Aula 7: Convexidade e a Matriz Hessiana
Álgebra Linear e Otimização para Aprendizado de Máquina
1 Revisão e Introdução
1.1 Revisão: O Que as Aulas 4–6 Deixaram Pronto
Da Aula 6 — o gradiente e o ponto crítico. Para \(f:\mathbb{R}^n\to\mathbb{R}\) diferenciável, o gradiente \(\nabla f(\mathbf{x})\) é o vetor-linha das derivadas parciais (convenção do MathML, a mesma da Aula 6). Ele resume toda a informação de primeira ordem: a derivada de \(f\) ao longo de uma direção \(\mathbf{v}\) é o produto \(\nabla f(\mathbf{x})\,\mathbf{v}\), o que vimos pela regra da cadeia aplicada a \(g(t)=f(\mathbf{x}+t\mathbf{v})\), que dá \(g'(0)=\nabla f(\mathbf{x})\,\mathbf{v}\). Para a perda do problema-fio, \(L(\boldsymbol\beta)=\|X\boldsymbol\beta-\mathbf{y}\|^2\), a regra da cadeia com o Jacobiano do resíduo (\(J_{\mathbf r}=X\)) deu \[ \nabla_{\boldsymbol\beta}L=2(X\boldsymbol\beta-\mathbf{y})^TX . \] Um ponto crítico é onde \(\nabla f=\mathbf{0}\): nenhuma direção muda \(f\) em primeira ordem. A Aula 6 terminou com a ressalva que abre esta aula: ponto crítico não é, por si só, mínimo. Pode ser máximo ou sela.
Da Aula 4 — matrizes semidefinidas positivas. Uma matriz simétrica \(A\) é semidefinida positiva (\(A\succeq0\)) se \(\mathbf{v}^TA\mathbf{v}\ge0\) para todo \(\mathbf{v}\), e definida positiva (\(A\succ0\)) se a desigualdade é estrita para \(\mathbf{v}\ne\mathbf{0}\). Pelo Teorema Espectral, \(A=Q\Lambda Q^T\), e o quociente de Rayleigh fica entre os autovalores extremos: \[ \lambda_{\min}(A)\le\frac{\mathbf{v}^TA\mathbf{v}}{\mathbf{v}^T\mathbf{v}}\le\lambda_{\max}(A). \] Por isso \(A\succeq0\iff\lambda_{\min}\ge0\) e \(A\succ0\iff\lambda_{\min}>0\): o sinal de uma forma quadrática em todas as direções se lê nos autovalores.
Das Aulas 2, 3 e 5 — posto e condicionamento. A solução das equações normais \(X^TX\hat{\boldsymbol\beta}=X^T\mathbf{y}\) (Aula 3) é única quando \(X\) tem posto coluna completo (Aula 2). Na Aula 5 medimos quão perto o problema-fio está de perder essa unicidade: \(\text{cond}(X^TX)=\lambda_{\max}/\lambda_{\min}\approx 23\,460{,}5\), puxado pelo par quase colinear AveRooms/AveBedrms (correlação \(0{,}87\)).
1.2 Ideia Central
O gradiente é informação de primeira ordem: diz se a função está parada, não que forma ela tem em volta. A ideia desta aula é olhar a segunda ordem, isto é, como o próprio gradiente muda de um ponto para outro. Essa informação cabe numa matriz simétrica, a Hessiana, e o vocabulário da Aula 4 (autovalores, \(A\succeq0\)) passa a descrever a curvatura da perda. Quando a Hessiana é semidefinida positiva em todo ponto, a função é convexa, e numa função convexa todo ponto crítico é mínimo global. Esse é o tipo de garantia que a regressão linear tem e que uma rede neural profunda não tem.
1.3 Roteiro da Aula
Quatro perguntas organizam a aula:
- O que é uma função convexa, e por que, nela, “gradiente nulo” passa a significar “mínimo global”? (Bloco 1)
- Como medir a curvatura de uma função de várias variáveis, e como ela decide se a função é convexa? (Bloco 2: a Hessiana)
- A perda da regressão linear é convexa? E o que acontece quando o mínimo existe, mas não é único? (Bloco 3)
- Por que a regularização Ridge garante um minimizador único, mesmo com colunas colineares? (Bloco 4)
1.4 Problema Motivador: Infinitas Soluções Com a Mesma Perda
Acrescente ao problema-fio uma coluna que alguém poderia construir de boa-fé: AveOtherRooms \(=\) AveRooms \(-\) AveBedrms, a média de cômodos que não são quartos. A nova matriz \(X_5\in\mathbb{R}^{16640\times5}\) tem posto \(4\), porque a quinta coluna é combinação linear das outras. Em números, com \(\mathbf{n}=(0,0,-1,1,1)\), vale \(X_5\mathbf{n}=\mathbf{0}\): \(-\)AveRooms \(+\) AveBedrms \(+\) AveOtherRooms \(=0\) em toda linha.
