Soluções — Aula 6: PCA, PPCA e o Autoencoder Linear
Aprendizado Não Supervisionado
Dica(Resposta) Teste 1 — Formulação de máxima variância
- ✔ Verdadeiro — Sem a restrição \(\mathbf{u}_1^T\mathbf{u}_1=1\), escalar \(\mathbf{u}_1\) por qualquer \(c>0\) multiplica a variância projetada \(\mathbf{u}_1^T\mathbf{S}\mathbf{u}_1\) por \(c^2\) — para \(c\to\infty\) a quantidade cresce sem limite (desde que \(\mathbf{S}\) não seja identicamente nula). É exatamente por isso que a maximização de variância precisa de um multiplicador de Lagrange associado à restrição de norma: sem essa restrição, não existe máximo finito a ser encontrado.
- ✔ Verdadeiro — Se \(\lambda_1=\lambda_2\) são os dois maiores autovalores, qualquer combinação linear unitária dos autovetores associados a esse autovalor duplo produz a mesma variância projetada máxima \(\lambda_1\) — o subespaço próprio associado tem dimensão \(2\), e qualquer direção dentro dele (não só os dois autovetores originais escolhidos por uma decomposição numérica específica) é igualmente um “primeiro componente principal” válido. A unicidade da direção depende de o maior autovalor ser estritamente maior que os demais.
- ✗ Falso — \(\lambda_1\) é o valor da variância projetada só na direção ótima \(\mathbf{u}_1\) (o autovetor de maior autovalor) — para qualquer outra direção unitária \(\mathbf{v}\), \(\mathbf{v}^T\mathbf{Sv}\) é, em geral, um valor menor, variando entre \(\lambda_D\) (mínimo) e \(\lambda_1\) (máximo) conforme a direção escolhida. Confundir “o valor máximo atingido no ótimo” com “o valor em qualquer direção” é exatamente o erro estrutural deste item.
- ✔ Verdadeiro — O resultado de que o primeiro componente principal maximiza a variância projetada não depende da natureza dos dados de entrada — só de \(\mathbf{S}\) ser a matriz de covariância amostral de algum conjunto de vetores em \(\mathbb{R}^D\). Aplicado a embeddings de palavras, o primeiro componente principal é, por definição, a direção que maximiza a variância projetada dos vetores, isto é, a direção ao longo da qual os embeddings mais se distinguem uns dos outros — um critério puramente geométrico, cego a qualquer noção semântica de “significado”.
Dica(Resposta) Teste 2 — Formulação de erro mínimo e sua equivalência com a máxima variância
- ✗ Falso — A derivação da equivalência entre erro mínimo e autovetores depende, em cada passo, da distorção ser uma soma de quadrados: é essa estrutura que permite resolver a projeção ótima por derivada linear igualada a zero, e reescrever \(J\) como uma forma quadrática ligada diretamente à matriz de covariância. Trocando por \(L_1\) (não diferenciável do mesmo jeito, e sem a identidade de Pitágoras que liga variância retida e erro), a equação de estacionariedade deixa de ser \(\mathbf{Su}_i=\lambda_i\mathbf{u}_i\) — a solução ótima de uma distorção \(L_1\) é, em geral, uma mediana geométrica multivariada, não a decomposição espectral de \(\mathbf{S}\).
- ✔ Verdadeiro — A fórmula da distorção mínima, \(J^\star=\sum_{i=M+1}^D\lambda_i\), com \(M=0\) se reduz a \(\sum_{i=1}^D\lambda_i=\mathrm{tr}(\mathbf{S})\) — a soma de todos os \(D\) autovalores, incluindo \(\lambda_1\). Faz sentido geometricamente: sem nenhuma direção retida, cada ponto é aproximado só pela média, e toda a variância dos dados (a soma de todos os autovalores) se torna erro de reconstrução.
- ✗ Falso — As duas provas partem de objetivos e restrições formalmente distintos — uma maximiza \(\mathbf{u}^T\mathbf{Su}\) sob \(\|\mathbf{u}\|=1\); a outra minimiza o erro de reconstrução \(J=\frac1N\sum_n\|\mathbf{x}_n-\tilde{\mathbf{x}}_n\|^2\) sob ortonormalidade de uma base completa — e chegam à mesma equação de autovalores por caminhos de Lagrange independentes. A coincidência é explicada, não eliminada, pelo argumento de Pitágoras: como a variância total \(\mathrm{tr}(\mathbf{S})\) é fixa, maximizar a variância retida e minimizar o erro são o mesmo problema — mas essa é uma coincidência provada entre dois problemas diferentes, não uma tautologia entre a mesma derivação escrita duas vezes.
