Computação e Sociedade
2026-08-30
David Weber, 23 anos, engenheiro civil de segurança viária, tem $50.000 não comprometidos e precisa escolher um único projeto de segurança para recomendar ao distrito.
🏙️ Cruzamento A (urbano)
20.000 veículos/dia na via principal
2 fatalidades/ano 6 feridos/ano
(médias de 3 anos)
🌾 Cruzamento B (rural)
5.000 veículos/dia na via principal
1 fatalidade/ano 2 feridos/ano
(médias de 3 anos)
As duas melhorias propostas (instalar novos semáforos) custam exatamente o mesmo: $50.000. Não há orçamento para fazer as duas — David precisa escolher uma só.
Importante
A pergunta do livro: qual cruzamento David deveria recomendar — e qual é a justificativa para essa recomendação?
Os números por si só não decidem: o Cruzamento A tem mais mortes em números absolutos (2 vs. 1 por ano); mas o Cruzamento B tem menos tráfego (5.000 vs. 20.000 veículos/dia), então o risco por veículo que passa é maior lá — quase o dobro, como veremos com números exatos no Bloco 4.
Aviso
Também não é questão de gosto pessoal ou de “achismo”. Precisamos de um raciocínio moral argumentável — que possa ser defendido e questionado por outra pessoa, com critérios explícitos.
O plano de hoje, em três etapas:
Pergunta provocadora — o que faz do caso Highway Safety um problema moral?
Os dados de tráfego e acidentes de David não “decidem” por si só qual cruzamento escolher — mas isso não faz da escolha uma questão de gosto pessoal. O que, exatamente, transforma “qual cruzamento reformar” numa pergunta que precisa de raciocínio moral argumentável, e não só de uma tabela de números?
Dica: pense no que mudaria se os dois cruzamentos tivessem exatamente os mesmos números — a decisão deixaria de envolver valores em conflito, ou só deixaria de ser numericamente ambígua?
Dica
Retomando: a pergunta do caso tem duas partes — qual cruzamento, e por quê. A segunda parte exige ferramentas que ainda não construímos. Vamos construí-las nos próximos dois blocos.
Pergunta provocadora — por que a mesma teoria discordou de si mesma três vezes?
No caso Ford Pinto, três formulações utilitaristas diferentes (o cálculo de ato raso da própria Ford, a correção pelo princípio de liberdade de Mill, o utilitarismo de regra) chegaram a três conclusões: não recolher, recolher, e recolher-e-obrigada. Nenhuma delas trocou de teoria. O que, exatamente, mudou entre uma formulação e a outra?
Dica: pense em qual pergunta cada formulação está, de fato, respondendo — “qual ato isolado maximiza o prazer agora?” não é a mesma pergunta que “qual regra geral maximiza o prazer no longo prazo?”.
Dica
Retomando: o que muda entre as três formulações é a pergunta que cada uma responde, não a teoria. Profundidade já basta para inverter a conclusão.
Pergunta provocadora — a rigidez de Kant é uma falha da teoria, ou de quem a aplica sem pluralismo?
Kant não admite exceção nenhuma às suas normas — nem para o assassino à porta. Ross responde sem abandonar as normas, só admitindo que uma norma prima facie pode ser superada por outra mais fundamental, na situação concreta. Isso resolve o problema, ou só o adia?
Dica: pense no que exatamente Ross muda — ele elimina o dever de dizer a verdade, ou só admite que outro dever pode pesar mais nesta situação específica?
Dica
Retomando: Ross não elimina o dever de dizer a verdade — mostra que, nesta situação, outro dever pesa mais. Ajuste pluralista, não abandono.
Pergunta provocadora — virtude, ou imitação de virtude?
LeMessurier foi louvado por coragem e abertura à crítica. Kant, por sua vez, usa o “psicopata frio” para mostrar que autocontrole e firmeza também podem tornar alguém mais perigoso, não menos. O que distingue uma virtude genuína de um traço de caráter que só imita uma virtude na superfície?
Dica: pense no que LeMessurier fez com a informação que recebeu — não só que traço de personalidade ele demonstrou, mas a serviço de quê esse traço estava.
Dica
Retomando: o que distingue virtude de imitação é a serviço de quê o traço está sendo usado — exige sabedoria prática, não fórmula.
Pergunta provocadora — a relação basta sem proximidade emocional?
A ética do cuidado nasceu prestando atenção a relações concretas — pai e filho, médico e paciente. O livro aplica essa mesma teoria à Ford e a milhões de consumidores anônimos, sem nenhum laço pessoal entre eles. O que sustenta essa extensão — a teoria não deveria, a rigor, parar nas relações onde há de fato proximidade emocional?