Partindo de uma solução de mínimos quadrados \(\boldsymbol\beta^\star\) e andando ao longo de \(\mathbf{n}\), a perda não muda:
| \(t\) | \(\boldsymbol\beta^\star+t\,\mathbf{n}\) (coeficientes de AveRooms, AveBedrms, AveOtherRooms) |
\(L\) |
|---|---|---|
| \(0\) | \(0{,}135\), \(0{,}459\), \(-0{,}324\) | \(10\,299{,}39\) |
| \(10\) | \(-9{,}865\), \(10{,}459\), \(9{,}676\) | \(10\,299{,}39\) |
| \(100\) | \(-99{,}865\), \(100{,}459\), \(99{,}676\) | \(10\,299{,}39\) |
Todos esses vetores têm gradiente nulo, a mesma perda e coeficientes completamente diferentes: num deles cada quarto a mais “aumenta” o preço em \(100\) unidades; em outro, em menos de \(1\). E np.linalg.solve resolve \(X_5^TX_5\boldsymbol\beta=X_5^T\mathbf{y}\) sem emitir erro, com \(\text{cond}(X_5^TX_5)\approx2{,}1\cdot 10^{17}\): a resposta que ele devolve é só uma entre infinitas, escolhida por erro de arredondamento.
A pergunta desta aula: como saber, antes de rodar qualquer algoritmo, se um ponto crítico é mínimo, se é o único mínimo e se é global?
1.5 Pausa Ativa — Coeficientes que Empatam
Pense no que significa “um quarto a mais, mantidas as demais colunas fixas” quando AveOtherRooms é definida a partir de AveRooms e AveBedrms.
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
- □ Se \(\nabla L(\boldsymbol\beta)=\mathbf{0}\) para uma perda \(L\) qualquer, então \(\boldsymbol\beta\) é necessariamente um minimizador de \(L\).
- □ Num modelo linear em que uma coluna é a mesma renda registrada em reais e outra em milhares de reais, os coeficientes deixam de ser únicos, mas as predições \(X\boldsymbol\beta\) de todos os minimizadores coincidem.
- □ Se
np.linalg.solvedevolve uma resposta sem erro para \(X^TX\boldsymbol\beta=X^T\mathbf{y}\), então esse sistema tinha solução única. - □ Acrescentar a \(X\) uma coluna que é combinação linear das demais pode diminuir o menor valor atingível da perda de treino.
2 Intuição — Tigela, Sela e Vale Plano
Antes de qualquer definição, vale olhar três funções quadráticas de duas variáveis, \(f(\mathbf{x})=\tfrac12\mathbf{x}^TP\mathbf{x}\), todas com ponto crítico na origem. A única coisa que muda entre elas é a matriz simétrica \(P\), e com ela os sinais dos autovalores:
- Tigela (\(P\) com autovalores \(2\) e \(1\), ambos positivos): a função sobe em qualquer direção que se saia da origem. A origem é o único mínimo, e é global.
- Sela (autovalores \(2\) e \(-1\)): sobe numa direção e desce na outra. O gradiente é nulo na origem, mas ela não é mínimo nem máximo.
- Vale plano (autovalores \(2\) e \(0\)): sobe numa direção e é constante na outra. Todo ponto da reta do fundo do vale é mínimo global. Existe mínimo, mas não é único. É exatamente a situação do Problema Motivador, em cinco dimensões.
O resto da aula transforma essa leitura visual em teoremas. O Bloco 1 diz o que a forma “tigela” tem de especial (convexidade), o Bloco 2 mostra que a matriz que decide a forma é a Hessiana, e os Blocos 3 e 4 aplicam isso à perda do problema-fio.
