendo usado — exige sabedoria prática, não fórmula.

Pergunta provocadora — a relação basta sem proximidade emocional?

A ética do cuidado nasceu prestando atenção a relações concretas — pai e filho, médico e paciente. O livro aplica essa mesma teoria à Ford e a milhões de consumidores anônimos, sem nenhum laço pessoal entre eles. O que sustenta essa extensão — a teoria não deveria, a rigor, parar nas relações onde há de fato proximidade emocional?

Dica: releia o critério que o livro usa para atribuir o dever de cuidado à Ford — é proximidade emocional, ou é outra coisa?

  • □ Se os consumidores do Ford Pinto tivessem acesso técnico equivalente ao da própria Ford para avaliar a segurança do carro por conta própria, sem depender das informações que a fabricante fornecia, o argumento da ética do cuidado que responsabiliza a Ford pela vulnerabilidade assimétrica dos consumidores perderia sua base central.
  • □ No limite em que duas partes têm exatamente o mesmo poder, conhecimento e capacidade de proteger seus próprios interesses (nenhuma assimetria em nenhuma direção), a ética do cuidado, como apresentada nesta aula, não teria uma base distintiva para atribuir um dever especial de cuidado de uma parte para a outra.
  • □ O mesmo raciocínio usado para dizer que a Ford tinha um dever de cuidado com consumidores anônimos (dependência assimétrica de informação, mesmo sem proximidade emocional) se aplicaria a uma plataforma digital que coleta dados de milhões de usuários que não entendem tecnicamente como esses dados são processados.
  • □ Como a crítica de vagueza aponta que a ética do cuidado “não dá indicações concretas de como agir”, e essa é a mesma crítica feita à ética das virtudes, isso significa que essas duas teorias são, na prática, a mesma teoria com nomes diferentes.

V/F — A Relação Basta Sem Proximidade Emocional: Resposta

Dica

  • ✔ O argumento depende precisamente da assimetria de informação — removê-la remove a base específica do dever de cuidado.
  • ✔ Sem assimetria em nenhuma direção, o mecanismo central da teoria não tem sobre o que se apoiar.
  • ✔ É a mesma transferência de mecanismo — dependência assimétrica, não proximidade — para um domínio digital.
  • ✗ Compartilhar uma crítica não torna duas teorias idênticas: a ética do cuidado parte da relação concreta/assimétrica; a ética das virtudes parte do caráter de quem age — pontos de partida diferentes.

Retomando: a proximidade emocional não é o critério — a dependência assimétrica é. É por isso que a teoria se estende a relações impessoais.

Três Pontos de Partida — e uma Quarta Teoria

Van de Poel & Royakkers organizam as teorias éticas por onde colocam o ponto de partida do julgamento moral:

Ator Ação Consequências
Teoria Ética das virtudes Deontologia Utilitarismo
Ponto de partida Virtudes Normas Valores

Hoje veremos as quatro com o mesmo peso — inclusive uma quarta, a ética do cuidado, tratada a fundo no fim do bloco. E em cada uma delas, o fio condutor é sempre o mesmo: a profundidade da análise pode inverter a conclusão, mesmo sem trocar de teoria.

Utilitarismo: Hedonismo e o Princípio da Utilidade

Bentham — hedonismo: prazer e dor são os “senhores soberanos” do ser humano — o único critério do bem e do mal.


O princípio da utilidade:

“A maior felicidade para o maior número de membros da comunidade. […] A ação com o melhor resultado (a maior utilidade) é a que deve ser preferida.”


O balanço moral: soma-se prazeres e dores esperados de cada ação (ponderados por intensidade, duração, certeza) — a mesma lógica, hoje, de toda análise de custo-benefício.

Mill Corrige Bentham — em Dois Pontos Distintos

1. Nem todo prazer vale o mesmo (prazeres qualitativos)

“É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito.”

Desejos “superiores” (intelectuais) > desejos “inferiores” (físicos) — mesmo com menos quantidade de prazer.


2. O princípio de liberdade (protege minorias)

“Cada pessoa é livre para buscar seu próprio prazer, contanto que isso não negue nem impeça o prazer de outras pessoas.”