Dica: releia o critério que o livro usa para atribuir o dever de cuidado à Ford — é proximidade emocional, ou é outra coisa?
Dica
Retomando: a proximidade emocional não é o critério — a dependência assimétrica é. É por isso que a teoria se estende a relações impessoais.
Van de Poel & Royakkers organizam as teorias éticas por onde colocam o ponto de partida do julgamento moral:
| Ator | Ação | Consequências | |
|---|---|---|---|
| Teoria | Ética das virtudes | Deontologia | Utilitarismo |
| Ponto de partida | Virtudes | Normas | Valores |
Hoje veremos as quatro com o mesmo peso — inclusive uma quarta, a ética do cuidado, tratada a fundo no fim do bloco. E em cada uma delas, o fio condutor é sempre o mesmo: a profundidade da análise pode inverter a conclusão, mesmo sem trocar de teoria.
Bentham — hedonismo: prazer e dor são os “senhores soberanos” do ser humano — o único critério do bem e do mal.
O princípio da utilidade:
“A maior felicidade para o maior número de membros da comunidade. […] A ação com o melhor resultado (a maior utilidade) é a que deve ser preferida.”
O balanço moral: soma-se prazeres e dores esperados de cada ação (ponderados por intensidade, duração, certeza) — a mesma lógica, hoje, de toda análise de custo-benefício.
1. Nem todo prazer vale o mesmo (prazeres qualitativos)
“É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito.”
Desejos “superiores” (intelectuais) > desejos “inferiores” (físicos) — mesmo com menos quantidade de prazer.
2. O princípio de liberdade (protege minorias)
“Cada pessoa é livre para buscar seu próprio prazer, contanto que isso não negue nem impeça o prazer de outras pessoas.”
Corrige o problema de Bentham: nada, no cálculo puro, protegia o indivíduo contra o interesse da maioria.
1. Imprevisibilidade — consequências raramente são certas; “consequências esperadas” só formaliza a incerteza, não a elimina.
2. Justiça distributiva (Rawls) — a soma pode estar certa; a distribuição, injusta. O utilitarismo “não reconhece a separação fundamental entre as pessoas”.
Resposta parcial (Hare): utilidade marginal decrescente já empurra o cálculo para menos desigualdade, sozinha.
3. Ignora relações pessoais — o dilema do naufrágio (salvar o amigo ou o cirurgião famoso): o utilitarismo manda salvar quem é “mais útil”, ignorando quem especificamente é feliz.
4. Fins justificam meios — até direitos humanos fundamentais podem ser quebrados se o resultado agregado for melhor.
Resposta parcial: utilitarismo de regras — julga a regra geral, não o ato isolado.
1. Ford (ato-utilitarista raso):
“O custo social total de reformar todos os carros era maior do que o custo social dos acidentes esperados.”
→ não recolher
2. Princípio de liberdade (Mill):
“Segundo esse princípio, a Ford deveria ter recolhido e reparado o carro.”
→ recolher
3. Utilitarismo de regra:
“A Ford estava eticamente obrigada a recolher o carro — exigido por regras das quais toda a sociedade se beneficiaria no longo prazo.”
→ recolher, e obrigada
Aviso
Mesma família de teoria, mesmo caso, três conclusões. O problema nunca foi “utilitarismo” — foi a profundidade (e a conveniência) do cálculo que a Ford escolheu.
1. Autonomia: ser moral não é obedecer regras externas — é a própria pessoa, pela razão, determinando o que é certo e se obrigando por dever (não por conveniência ou medo de punição).
2. Norma hipotética vs. categórica
“Uma norma hipotética costuma ter a forma: ‘se você quer X, faça Y.’”
Uma norma categórica não depende de nenhum objetivo escolhido — vale incondicionalmente, para qualquer pessoa.
3. O imperativo categórico — o único princípio racional supremo, do qual tudo deriva. Duas formulações equivalentes, a seguir.
“Aja apenas segundo a máxima pela qual você possa, ao mesmo tempo, querer que ela se torne uma lei universal.”
Exemplo simples: quebrar uma promessa
Máxima: “posso quebrar minhas promessas quando for conveniente.”
Se todo mundo agisse assim, ninguém mais confiaria em promessa nenhuma — a própria prática de prometer desapareceria. A máxima se autodestrói quando universalizada.
Não é sobre consequências ruins — é uma contradição lógica: a ação só é possível porque a maioria das pessoas NÃO age assim.
“Aja de modo a tratar a humanidade, seja na sua própria pessoa, seja na de qualquer outro, sempre também como um fim, nunca meramente como um meio.”