3 Bloco 1: Convexidade e a Condição de Primeira Ordem
3.1 Conjuntos
Premissa do bloco. Trabalhamos em \(\mathbb{R}^n\). Quando precisarmos de derivadas, suporemos o domínio aberto e \(f\) diferenciável.
Convexidade de funções é definida a partir de convexidade de conjuntos, então começamos pelos conjuntos.
É a noção usual de conjunto da matemática, suficiente para o curso (não faremos teoria axiomática). Exemplos que voltam nesta aula: o semiespaço \(\{\mathbf{x}\mid\mathbf{a}^T\mathbf{x}\le b\}\), a bola \(\{\mathbf{x}\mid\|\mathbf{x}-\mathbf{c}\|\le r\}\), o núcleo \(\mathcal{N}(X)=\{\mathbf{v}\mid X\mathbf{v}=\mathbf{0}\}\) (Aula 2) e o conjunto dos minimizadores de uma função.
Convexidade pede uma noção de “caminho reto” entre dois pontos. Para \(\mathbf{x},\mathbf{y}\in\mathbb{R}^n\), o segmento entre eles é \[ [\mathbf{x},\mathbf{y}]=\{\theta\mathbf{x}+(1-\theta)\mathbf{y}\mid\theta\in[0,1]\}. \] Com \(\theta=1\) estamos em \(\mathbf{x}\), com \(\theta=0\) em \(\mathbf{y}\), e \(\theta=\tfrac12\) dá o ponto médio. Um ponto \(\theta\mathbf{x}+(1-\theta)\mathbf{y}\) com \(\theta\in[0,1]\) é uma combinação convexa de \(\mathbf{x}\) e \(\mathbf{y}\).
3.2 Conjuntos Convexos e Não Convexos
A definição tem um “para todo”, e a sua negação, um “existe”. Isso guia as provas: para mostrar que um conjunto é convexo é preciso um argumento que valha para todos os pares e todos os \(\theta\); para mostrar que não é, basta um contraexemplo. (O conjunto vazio e um conjunto com um único ponto são convexos: não há par que falhe.)
Exemplo 1 — o semiespaço é convexo (Boyd, §2.2.1, p. 27). Seja \(H=\{\mathbf{x}\mid\mathbf{a}^T\mathbf{x}\le b\}\). Tome \(\mathbf{x},\mathbf{y}\in H\) e \(\theta\in[0,1]\). Pela linearidade do produto interno, \[ \mathbf{a}^T(\theta\mathbf{x}+(1-\theta)\mathbf{y}) =\theta\,\mathbf{a}^T\mathbf{x}+(1-\theta)\,\mathbf{a}^T\mathbf{y} \le\theta b+(1-\theta)b=b, \] em que a desigualdade usa \(\theta\ge0\) e \(1-\theta\ge0\). Logo o ponto está em \(H\). O mesmo argumento, com igualdades no lugar de \(\le\), mostra que hiperplanos e o núcleo \(\mathcal{N}(X)\) são convexos.
Exemplo 2 — a bola é convexa (Boyd, §2.2.2, p. 30). Se \(\|\mathbf{x}-\mathbf{c}\|\le r\) e \(\|\mathbf{y}-\mathbf{c}\|\le r\), pela desigualdade triangular e pela homogeneidade da norma, \[ \|\theta\mathbf{x}+(1-\theta)\mathbf{y}-\mathbf{c}\| =\|\theta(\mathbf{x}-\mathbf{c})+(1-\theta)(\mathbf{y}-\mathbf{c})\| \le\theta\|\mathbf{x}-\mathbf{c}\|+(1-\theta)\|\mathbf{y}-\mathbf{c}\|\le r. \]
Exemplo 3 — o anel não é convexo. Seja \(A=\{\mathbf{x}\in\mathbb{R}^2\mid1\le\|\mathbf{x}\|\le2\}\). Os pontos \(\mathbf{x}=(\tfrac32,0)\) e \(\mathbf{y}=(-\tfrac32,0)\) estão em \(A\), mas com \(\theta=\tfrac12\) a combinação é \(\mathbf{0}\), e \(\|\mathbf{0}\|=0<1\).