- ✔ Verdadeiro — Um autoencoder é treinado minimizando \(E(\mathbf{w})=\frac12\sum_n\|\mathbf{y}(\mathbf{x}_n,\mathbf{w})-\mathbf{x}_n\|^2\) — a menos do fator \(\frac12\) e da normalização por \(N\), o mesmo erro quadrático de reconstrução \(J\) da formulação de erro mínimo da PCA. É essa coincidência de objetivos (não só de resultado) que permite provar que o mínimo global do autoencoder linear compartilha o mesmo subespaço da PCA, por redução direta ao problema já resolvido.
Dica(Resposta) Teste 3 — PPCA como modelo gerador
- ✔ Verdadeiro — Sem o termo \(\boldsymbol\epsilon\sim\mathcal{N}(\mathbf{0},\sigma^2\mathbf{I})\), \(\mathbf{x}\) é uma transformação linear determinística de \(\mathbf{z}\in\mathbb{R}^M\); como \(\mathbf{z}\) varia livremente em \(\mathbb{R}^M\) (dimensão \(M<D\)), a imagem dessa transformação é, no máximo, um subespaço afim de dimensão \(M\) dentro de \(\mathbb{R}^D\) — toda a massa de probabilidade de \(\mathbf{x}\) fica concentrada nesse subespaço, sem densidade espalhada nas \(D-M\) direções restantes. Isso é precisamente o caso-limite \(\sigma^2\to0\) levado ao extremo \(\sigma^2=0\): a covariância marginal \(\mathbf{C}=\mathbf{WW}^T+\sigma^2\mathbf{I}\to\mathbf{WW}^T\), uma matriz de posto no máximo \(M<D\), portanto singular — não mais uma Gaussiana de covariância completa e invertível.
- ✗ Falso — Quando \(M=D\), \(\mathbf{W}\) é uma matriz \(D\times D\) arbitrária, e \(\mathbf{WW}^T\) pode ser qualquer matriz semidefinida positiva de posto até \(D\) (basta \(\mathbf{W}\) ser uma raiz quadrada matricial da covariância desejada). Dado qualquer \(\mathbf{C}\) definida positiva e um \(\sigma^2>0\) menor que o menor autovalor de \(\mathbf{C}\), \(\mathbf{C}-\sigma^2\mathbf{I}\) ainda é definida positiva e admite uma raiz quadrada \(\mathbf{W}\) tal que \(\mathbf{WW}^T=\mathbf{C}-\sigma^2\mathbf{I}\) — ou seja, com \(M=D\), a forma \(\mathbf{WW}^T+\sigma^2\mathbf{I}\) deixa de ser uma restrição real: qualquer covariância definida positiva pode ser aproximada arbitrariamente bem (e recuperada exatamente no limite \(\sigma^2\to0\)). É exatamente o oposto do que motiva a PPCA no regime \(M\ll D\), onde a restrição de posto baixo é o que reduz drasticamente o número de parâmetros livres frente aos \(D(D+1)/2\) de uma covariância geral.
- ✗ Falso — \(p(\mathbf{z})=\mathcal{N}(\mathbf{0},\mathbf{I})\) é a distribuição a priori (marginal, antes de observar \(\mathbf{x}\)) — não a distribuição relevante depois que um paciente específico é observado. A posterior \(p(\mathbf{z}\mid\mathbf{x})\) tem média \(\mathbb{E}[\mathbf{z}\mid\mathbf{x}]=\mathbf{M}^{-1}\mathbf{W}_{\mathrm{ML}}^T(\mathbf{x}-\bar{\mathbf{x}})\) — uma função determinística (linear) de \(\mathbf{x}\), fortemente informada pelos atributos observados daquele paciente específico. Confundir a distribuição a priori (não condicionada) com a posterior (condicionada aos dados observados) é exatamente o mesmo tipo de erro que já apareceria ao dizer que, num Modelo de Mistura Gaussiana, “a origem \(z_n\) de um ponto é só um sorteio do peso de mistura \(\pi_k\)”, ignorando a responsabilidade \(\gamma(z_{nk})\) calculada via Bayes a partir do próprio ponto.