Corrige o problema de Bentham: nada, no cálculo puro, protegia o indivíduo contra o interesse da maioria.

Utilitarismo: as Quatro Críticas Clássicas

1. Imprevisibilidade — consequências raramente são certas; “consequências esperadas” só formaliza a incerteza, não a elimina.

2. Justiça distributiva (Rawls) — a soma pode estar certa; a distribuição, injusta. O utilitarismo “não reconhece a separação fundamental entre as pessoas”.

Resposta parcial (Hare): utilidade marginal decrescente já empurra o cálculo para menos desigualdade, sozinha.

3. Ignora relações pessoais — o dilema do naufrágio (salvar o amigo ou o cirurgião famoso): o utilitarismo manda salvar quem é “mais útil”, ignorando quem especificamente é feliz.

4. Fins justificam meios — até direitos humanos fundamentais podem ser quebrados se o resultado agregado for melhor.

Resposta parcial: utilitarismo de regras — julga a regra geral, não o ato isolado.

Ford Pinto: Três Cálculos, Três Conclusões

1. Ford (ato-utilitarista raso):

“O custo social total de reformar todos os carros era maior do que o custo social dos acidentes esperados.”

não recolher


2. Princípio de liberdade (Mill):

“Segundo esse princípio, a Ford deveria ter recolhido e reparado o carro.”

recolher


3. Utilitarismo de regra:

“A Ford estava eticamente obrigada a recolher o carro — exigido por regras das quais toda a sociedade se beneficiaria no longo prazo.”

recolher, e obrigada


Aviso

Mesma família de teoria, mesmo caso, três conclusões. O problema nunca foi “utilitarismo” — foi a profundidade (e a conveniência) do cálculo que a Ford escolheu.

Teoria Kantiana: Três Ideias, em Ordem

1. Autonomia: ser moral não é obedecer regras externas — é a própria pessoa, pela razão, determinando o que é certo e se obrigando por dever (não por conveniência ou medo de punição).


2. Norma hipotética vs. categórica

“Uma norma hipotética costuma ter a forma: ‘se você quer X, faça Y.’”

Uma norma categórica não depende de nenhum objetivo escolhido — vale incondicionalmente, para qualquer pessoa.


3. O imperativo categórico — o único princípio racional supremo, do qual tudo deriva. Duas formulações equivalentes, a seguir.

1ª Formulação: Universalidade

“Aja apenas segundo a máxima pela qual você possa, ao mesmo tempo, querer que ela se torne uma lei universal.”


Exemplo simples: quebrar uma promessa

Máxima: “posso quebrar minhas promessas quando for conveniente.”

Se todo mundo agisse assim, ninguém mais confiaria em promessa nenhuma — a própria prática de prometer desapareceria. A máxima se autodestrói quando universalizada.


Não é sobre consequências ruins — é uma contradição lógica: a ação só é possível porque a maioria das pessoas NÃO age assim.

2ª Formulação: Reciprocidade

“Aja de modo a tratar a humanidade, seja na sua própria pessoa, seja na de qualquer outro, sempre também como um fim, nunca meramente como um meio.”


Exemplo simples: o empréstimo desonesto

Pedir dinheiro emprestado prometendo pagar, sabendo que não vai pagar — a pessoa não teria emprestado se soubesse a verdade.

“Estou usando a racionalidade dela como um meio para atingir meu próprio objetivo.”


Dica

O problema não é usar serviços de alguém (normal) — é negar a informação que a pessoa precisaria para decidir racionalmente por si mesma.

O Problema da Formulação da Máxima

Máxima rasa (favorável a Ford)

“Empresas podem decidir não corrigir um defeito quando o custo supera um limiar atuarial.” — parece universalizável.


Máxima honesta e específica (o livro)

“A Ford vai comercializar o Ford Pinto, sabendo que o carro é inseguro, sem informar os consumidores.” — ninguém confiaria em comprar um carro.


Nota

Síntese própria, não do livro-base: a teoria não decide, por si só, o quão específica a máxima deve ser.