Exemplo simples: o empréstimo desonesto
Pedir dinheiro emprestado prometendo pagar, sabendo que não vai pagar — a pessoa não teria emprestado se soubesse a verdade.
“Estou usando a racionalidade dela como um meio para atingir meu próprio objetivo.”
Dica
O problema não é usar serviços de alguém (normal) — é negar a informação que a pessoa precisaria para decidir racionalmente por si mesma.
Máxima rasa (favorável a Ford)
“Empresas podem decidir não corrigir um defeito quando o custo supera um limiar atuarial.” — parece universalizável.
Máxima honesta e específica (o livro)
“A Ford vai comercializar o Ford Pinto, sabendo que o carro é inseguro, sem informar os consumidores.” — ninguém confiaria em comprar um carro.
Nota
Síntese própria, não do livro-base: a teoria não decide, por si só, o quão específica a máxima deve ser.
Universalidade: se todo fabricante vendesse carros inseguros sem avisar, ninguém confiaria em comprar carro nenhum — a máxima não pode ser universalizada.
Reciprocidade: ao não informar os consumidores, Ford os usou como meio para seu lucro, não como fins racionais capazes de decidir — o mesmo mecanismo do exemplo do empréstimo desonesto.
Nota
Note: o kantiano nem precisa calcular custo-benefício. A falha está em não informar.
Kant, em ensaio próprio (1797, Sobre um Suposto Direito de Mentir por Filantropia): mentir é errado mesmo para um assassino perguntando onde está seu amigo.
Nota de precisão
Não vem de Van de Poel & Royakkers — conhecimento geral sobre a obra do próprio Kant.
Aviso
“Kant não permite nenhuma exceção em sua teoria.” — a maioria sente que mentir ali é obviamente certo. Isso revela o problema da rigidez.
Prima facie (latim: “à primeira vista”) — dois níveis do bem:
“O que parece ser bom à primeira vista, e aquilo que é bom depois de levarmos tudo em consideração.”
Exemplo do livro: provas de alunos vs. amigo
Prometer corrigir provas até sexta vs. ajudar um amigo em apuros — ambas são normas prima facie, mas só “ajudar seu amigo é uma norma auto-evidente”.
Ross não descarta a promessa — ele mostra que, nesta situação, um dever pesa mais que o outro. Muda a situação, pode inverter.
“A ética das virtudes foca na natureza da pessoa que age […] quais características boas ou desejáveis as pessoas deveriam ter.”
Aristóteles — eudaimonia, a vida boa
“A vida boa é uma vida ativa, em conformidade com as virtudes necessárias para realizar o potencial exclusivamente humano de cada um.”
O meio-termo (exemplo: coragem)
Covardia ⟵ Coragem ⟶ Imprudência
Não há fórmula fixa — exige sabedoria prática para achar o meio-termo em cada situação.
Crítica (Frankena)
Não dá instrução concreta de como agir num caso.
Crítica (Kant)
Um “psicopata frio” pode ter autocontrole e firmeza — virtudes na mão errada tornam alguém mais perigoso.
Rotular uma ação de “corajosa” é fácil. Saber se o traço está a serviço do quê exige sabedoria prática, não uma fórmula.
Perícia técnica, comunicação clara, cooperação, objetividade, abertura à crítica, resistência, criatividade, busca pela qualidade, rigor no relato do trabalho.
Citicorp Center (1977): contratantes trocam solda por parafusos sem avisar o engenheiro-projetista. Um ano depois, um estudante liga com uma dúvida. LeMessurier não descarta — testa de novo, e descobre que o prédio pode cair numa tempestade de 16 anos.
Dica
Ele avisa advogados, seguradoras e a prefeitura voluntariamente, arriscando a própria reputação — “foi preciso muita coragem […] abertura à crítica.”
“As pessoas aprendem normas e valores dentro de contextos específicos, ao encontrar pessoas concretas com emoções.”
— inspirada em Carol Gilligan
Relações especiais (filhos, amigos — mas também empresas com empregados, fornecedores, vizinhos) geram obrigações especiais, que não podem ser derivadas de um princípio geral único.
Assimetria é central: pai-filho, empregador-empregado, médico-paciente — a vulnerabilidade de um lado gera dever de cuidado no outro. O que fazer não pode ser fixado de antemão por regra — depende do contexto.
“Não fica claro o que ‘cuidado’ exatamente significa […] não dá indicações concretas de como agir numa situação específica, em contraste com o utilitarismo ou a ética kantiana.”