- ✔ Verdadeiro — É exatamente a mesma arquitetura conceitual sob duas escolhas diferentes de variável latente: num GMM, \(z_n\) é 1-de-\(K\) (categórica) e \(\mathbf{x}\mid z_{nk}=1\sim\mathcal{N}(\boldsymbol\mu_k,\boldsymbol\Sigma_k)\) — uma Gaussiana diferente por categoria, selecionada pela variável latente; na PPCA, \(\mathbf{z}\) é contínua e \(\mathbf{x}\mid\mathbf{z}\sim\mathcal{N}(\mathbf{Wz}+\boldsymbol\mu,\sigma^2\mathbf{I})\) — uma transformação linear de \(\mathbf{z}\) mais ruído. A arquitetura conceitual (“gerar o observado a partir de uma variável não observada”) é idêntica; o que muda é a natureza da variável latente e o mecanismo de geração condicional.
Dica(Resposta) Teste 4 — MLE da PPCA e o caso-limite clássico
- ✗ Falso — \(\mathbf{R}\) é uma invariância rotacional da solução: para qualquer matriz ortogonal \(\mathbf{R}\) (\(\mathbf{RR}^T=\mathbf{I}\)), \(\widetilde{\mathbf{W}}\widetilde{\mathbf{W}}^T=\mathbf{WRR}^T\mathbf{W}^T=\mathbf{WW}^T\) — a covariância marginal \(\mathbf{C}=\mathbf{WW}^T+\sigma^2\mathbf{I}\) (e, portanto, \(p(\mathbf{x})=\mathcal{N}(\mathbf{x}\mid\boldsymbol\mu,\mathbf{C})\)) é idêntica para toda a família de soluções ligadas por rotação. Fixar \(\mathbf{R}=I\) é só escolher um representante particular dentro dessa família de soluções equivalentes — não muda \(\mathbf{C}\) nem \(p(\mathbf{x})\).
- ✔ Verdadeiro — Se \(\lambda_1=\lambda_2=\dots=\lambda_D=\lambda\), então \(\sigma^2_{\mathrm{ML}}=\frac{1}{D-M}\sum_{i=M+1}^D\lambda_i=\frac{1}{D-M}\cdot(D-M)\cdot\lambda=\lambda\) — a média de \(D-M\) cópias idênticas do mesmo valor é esse valor, para qualquer \(M<D\) escolhido.
- ✗ Falso — É exatamente o oposto: \(\sigma^2_{\mathrm{ML}}>0\) é a média dos autovalores descartados — uma quantidade real e informativa sobre a variância que de fato existe fora do subespaço retido, não um artefato de imprecisão. A PCA clássica projeta deterministicamente, ignorando essa variância residual; a PPCA a modela explicitamente. “Recuperar a PCA no limite sem ruído” mostra que a PCA é um caso particular (mais simples, sem incerteza residual) da PPCA, não que a PPCA com \(\sigma^2>0\) seja uma aproximação inferior dela.
- ✔ Verdadeiro — Ambos são fenômenos de não identificabilidade por simetria do modelo: num GMM, permutar os \(K\) rótulos de componente (trocar qual componente é chamado “1” e qual é chamado “2”) produz exatamente a mesma verossimilhança, porque a mistura é invariante à ordem dos seus componentes; na PPCA, rotacionar \(\mathbf{W}\) por qualquer \(\mathbf{R}\) ortogonal produz a mesma \(\mathbf{C}\) e a mesma \(p(\mathbf{x})\). A diferença é só a natureza da simetria (uma permutação discreta finita no GMM; uma família contínua de rotações na PPCA) — a estrutura de fundo, múltiplos parâmetros ótimos equivalentes, é a mesma.
Dica(Resposta) Teste 5 — O autoencoder linear
- ✔ Verdadeiro — Com \(M=D\), a matriz \(\mathbf{A}\) da composição codificador-decodificador pode ter posto até \(D\) — em particular, \(\mathbf{A}=\mathbf{I}\) (a identidade) é alcançável por alguma escolha de pesos (basta fatorar \(\mathbf{I}=\mathbf{A}_2\mathbf{A}_1\) com \(\mathbf{A}_1,\mathbf{A}_2\) de tamanho \(D\times D\) apropriado). Com \(\mathbf{A}=\mathbf{I}\), \(E(\mathbf{w})=\frac12\sum_n\|\mathbf{x}_n-\mathbf{x}_n\|^2=0\) — o mesmo argumento do caso-limite \(M=D\) da PCA clássica, em que qualquer base completa reconstrói cada ponto exatamente.
- ✔ Verdadeiro — O resultado de que o mínimo global do autoencoder linear compartilha o subespaço da PCA vale para qualquer \(M<D\), incluindo \(M=1\): por redução ao resultado de erro mínimo (que também vale para qualquer \(M\), inclusive \(M=1\)), o subespaço ótimo de dimensão \(1\) é gerado exatamente pelo autovetor \(\mathbf{u}_1\) de maior autovalor — o mesmo primeiro componente principal, sem nenhuma dependência dos demais componentes descartados.