Ford Pinto Pela Lente Kantiana

Universalidade: se todo fabricante vendesse carros inseguros sem avisar, ninguém confiaria em comprar carro nenhum — a máxima não pode ser universalizada.


Reciprocidade: ao não informar os consumidores, Ford os usou como meio para seu lucro, não como fins racionais capazes de decidir — o mesmo mecanismo do exemplo do empréstimo desonesto.


Nota

Note: o kantiano nem precisa calcular custo-benefício. A falha está em não informar.

Quando a Norma Parece Clara Demais: Rigidez

Kant, em ensaio próprio (1797, Sobre um Suposto Direito de Mentir por Filantropia): mentir é errado mesmo para um assassino perguntando onde está seu amigo.


Nota de precisão

Não vem de Van de Poel & Royakkers — conhecimento geral sobre a obra do próprio Kant.


Aviso

“Kant não permite nenhuma exceção em sua teoria.” — a maioria sente que mentir ali é obviamente certo. Isso revela o problema da rigidez.

A Saída de Ross: Normas Prima Facie

Prima facie (latim: “à primeira vista”) — dois níveis do bem:

“O que parece ser bom à primeira vista, e aquilo que é bom depois de levarmos tudo em consideração.”


Exemplo do livro: provas de alunos vs. amigo

Prometer corrigir provas até sexta vs. ajudar um amigo em apuros — ambas são normas prima facie, mas só “ajudar seu amigo é uma norma auto-evidente”.


Ross não descarta a promessa — ele mostra que, nesta situação, um dever pesa mais que o outro. Muda a situação, pode inverter.

Ética das Virtudes: o Caráter de Quem Age

“A ética das virtudes foca na natureza da pessoa que age […] quais características boas ou desejáveis as pessoas deveriam ter.”


Aristóteles — eudaimonia, a vida boa

“A vida boa é uma vida ativa, em conformidade com as virtudes necessárias para realizar o potencial exclusivamente humano de cada um.”


O meio-termo (exemplo: coragem)

Covardia ⟵ Coragem ⟶ Imprudência


Não há fórmula fixa — exige sabedoria prática para achar o meio-termo em cada situação.

Profundidade Aqui é Outra Coisa: Virtude ou Imitação?

Crítica (Frankena)

Não dá instrução concreta de como agir num caso.

Crítica (Kant)

Um “psicopata frio” pode ter autocontrole e firmeza — virtudes na mão errada tornam alguém mais perigoso.


Rotular uma ação de “corajosa” é fácil. Saber se o traço está a serviço do quê exige sabedoria prática, não uma fórmula.

Virtudes de Engenharia (Pritchard) e o Caso LeMessurier

Perícia técnica, comunicação clara, cooperação, objetividade, abertura à crítica, resistência, criatividade, busca pela qualidade, rigor no relato do trabalho.


Citicorp Center (1977): contratantes trocam solda por parafusos sem avisar o engenheiro-projetista. Um ano depois, um estudante liga com uma dúvida. LeMessurier não descarta — testa de novo, e descobre que o prédio pode cair numa tempestade de 16 anos.


Dica

Ele avisa advogados, seguradoras e a prefeitura voluntariamente, arriscando a própria reputação — “foi preciso muita coragem […] abertura à crítica.”

Ética do Cuidado: da Norma à Relação

“As pessoas aprendem normas e valores dentro de contextos específicos, ao encontrar pessoas concretas com emoções.”

— inspirada em Carol Gilligan


Relações especiais (filhos, amigos — mas também empresas com empregados, fornecedores, vizinhos) geram obrigações especiais, que não podem ser derivadas de um princípio geral único.


Assimetria é central: pai-filho, empregador-empregado, médico-paciente — a vulnerabilidade de um lado gera dever de cuidado no outro. O que fazer não pode ser fixado de antemão por regra — depende do contexto.

Crítica: Vaga Demais?

“Não fica claro o que ‘cuidado’ exatamente significa […] não dá indicações concretas de como agir numa situação específica, em contraste com o utilitarismo ou a ética kantiana.”


Mesma crítica de Frankena à ética das virtudes, agora aplicada aqui: bonita em teoria, pouco prescritiva na prática.