Mesma crítica de Frankena à ética das virtudes, agora aplicada aqui: bonita em teoria, pouco prescritiva na prática.
Leitura rasa
“Ford não tem relação pessoal com milhões de compradores anônimos — ética do cuidado não se aplica.”
O livro discorda
“Essa relação era assimétrica, já que os consumidores […] dependiam da informação que a Ford fornecia. A Ford deveria reconhecer essa vulnerabilidade […].”
Dependência assimétrica basta — não precisa de proximidade emocional. Três teorias, três exames do mesmo caso, o mesmo padrão de reversão de uma leitura rasa para uma mais cuidadosa.
Competência, conhecimento interdisciplinar, fluxos de informação democráticos, times democráticos, orientação a serviço, diversidade, cooperatividade, criatividade, gestão de projeto.
Nota
Desloca a responsabilidade moral do indivíduo isolado para o arranjo social em que a engenharia acontece.
“Mesmo que usar uma ou mais das teorias não garanta tomar a decisão certa, uma decisão moral que simplesmente ignora as teorias éticas […] é geralmente claramente antiética.”
— Van de Poel & Royakkers (2011, p. 107)
Pergunta provocadora — quando um binário é real, e quando é um sintoma de pressa?
A estratégia preto-no-branco (só duas opções) não é sempre errada — às vezes o problema é mesmo binário. O que, na prática, diferencia um binário genuíno de um binário que só existe porque ninguém consultou os outros interessados antes de fechar a lista de opções?
Dica: pense no que a estratégia de cooperação fez no caso Gilbane Gold — ela não criou opções do nada, ela revelou opções que já existiam, mas que a formulação original escondia.
Dica
Retomando: um binário é sintoma de pressa quando existem interessados ou opções não consultados; é real quando, mesmo depois de consultar, não há alternativa.
Pergunta provocadora — voltar de fase é falha, ou é o método funcionando?
Duas das três setas de retorno (Fase 3→1, Fase 4→2) são reconstruções nossas; só a Seta 2 (Fase 4→1) é uma afirmação literal do livro. Ainda assim, todas nascem do mesmo mecanismo: uma fase posterior revela algo que uma fase anterior não via. Isso é sinal de que a análise anterior foi malfeita, ou é exatamente o que um método iterativo deveria fazer?
Dica: pense no que aconteceria se alguém seguisse as cinco fases em ordem estrita, sem nunca voltar — isso garantiria, por si só, uma análise melhor?
Dica
Retomando: voltar de fase não é falha — é o ciclo reconhecendo que uma etapa posterior viu algo que a anterior não via. Vamos ver as três setas ao vivo a seguir.
“O ciclo ético ajuda você a fazer uma análise sistemática e completa do problema moral, e a justificar suas decisões finais em termos morais.”
— Van de Poel & Royakkers (2011, pp. 137–138)
Não é linear — é iterativo, com retornos a fases anteriores. Fio condutor de hoje: Gilbane Gold (fábrica que despeja chumbo e arsênio na água).
❌ Tentativa 1 — Factual
“O chumbo e o arsênio na água vão causar efeitos à saúde?” — pergunta de fato, não de valor.
❌ Tentativa 2 — Prática
“Como a cidade pode garantir as duas empresas como fonte de bem-estar?” — pergunta de meios, não moral.
✅ Formulação que Funciona
“David deveria informar o público […] mesmo que a gerência da Z-Corp não considere isso um problema sério?”
Três critérios: o que está em jogo + quem tem que agir + por que é uma questão moral.
Valores
Saúde pública, cuidado ambiental, honestidade, lealdade, integridade
Interessados
Z-Corp, prefeitura, agricultores, moradores, David
Fatos incertos
Capacidade da estação de tratamento; risco de David perder o emprego
Nota
Fato incerto não paralisa: formule de forma hipotética — “se x, opção A; se y, opção B.”
Estratégia Preto-no-Branco
Só duas opções (agir ou não). “Em situações mais complexas, é simplista demais.”
Estratégia de cooperação (Gilbane Gold, reformulado):
Denúncia pública (whistle-blowing): último recurso — custo alto para todos.
Formais
Informais
Caso Jasmine
Diretora sob pressão para relaxar o código de obras. Kant: máxima não pode ser universalizada. Utilitarismo de ato: aceitar dá o melhor resultado agregado. Discordam.
Coerência entre três tipos de crença: julgamentos ponderados, princípios morais, teorias de fundo.
Dica
Duas perguntas: o framework sustenta minha intuição? Ele captura os aspectos moralmente relevantes — ou deixa algum de fora?