Exemplo 4 — a união de convexos pode não ser convexa. Em \(\mathbb{R}\), \([0,1]\cup[2,3]\) contém \(1\) e \(2\), mas não o ponto médio \(\tfrac32\). Já a interseção de convexos é sempre convexa (Boyd, §2.3.1, p. 36): se \(\mathbf{x},\mathbf{y}\in C_1\cap C_2\), o segmento está em \(C_1\) (que é convexo) e em \(C_2\) (idem), logo em \(C_1\cap C_2\). Esse fato volta no fim do bloco.
A figura mostra os quatro exemplos em \(\mathbb{R}^2\); nos não convexos, o trecho do segmento que sai do conjunto está em vermelho.
3.3 Funções, Convexidade e Epígrafe
Seguindo o Boyd, escrevemos \(f:\mathbb{R}^n\to\mathbb{R}\) mesmo quando \(\mathrm{dom}\,f\) é só uma parte de \(\mathbb{R}^n\). Mas uma função é domínio e regra: a mesma regra com domínios diferentes dá funções diferentes, e a convexidade pode mudar. A regra \(1/x^2\) restrita a \((0,\infty)\) dá uma função convexa (veremos no Bloco 2 que basta \(f''>0\) num domínio convexo); em \(\mathbb{R}\setminus\{0\}\) não é, e o motivo é que esse domínio nem é convexo (Boyd, Remark 3.1, p. 71).
O domínio precisa ser convexo para que o lado esquerdo faça sentido: o ponto \(\theta\mathbf{x}+(1-\theta)\mathbf{y}\) tem de estar em \(\mathrm{dom}\,f\). Geometricamente, a corda entre \((\mathbf{x},f(\mathbf{x}))\) e \((\mathbf{y},f(\mathbf{y}))\) fica acima do gráfico (Boyd, p. 67). Essa desigualdade é “às vezes chamada de desigualdade de Jensen” (Boyd, §3.1.8, p. 77, tradução livre), nome que vem da sua versão para médias de muitos pontos e para esperanças, \(f(\mathbb{E}\,\mathbf{x})\le\mathbb{E}\,f(\mathbf{x})\).
Exemplo — \(f(x)=x^2\) é estritamente convexa. Para \(x,y\in\mathbb{R}\) e \(\theta\in[0,1]\), expandindo o quadrado, \[ \theta x^2+(1-\theta)y^2-\big(\theta x+(1-\theta)y\big)^2=\theta(1-\theta)(x-y)^2\ge0, \] com desigualdade estrita quando \(x\ne y\) e \(0<\theta<1\).
Exemplo — \(f(x)=x^3\) não é convexa em \(\mathbb{R}\). Com \(x=-1\), \(y=0\) e \(\theta=\tfrac12\): \(f(-\tfrac12)=-\tfrac18\), mas \(\tfrac12f(-1)+\tfrac12f(0)=-\tfrac12\), e \(-\tfrac18>-\tfrac12\).
Três fatos que vamos usar sobre a classe das funções convexas (Boyd, §3.1.1, p. 67, e §3.2.1, p. 79):
- funções afins \(f(\mathbf{x})=\mathbf{a}^T\mathbf{x}+b\) são convexas e côncavas ao mesmo tempo (a desigualdade vale com igualdade);
- se \(f\) é convexa e \(\alpha\ge0\), \(\alpha f\) é convexa;
- a soma de funções convexas é convexa. Em particular, perda convexa mais penalidade convexa é convexa.
Falta a ponte entre as duas definições: convexidade de conjuntos e de funções. Ela é feita por um conjunto associado a \(f\).
“Epi” quer dizer “acima”: a epígrafe é tudo o que fica sobre o gráfico, e o gráfico é a sua borda inferior (Boyd, p. 75). Ela transforma uma função de \(\mathbb{R}^n\) num conjunto de \(\mathbb{R}^{n+1}\). Dois exemplos:
- se \(f(\mathbf{x})=\mathbf{a}^T\mathbf{x}+b\), então \(\mathrm{epi}\,f=\{(\mathbf{x},t)\mid\mathbf{a}^T\mathbf{x}-t\le-b\}\) é um semiespaço de \(\mathbb{R}^{n+1}\), convexo pelo Exemplo 1;
- se \(f(x)=x^2\), \(\mathrm{epi}\,f=\{(x,t)\mid x^2\le t\}\) é a região acima da parábola, à esquerda na figura abaixo. À direita, numa função com dois vales, o segmento entre dois pontos do gráfico passa por baixo da “corcova” e sai da epígrafe.