Ford Pinto, pela Terceira Vez

Leitura rasa

“Ford não tem relação pessoal com milhões de compradores anônimos — ética do cuidado não se aplica.”


O livro discorda

“Essa relação era assimétrica, já que os consumidores […] dependiam da informação que a Ford fornecia. A Ford deveria reconhecer essa vulnerabilidade […].”


Dependência assimétrica basta — não precisa de proximidade emocional. Três teorias, três exames do mesmo caso, o mesmo padrão de reversão de uma leitura rasa para uma mais cuidadosa.

Aplicação em Engenharia: Normas de Engajamento (Devon)

Competência, conhecimento interdisciplinar, fluxos de informação democráticos, times democráticos, orientação a serviço, diversidade, cooperatividade, criatividade, gestão de projeto.


Nota

Desloca a responsabilidade moral do indivíduo isolado para o arranjo social em que a engenharia acontece.

Nenhuma Teoria Decide Por Você

“Mesmo que usar uma ou mais das teorias não garanta tomar a decisão certa, uma decisão moral que simplesmente ignora as teorias éticas […] é geralmente claramente antiética.”

— Van de Poel & Royakkers (2011, p. 107)


O Ciclo Ético Como Método

Pergunta provocadora — quando um binário é real, e quando é um sintoma de pressa?

A estratégia preto-no-branco (só duas opções) não é sempre errada — às vezes o problema é mesmo binário. O que, na prática, diferencia um binário genuíno de um binário que só existe porque ninguém consultou os outros interessados antes de fechar a lista de opções?

Dica: pense no que a estratégia de cooperação fez no caso Gilbane Gold — ela não criou opções do nada, ela revelou opções que já existiam, mas que a formulação original escondia.

  • □ Se, na Fase 2 do caso Gilbane Gold, não houvesse nenhum fato incerto ou disputado (por exemplo, se já se soubesse com certeza absoluta se a estação de tratamento da cidade suportaria o aumento de arsênio e chumbo), a recomendação do livro de formular decisões de forma hipotética (“se x, opção A; se y, opção B”) deixaria de ser necessária nesta fase.
  • □ No limite em que só existissem duas opções logicamente possíveis para resolver um problema, sem nenhuma alternativa intermediária concebível, a crítica do livro à estratégia preto-no-branco (de que ela é simplista demais) deixaria de se aplicar, porque nesse caso o binário não seria uma simplificação, mas a estrutura real do problema.
  • □ A recomendação do livro de expandir as opções através da estratégia de cooperação (consultar outros interessados antes de decidir) se aplicaria, com a mesma lógica, a um gerente de produto decidindo sozinho, sem consultar a equipe de suporte ou os usuários afetados, se deve remover uma funcionalidade antiga de um aplicativo.
  • □ Como a denúncia pública (whistle-blowing) é descrita no livro como uma estratégia de último recurso por seu alto custo, isso significa que ela nunca deveria ser considerada uma opção de ação legítima na Fase 3 do Ciclo Ético, mesmo depois de esgotadas as outras estratégias.

V/F — Binário Real ou Sintoma de Pressa: Resposta

Dica

  • ✔ Sem incerteza, a técnica de formular hipoteticamente perde seu propósito específico nesta fase.
  • ✔ Se de fato não há alternativa concebível, o binário é a estrutura real do problema, não uma simplificação.
  • ✔ Mesma lógica de “consultar antes de fechar a lista de opções”, outro domínio.
  • ✗ Último recurso ≠ ilegítimo — disponível, porém custosa, apropriada depois de esgotadas as estratégias de cooperação.

Retomando: um binário é sintoma de pressa quando existem interessados ou opções não consultados; é real quando, mesmo depois de consultar, não há alternativa.

Pergunta provocadora — voltar de fase é falha, ou é o método funcionando?

Duas das três setas de retorno (Fase 3→1, Fase 4→2) são reconstruções nossas; só a Seta 2 (Fase 4→1) é uma afirmação literal do livro. Ainda assim, todas nascem do mesmo mecanismo: uma fase posterior revela algo que uma fase anterior não via. Isso é sinal de que a análise anterior foi malfeita, ou é exatamente o que um método iterativo deveria fazer?