- ✗ Falso — O resultado garante que o mínimo global do autoencoder linear corresponde ao mesmo subespaço ótimo de dimensão \(M\) (mesmo erro mínimo) — não que os pesos aprendidos formem a mesma base ortonormal dos autovetores de \(\mathbf{S}\). A projeção ortogonal sobre um subespaço de dimensão \(M\) é realizável por infinitas bases desse subespaço, ortonormais ou não; os vetores de peso do autoencoder “não precisam ser ortogonais nem normalizados”. A verificação numérica confirma: o erro de reconstrução do autoencoder coincide com o ótimo da PCA a \(5\) algarismos significativos, mas os cossenos dos ângulos principais entre os dois subespaços são \(\approx0{,}98\)/\(0{,}93\) — próximos de \(1\) (mesmo subespaço), não exatamente \(1\) (mesma base).
- ✔ Verdadeiro — A prova de que o mínimo do autoencoder coincide com o da PCA não compara os algoritmos de treino diretamente — mostra que o conjunto de funções alcançáveis por um (matrizes de posto \(\le M\)) coincide com o conjunto sobre o qual o outro já é o mínimo conhecido, concluindo que os mínimos coincidem. A mesma técnica de argumento (mostrar equivalência ou convergência entre duas famílias de soluções para concluir que dois problemas de otimização, formalmente diferentes, têm o mesmo minimizador) aparece ao mostrar que a solução de Ridge \((\mathbf{X}^T\mathbf{X}+\lambda\mathbf{I})^{-1}\mathbf{X}^T\mathbf{y}\) converge à solução de mínimos quadrados ordinários \((\mathbf{X}^T\mathbf{X})^{-1}\mathbf{X}^T\mathbf{y}\) quando \(\lambda\to0\) — dois problemas de otimização diferentes, unificados no limite.
Dica(Resposta) Teste 6 — Limitação estrutural comum e o papel do ELBO em modelos não lineares
- ✔ Verdadeiro — As três ferramentas resolvem, comprovadamente, o mesmo problema linear (maximizar variância projetada / minimizar erro de reconstrução sob restrição de subespaço linear), então concordam entre si mesmo diante de dados curvos — mas a limitação não é de uma técnica isolada, é da classe inteira de soluções lineares: nenhuma delas consegue representar uma variedade curva com um subespaço plano.
- ✔ Verdadeiro — Se os dados vivem exatamente num subespaço de dimensão \(M\), os \(D-M\) autovalores associados às direções ortogonais a esse subespaço são todos zero (nenhuma variância fora dele) — logo \(J^\star=\sum_{i=M+1}^D\lambda_i=0\) (PCA clássica); \(\sigma^2_{\mathrm{ML}}=\frac{1}{D-M}\sum_{i=M+1}^D\lambda_i=0\) (PPCA, o caso-limite \(\sigma^2\to0\) atingido exatamente, não só no limite); e o autoencoder linear atinge o mesmo mínimo \(J^\star=0\). Os três coincidem porque resolvem o mesmo problema de otimização, e esse problema já tem solução exata (erro zero) nesse caso particular.
- ✗ Falso — Para a arquitetura rasa com ativação linear vale exatamente o oposto: o autoencoder não é “mais poderoso” que a PCA nesse regime — ele resolve, comprovadamente, o mesmo problema de otimização, com o mesmo mínimo global (mesmo subespaço, mesmo erro mínimo \(J^\star\)), nunca um resultado melhor. “Estritamente mais poderoso” só passa a valer com arquiteturas não lineares e mais profundas — não com o autoencoder linear raso desta aula, cujo teto de desempenho é, comprovadamente, o mesmo da PCA.
- ✔ Verdadeiro — Camadas adicionais de unidades não lineares escapam da limitação linear identificada nesta aula; nesse regime, a mesma variável latente contínua \(\mathbf{z}\) passa a se relacionar com \(\mathbf{x}\) por uma rede neural não linear em vez de uma transformação linear \(\mathbf{W}\) — o que faz a posterior \(p(\mathbf{z}\mid\mathbf{x})\) deixar de ter forma fechada (ao contrário da PPCA, cuja posterior Gaussiana é exatamente calculável), exigindo de volta o ELBO como critério de ajuste, com \(q\) aproximado por uma família tratável em vez de calculado exatamente por Bayes.