Seta 1 (Fase 3→1): gerar opções revela um falso binário na formulação original. (reconstrução nossa)
Seta 2 (Fase 4→1): a avaliação revela uma dimensão moral (ex.: justiça) que a formulação original não via. (explícito no livro)
Seta 3 (Fase 4→2): testar um framework revela um fato que faltava checar. (reconstrução nossa)
Dica
Veremos as três, ao vivo, no caso Highway Safety a seguir.
Pergunta provocadora — um argumento “robusto” é automaticamente o argumento certo?
O livro conclui que o resultado utilitarista (escolher o Cruzamento A) é “bastante robusto” — não muda mesmo trocando o esquema de precificação de vidas. O resultado kantiano/de justiça, não. Isso significa que David deveria simplesmente seguir o argumento mais robusto?
Dica: robustez responde “quão dependente de escolhas arbitrárias, dentro do próprio framework, é essa conclusão?” — não responde “qual valor deveria pesar mais entre os dois frameworks”.
Dica
Retomando: o Ciclo Ético situa a robustez relativa de cada argumento, mas não substitui a escolha de valores por um cálculo de robustez — essa escolha continua sendo moral.
“Não fica claro, pela própria formulação, por que é um problema moral. […] muitas pessoas […] afirmam que […] a opção A deveria ser escolhida.”
Análise: interessados (motoristas, contribuintes, conselho); valores (segurança, justiça, utilidade pública); fato incerto (fatores de redução são médias nacionais, não específicas dos dois cruzamentos).
“O problema é apresentado como uma escolha forçada […]. Instalar placas de trânsito nas duas interseções pode ser uma alternativa.”
— Whitbeck (1998a, apud p. 151)
Aviso
Isto é a Seta 1 (Fase 3→1): gerar opções revela um binário mais estreito do que a realidade. O livro só cita a crítica — a reconstrução do loop é nossa.
⚖️ Utilitarismo → Cruzamento A
“Em todos os cálculos, o Cruzamento A tem o maior benefício bruto e o maior benefício líquido.”
📏 Kant → Cruzamento B
“Indivíduos que se aproximam do Cruzamento B enfrentam um risco maior […]. Uma escolha pelo Cruzamento B seria, portanto, mais justa.”
“Considerar o caso a partir de um ponto de vista deontológico ajuda a perceber que há um problema moral em potencial aqui. […] alguém só reconhece as considerações de justiça no passo 4 […]. Essa pessoa pode então voltar ao passo 1.”
— Van de Poel & Royakkers (2011, p. 150)
“O segundo imperativo categórico de Kant […] é difícil de aplicar a este caso […] a racionalidade dos outros não está em questão.”
— Van de Poel & Royakkers (2011, p. 152)
Nota
A checagem desse fato pertence à Fase 2. O livro não nomeia isso como “voltar” — é nossa leitura do que o texto faz implicitamente.
“O resultado de que o teste utilitarista seleciona o Cruzamento A é bastante robusto. O mesmo não é tão verdadeiro para a abordagem de Kant, ou para o teste de justiça.”
— Van de Poel & Royakkers (2011, p. 153)
Dica
O ponto central: o Ciclo Ético não elimina o desacordo — ele o torna explícito, argumentável, e situado no tempo. Vimos as três setas acontecerem, não só em abstrato.
“Minha proposta é usar essas perspectivas em paralelo. Cada uma pode complementar as outras.”
— Marc Steen (2022, p. 135)
| Steen chama de… | Vimos hoje como… |
|---|---|
| Consequencialismo | Utilitarismo |
| Deontologia | Teoria kantiana |
| Ética das virtudes | Ética das virtudes |
| Ética relacional | Ética do cuidado |
Nota de precisão
Não confirmamos que as duas formulações são idênticas palavra por palavra — mas partem do mesmo lugar: relações concretas e assimétricas.
Deliberação Ética Rápida
“Tivemos bons resultados com workshops […] através dessas quatro perspectivas éticas.”
Um mesmo projeto, quatro perguntas, 1–2 horas.
“Uma bússola só mostra onde fica o norte magnético. Ela não diz para onde ir.”
— Marc Steen (2022, p. 139)
Nota
A mesma bússola pode apontar direções diferentes dependendo de quão a fundo você lê o mostrador — vimos isso quatro vezes hoje, com o Ford Pinto (utilitarismo, kantismo, e a formulação da máxima).
Ponte para a Aula 3
Hoje: teorias filosóficas, abstratas e universais.
Próxima aula: códigos de ética profissionais (ACM, SBC, IEEE) — orientação mais formal e institucional, e seus limites.
UNICAMP — Instituto de Computação