Dica: pense no que aconteceria se alguém seguisse as cinco fases em ordem estrita, sem nunca voltar — isso garantiria, por si só, uma análise melhor?

  • □ Se as duas perguntas de reflexão da Fase 5 (“o framework sustenta minha intuição?” e “ele captura os aspectos moralmente relevantes?”) sempre tivessem a mesma resposta (“sim”) para qualquer framework aplicado a qualquer caso, o método do equilíbrio reflexivo amplo deixaria de conseguir distinguir frameworks mais adequados de menos adequados para um caso específico.
  • □ No limite em que uma pessoa nunca tivesse nenhum julgamento moral ponderado prévio sobre nenhum caso (nenhuma intuição prévia sobre nada), o método do equilíbrio reflexivo amplo, como descrito na aula, perderia um dos três tipos de crença moral que ele busca tornar coerentes entre si.
  • □ A mesma lógica da Seta 2 (Fase 4 → Fase 1) — a avaliação ética revelando uma dimensão de justiça que a formulação original não via — se aplicaria a uma equipe que, ao testar a equidade de um algoritmo de concessão de crédito já em produção, percebe que o problema originalmente formulado como “maximizar a precisão do modelo” escondia uma dimensão de justiça distributiva entre grupos.
  • □ Como o livro afirma explicitamente a Seta 2, mas não afirma explicitamente as Setas 1 e 3 (que são reconstruções pedagógicas), isso significa que as Setas 1 e 3 não têm nenhuma base no texto do livro e foram inventadas sem qualquer relação com o que os autores escreveram.

V/F — Voltar de Fase: Resposta

Dica

  • ✔ Perguntas que nunca discriminam nada perdem a função de filtro/diagnóstico da Fase 5.
  • ✔ “Julgamentos ponderados” é um dos três polos do equilíbrio — sem nenhum, um dos três desaparece.
  • ✔ Mesma estrutura da Seta 2, domínio diferente.
  • ✗ A Seta 1 (crítica de Whitbeck) e a Seta 3 (dificuldade de aplicar reciprocidade) partem de trechos reais do livro — a reconstrução é só em nomear o mecanismo, não em inventar o conteúdo.

Retomando: voltar de fase não é falha — é o ciclo reconhecendo que uma etapa posterior viu algo que a anterior não via. Vamos ver as três setas ao vivo a seguir.

O Ciclo Ético: um Método, Não uma Fórmula

“O ciclo ético ajuda você a fazer uma análise sistemática e completa do problema moral, e a justificar suas decisões finais em termos morais.”

— Van de Poel & Royakkers (2011, pp. 137–138)


Não é linear — é iterativo, com retornos a fases anteriores. Fio condutor de hoje: Gilbane Gold (fábrica que despeja chumbo e arsênio na água).

Fase 1: Formular Bem o Problema — Três Critérios

❌ Tentativa 1 — Factual

“O chumbo e o arsênio na água vão causar efeitos à saúde?” — pergunta de fato, não de valor.

❌ Tentativa 2 — Prática

“Como a cidade pode garantir as duas empresas como fonte de bem-estar?” — pergunta de meios, não moral.

✅ Formulação que Funciona

“David deveria informar o público […] mesmo que a gerência da Z-Corp não considere isso um problema sério?”


Três critérios: o que está em jogo + quem tem que agir + por que é uma questão moral.

Fase 2: Analisar — Três Elementos

Valores

Saúde pública, cuidado ambiental, honestidade, lealdade, integridade

Interessados

Z-Corp, prefeitura, agricultores, moradores, David

Fatos incertos

Capacidade da estação de tratamento; risco de David perder o emprego


Nota

Fato incerto não paralisa: formule de forma hipotética — “se x, opção A; se y, opção B.”

Fase 3: Opções — Cuidado com o Preto-no-Branco

Estratégia Preto-no-Branco

Só duas opções (agir ou não). “Em situações mais complexas, é simplista demais.”


