Computação e Sociedade
2026-08-30
O Alerta (6 meses antes) O engenheiro Roger Boisjoly documenta a falha dos anéis de vedação em baixas temperaturas:
“The consequences would be catastrophic and human lives would be put at risk.”
A Véspera do Lançamento (Manhã a -4°C)
Recomendação Técnica
NÃO LANÇAR. Engenheiros reforçam o risco iminente de falha material devido ao frio.
Decisão Gerencial
LANÇAR. Sob pressão, 4 gerentes votam pela decolagem, sem os engenheiros na sala.
O Desfecho e a Investigação
A resposta ao desastre não foi apenas refazer a engenharia mecânica, mas reestruturar o fluxo de decisão:
A Paralisação O programa espacial ficou totalmente parado por 2 anos.
A Mudança de Poder Os engenheiros passaram a ter poder de veto direto sobre as decisões de lançamento.
A pergunta central da aula
Se a causa raiz não foi um erro técnico isolado, por que isso é um problema de engenharia/computação?
(A resposta: porque a tecnologia nunca foi feita apenas de técnica)
Tecnologia, pessoas, organizações e cultura se influenciam mutuamente — nenhuma opera isolada.
“We shape our tools and thereafter they shape us.”
— John Culkin (sobre a obra de Marshall McLuhan)
As duas visões extremas (ambas erradas):
Visão Instrumental
“A tecnologia é neutra, é apenas uma ferramenta. O problema ou a virtude está sempre no uso humano.”
Visão Determinista
“A tecnologia dita as regras. Ela determina como a sociedade e as pessoas vão obrigatoriamente se comportar.”
A Tese Certa: Coformação Mútua
A realidade é uma teia de decisões — da parte de quem projeta e da parte de quem usa — que se afetam, se moldam e se transformam mutuamente e o tempo todo.
O desastre não foi apenas causa e efeito. Foi a prova de como a organização e a tecnologia se afetam continuamente:
Conclusão: É um laço, não uma linha reta. A cultura da NASA moldou a decisão técnica, e o resultado material dessa decisão (a explosão) forçou a mudança na estrutura de poder organizacional da agência.
Pergunta provocadora — um conserto só no anel de vedação bastaria?
Imagine que a NASA, depois do desastre, tivesse trocado apenas o material do anel de vedação por um que não perde elasticidade no frio — mas mantido exatamente a mesma estrutura de decisão, com gerentes podendo votar sobre o lançamento sem os engenheiros presentes. Essa NASA hipotética ainda ilustraria a tese da coformação mútua discutida neste bloco, ou o caso se reduziria a um problema puramente técnico, já resolvido?
Dica: pense no laço cultura → decisão → desastre → cultura remoldada. Um conserto que altera só um elo do laço remove o laço por completo, ou deixa os outros elos intactos, prontos para se repetir?
Dica
Retomando: o laço de coformação não desaparece quando só o artefato físico é corrigido — ele continua ativo enquanto a estrutura de decisão que o gerou permanecer intacta.
A tese na prática: a tecnologia não é neutra (uma ilustração dramática)
O Projeto (Nova York, séc. XX) Robert Moses projetou dezenas de viadutos sobre as parkways de Long Island com uma altura deliberadamente baixa.
O Mecanismo Físico A altura impedia fisicamente a passagem de ônibus de transporte público, permitindo apenas a circulação de carros de passeio.
O Efeito Social Populações negras e de baixa renda dependiam de ônibus. Assim, a engenharia civil barrou o acesso dessas pessoas a áreas públicas de lazer, como Jones Beach.
“Moses used technology to achieve racist outcomes.”
— Langdon Winner (apud Steen, 2022, p. 29)
Importante
Conclusão: Nenhuma lei segregacionista escrita, nenhuma linha de código. A exclusão social foi codificada no concreto.
A tese na prática: a tecnologia não é neutra (uma ilustração banal)
(Steen, 2022, pp. 29–30)
Aparelhos Masculinos Possuem parafusos visíveis.
A mensagem silenciosa: O usuário é capaz (e encorajado) a abrir, entender, fazer manutenção e reparar o objeto.
Aparelhos Femininos Carcaça selada, sem parafusos.
A mensagem silenciosa: O usuário não tem capacidade técnica. O produto deve ser usado até quebrar e, então, descartado.
Scripts ou Affordances: As decisões de projeto prescrevem o que as pessoas podem ou não fazer. Neste caso, não há necessariamente um “vilão” ou uma intenção política declarada — há apenas o projeto (design).
“Technology is neither good nor bad; nor is it neutral.”
— A Primeira Lei de Kranzberg
Se a tecnologia não é neutra, e se mesmo decisões “banais” (como um parafuso) embutem visões de mundo (como estereótipos de gênero), a pergunta central passa a ser:
Aviso
Quem estava na sala quando a decisão de projeto foi tomada? A falta de diversidade entre os atores que desenvolvem a tecnologia é o que permite que vieses (muitas vezes inconscientes) se tornem “enganos” codificados no produto final.