Estratégia de cooperação (Gilbane Gold, reformulado):

  1. Método de tratamento melhor e mais barato
  2. Contatar a sociedade de engenharia
  3. Contatar o conselho municipal
  4. Contatar a própria estação de tratamento


Denúncia pública (whistle-blowing): último recurso — custo alto para todos.

Fase 4: O Kit de Ferramentas de Avaliação

Formais

  • Códigos profissionais (Aula 3)
  • Utilitarismo (ato/regra)
  • Pareto
  • Kant → teste de respeito / teste de liberdade
  • Análise de virtudes

Informais

  • Intuição
  • Senso comum (pesar valores)


Caso Jasmine

Diretora sob pressão para relaxar o código de obras. Kant: máxima não pode ser universalizada. Utilitarismo de ato: aceitar dá o melhor resultado agregado. Discordam.

Fase 5: Reflexão — Equilíbrio Reflexivo Amplo

Coerência entre três tipos de crença: julgamentos ponderados, princípios morais, teorias de fundo.


Dica

Duas perguntas: o framework sustenta minha intuição? Ele captura os aspectos moralmente relevantes — ou deixa algum de fora?

Quando Voltar? Três Setas, Três Motivos

Seta 1 (Fase 3→1): gerar opções revela um falso binário na formulação original. (reconstrução nossa)


Seta 2 (Fase 4→1): a avaliação revela uma dimensão moral (ex.: justiça) que a formulação original não via. (explícito no livro)


Seta 3 (Fase 4→2): testar um framework revela um fato que faltava checar. (reconstrução nossa)


Dica

Veremos as três, ao vivo, no caso Highway Safety a seguir.

Aplicando o Ciclo ao Caso Highway Safety

Pergunta provocadora — um argumento “robusto” é automaticamente o argumento certo?

O livro conclui que o resultado utilitarista (escolher o Cruzamento A) é “bastante robusto” — não muda mesmo trocando o esquema de precificação de vidas. O resultado kantiano/de justiça, não. Isso significa que David deveria simplesmente seguir o argumento mais robusto?

Dica: robustez responde “quão dependente de escolhas arbitrárias, dentro do próprio framework, é essa conclusão?” — não responde “qual valor deveria pesar mais entre os dois frameworks”.

  • □ Se os esquemas de precificação de vidas usados no cálculo utilitarista do caso (National Safety Council, NHTSA, esquema do estado vizinho) atribuíssem peso negativo a vidas humanas salvas, o resultado de que o Cruzamento A é “bastante robusto” para a escolha utilitarista deixaria de valer.
  • □ No limite em que o Cruzamento B tivesse tráfego zero (nenhum veículo passa por ali), o argumento kantiano de justiça baseado em “risco maior por veículo” em B perderia sentido, porque não haveria mais nenhum motorista exposto a esse risco desigual para justificar a recomendação baseada em equidade.
  • □ A mesma estrutura de desacordo do caso Highway Safety (utilitarismo favorecendo a opção que reduz mais o total de mortes; justiça favorecendo a opção que reduz a desigualdade de risco, mesmo que o total seja pior) apareceria, de forma estruturalmente análoga, numa decisão de saúde pública sobre distribuir um número limitado de vacinas entre um bairro densamente povoado com prevalência baixa da doença e um bairro pouco povoado com prevalência alta.
  • □ Como o livro conclui que o argumento utilitarista é “bastante robusto” e o argumento kantiano/de justiça é “sensível a pressupostos”, isso significa que David deveria simplesmente escolher a opção utilitarista (Cruzamento A), porque um argumento mais robusto é automaticamente o argumento moralmente correto.

V/F — Robusto é o Mesmo que Certo: Resposta

Dica

  • ✔ Só um peso absurdo (negativo) para vidas inverteria o resultado — é a própria condição que o livro nomeia.
  • ✔ Sem tráfego, não há ninguém exposto ao risco desigual.
  • ✔ Mesma tensão agregado-vs-equidade, outro domínio.
  • ✗ Robustez mede dependência de parâmetros dentro de um framework — não decide qual valor deveria pesar mais entre frameworks.

Retomando: o Ciclo Ético situa a robustez relativa de cada argumento, mas não substitui a escolha de valores por um cálculo de robustez — essa escolha continua sendo moral.

Fase 1: Nem Sempre é Óbvio Que é um Problema Moral

“Não fica claro, pela própria formulação, por que é um problema moral. […] muitas pessoas […] afirmam que […] a opção A deveria ser escolhida.”


Análise: interessados (motoristas, contribuintes, conselho); valores (segurança, justiça, utilidade pública); fato incerto (fatores de redução são médias nacionais, não específicas dos dois cruzamentos).

Seta 1 Acontecendo: Whitbeck Contra o Falso Binário

“O problema é apresentado como uma escolha forçada […]. Instalar placas de trânsito nas duas interseções pode ser uma alternativa.”

— Whitbeck (1998a, apud p. 151)


Aviso

Isto é a Seta 1 (Fase 3→1): gerar opções revela um binário mais estreito do que a realidade. O livro só cita a crítica — a reconstrução do loop é nossa.

Fase 4: Duas Teorias, Duas Recomendações

⚖️ Utilitarismo → Cruzamento A

“Em todos os cálculos, o Cruzamento A tem o maior benefício bruto e o maior benefício líquido.”

📏 Kant → Cruzamento B

“Indivíduos que se aproximam do Cruzamento B enfrentam um risco maior […]. Uma escolha pelo Cruzamento B seria, portanto, mais justa.”

Seta 2 Acontecendo (a Única Explícita no Livro)

“Considerar o caso a partir de um ponto de vista deontológico ajuda a perceber que há um problema moral em potencial aqui. […] alguém só reconhece as considerações de justiça no passo 4 […]. Essa pessoa pode então voltar ao passo 1.”

— Van de Poel & Royakkers (2011, p. 150)

Seta 3 Acontecendo: o Teste de Reciprocidade Exige Checar um Fato

“O segundo imperativo categórico de Kant […] é difícil de aplicar a este caso […] a racionalidade dos outros não está em questão.”

— Van de Poel & Royakkers (2011, p. 152)


Nota

A checagem desse fato pertence à Fase 2. O livro não nomeia isso como “voltar” — é nossa leitura do que o texto faz implicitamente.

Fase 5: Reflexão — Nem Todo Argumento Pesa Igual

“O resultado de que o teste utilitarista seleciona o Cruzamento A é bastante robusto. O mesmo não é tão verdadeiro para a abordagem de Kant, ou para o teste de justiça.”

— Van de Poel & Royakkers (2011, p. 153)


Dica

O ponto central: o Ciclo Ético não elimina o desacordo — ele o torna explícito, argumentável, e situado no tempo. Vimos as três setas acontecerem, não só em abstrato.

Fechamento: A Bússola Moral

Hoje Cobrimos as Quatro Perspectivas de Steen

“Minha proposta é usar essas perspectivas em paralelo. Cada uma pode complementar as outras.”

— Marc Steen (2022, p. 135)


Steen chama de… Vimos hoje como…
Consequencialismo Utilitarismo
Deontologia Teoria kantiana
Ética das virtudes Ética das virtudes
Ética relacional Ética do cuidado


Nota de precisão

Não confirmamos que as duas formulações são idênticas palavra por palavra — mas partem do mesmo lugar: relações concretas e assimétricas.


Deliberação Ética Rápida

“Tivemos bons resultados com workshops […] através dessas quatro perspectivas éticas.”

Um mesmo projeto, quatro perguntas, 1–2 horas.

A Metáfora da Bússola Moral

“Uma bússola só mostra onde fica o norte magnético. Ela não diz para onde ir.”

— Marc Steen (2022, p. 139)


Nota

A mesma bússola pode apontar direções diferentes dependendo de quão a fundo você lê o mostrador — vimos isso quatro vezes hoje, com o Ford Pinto (utilitarismo, kantismo, e a formulação da máxima).


Ponte para a Aula 3

Hoje: teorias filosóficas, abstratas e universais.

Próxima aula: códigos de ética profissionais (ACM, SBC, IEEE) — orientação mais formal e institucional, e seus limites.