Pergunta provocadora — e se Robert Moses não tivesse intenção nenhuma?
Suponha que ficasse provado, com documentos, que Robert Moses nunca pensou em raça ao definir a altura dos viadutos — que a medida foi só uma escolha de economia de concreto, sem qualquer intenção discriminatória. Isso enfraqueceria a conclusão de que “a tecnologia não é neutra”?
Dica: volte ao exemplo do parafuso do barbeador — ele já respondeu essa pergunta para um caso bem mais banal do que o dos viadutos.
Dica
Retomando: intenção declarada não é condição necessária para exclusão — é por isso que a pergunta que importa desloca de “quem quis isso” para “quem estava na sala quando a decisão foi tomada”.
Quem estava na sala? Para entender as decisões, precisamos mapear quem participa dessa “teia”.
Ator: Quem pode decidir como agir e executar essa decisão.
Interessado (Stakeholder): Sofre os impactos e tem interesse no resultado, mas não tem o poder de influenciar a direção do projeto.
Interesses conflitam — sem acordo automático sobre a direção “certa”.
1938: A Descoberta Criado por acidente por um químico da DuPont que tentava desenvolver um novo gás refrigerante.
2005: A Consequência O uso massivo (frigideiras antiaderentes) levanta graves riscos à saúde (o PFOA é classificado como “likely carcinogenic” pela EPA).
Ninguém em 1938 tinha meios de prever isso. Este é o núcleo do problema:
Importante
O Dilema de Collingridge
Se prever o futuro é impossível e mudar o fim é difícil demais, a engenharia precisa mudar o meio do processo.
Uma resposta institucional de avaliação tecnológica contínua.
Em vez de desenhar a tecnologia isoladamente e “jogar” para a sociedade:
Resumo: O CTA não é uma vacina que resolve o dilema, mas um método que nos ajuda a conviver com ele, permitindo correções de rota mais cedo.
Pergunta provocadora — o dilema de Collingridge é desculpa para ninguém ser responsável?
O dilema de Collingridge diz que não se pode prever, no início, as consequências de uma tecnologia — e que, quando elas aparecem, é tarde demais para mudar de direção com facilidade. Isso significa que ninguém pode ser responsabilizado por uma consequência que só apareceu décadas depois, como o PFOA do Teflon?
Dica: separe duas perguntas diferentes — “era possível prever?” e “algum ator tinha meios de investigar e não investigou?”.
Dica
Retomando: o dilema de Collingridge não é uma desculpa geral — distinguir “não era possível prever” de “havia como investigar e não se investigou” é exatamente o que decide se a responsabilidade recai sobre algum ator.
“Algoritmos usam décadas de conhecimento do domínio de jogos de azar e caça-níqueis. Com ícones brilhantes e rolagem infinita, eles capturam nossa atenção o máximo possível.”
— Marc Steen (2022, p. 32)
Aviso
O depoimento de quem estava na sala de projeto: “Somos vulneráveis à forma como esses designs ativam nossos impulsos comportamentais. Nossos cérebros evoluíram para serem ativados por estímulos sensoriais novos.” (Tristan Harris, ex-designer de ética do Google)
Como a tecnologia (código) e a sociedade (comportamento) se co-formam em tempo real e em escala global:
Conclusão: Nenhuma linha de código isolada “causa” o vício. O problema emerge do ciclo contínuo — o código molda o comportamento, que gera dados, que reescrevem o código.
Se a tecnologia é uma teia complexa, de quem é a “culpa” quando o sistema falha?
🔻 Diminui a responsabilidade individual Você é apenas um entre muitos atores. O desenvolvedor isolado não determina todas as consequências sociais do produto.
🔺 Amplia a responsabilidade profissional Como as decisões técnicas afetam a sociedade, você passa a ter o dever de considerar stakeholders e interesses que não estão na sala de projeto.
Importante
O Erro Comum: Confundir essas duas coisas. Não ser o único culpado não significa estar isento de responsabilidade moral sobre o que se projeta.
O cenário está montado: Nenhum engenheiro decide de forma isolada, e as consequências finais de um projeto são difíceis de prever.
O Problema: Como raciocinar de forma sistemática e lógica sobre o que é certo fazer dentro dessa teia sociotécnica, no dia a dia do projeto?
Dica
Na Aula 2:
Pergunta provocadora — quem responde pela rolagem infinita?
Um designer implementou a rolagem infinita e as notificações “puxa-atenção” só porque seu gerente exigiu uma métrica de tempo de tela. Ele não escolheu a métrica, só a implementou. O contexto sociotécnico discutido nesta aula “diminui” ou “amplia” a responsabilidade moral desse designer específico — ou as duas coisas ao mesmo tempo?
Dica: volte à citação de Van de Poel & Royakkers (p. 28) — ela não escolhe um lado, afirma os dois sentidos ao mesmo tempo.
Dica
Retomando: o designer do exemplo não é o único responsável — mas “não ser o único” e “não ser responsável” são afirmações diferentes, exatamente a confusão que a aula nomeia como o erro mais comum nessa discussão.
UNICAMP — Instituto de Computação