3.4 Epígrafe Convexa \(\iff\) Função Convexa
O Boyd enuncia o resultado (“a ligação entre conjuntos convexos e funções convexas é pela epígrafe”, p. 75, tradução livre) sem demonstrá-lo. A ideia: dois pontos do gráfico estão na epígrafe, e o segmento entre eles em \(\mathbb{R}^{n+1}\) é exatamente a corda. “A corda fica acima do gráfico” e “a corda fica dentro da epígrafe” são a mesma frase.
Demonstração. Os dois sentidos usam que a combinação convexa de pares se faz coordenada a coordenada: \[ \theta(\mathbf{x},s)+(1-\theta)(\mathbf{y},t)=\big(\theta\mathbf{x}+(1-\theta)\mathbf{y},\ \theta s+(1-\theta)t\big). \tag{$*$} \]
(\(\Rightarrow\)) Suponha \(f\) convexa. Tome \((\mathbf{x},s),(\mathbf{y},t)\in\mathrm{epi}\,f\), \(\theta\in[0,1]\) e \(\mathbf{z}=\theta\mathbf{x}+(1-\theta)\mathbf{y}\).
Passo 1 — o que a hipótese dá. Pela definição de epígrafe, \(\mathbf{x},\mathbf{y}\in\mathrm{dom}\,f\), \(f(\mathbf{x})\le s\) e \(f(\mathbf{y})\le t\).
Passo 2 — \(\mathbf{z}\) está no domínio, porque \(\mathrm{dom}\,f\) é convexo (faz parte da definição de função convexa).
Passo 3 — a altura. Pela convexidade de \(f\), e depois multiplicando \(f(\mathbf{x})\le s\) por \(\theta\ge0\), \(f(\mathbf{y})\le t\) por \(1-\theta\ge0\) e somando, \[ f(\mathbf{z})\le\theta f(\mathbf{x})+(1-\theta)f(\mathbf{y})\le\theta s+(1-\theta)t. \]
Passo 4 — conclusão. Por \((*)\), a combinação dos dois pontos é \((\mathbf{z},\theta s+(1-\theta)t)\), que satisfaz as duas condições da epígrafe (Passos 2 e 3). Logo \(\mathrm{epi}\,f\) é convexo.
(\(\Leftarrow\)) Suponha \(\mathrm{epi}\,f\) convexo. Tome \(\mathbf{x},\mathbf{y}\in\mathrm{dom}\,f\), \(\theta\in[0,1]\) e \(\mathbf{z}=\theta\mathbf{x}+(1-\theta)\mathbf{y}\).
Passo 1 — pontos do gráfico estão na epígrafe. \((\mathbf{x},f(\mathbf{x}))\) e \((\mathbf{y},f(\mathbf{y}))\) pertencem a \(\mathrm{epi}\,f\), pois \(f(\mathbf{x})\le f(\mathbf{x})\).
Passo 2 — usar a convexidade da epígrafe. A combinação convexa dos dois pontos está em \(\mathrm{epi}\,f\); por \((*)\), isso diz \[ \big(\mathbf{z},\ \theta f(\mathbf{x})+(1-\theta)f(\mathbf{y})\big)\in\mathrm{epi}\,f. \]
Passo 3 — ler a definição de epígrafe. Pertencer a \(\mathrm{epi}\,f\) significa duas coisas: \(\mathbf{z}\in\mathrm{dom}\,f\), logo \(\mathrm{dom}\,f\) é convexo; e \(f(\mathbf{z})\le\theta f(\mathbf{x})+(1-\theta)f(\mathbf{y})\), que é a desigualdade da definição. Logo \(f\) é convexa. \(\blacksquare\)
No sentido (\(\Leftarrow\)), a convexidade do domínio vem de graça. É por isso que a definição de função convexa exige domínio convexo: sem essa exigência o teorema seria falso.
Consequência — o máximo de funções convexas é convexo (Boyd, §3.2.3, pp. 80–81). Sejam \(f_1,f_2\) convexas e \(f(\mathbf{x})=\max\{f_1(\mathbf{x}),f_2(\mathbf{x})\}\), com \(\mathrm{dom}\,f=\mathrm{dom}\,f_1\cap\mathrm{dom}\,f_2\). Como \(\max\{a,b\}\le t\) se, e somente se, \(a\le t\) e \(b\le t\), \[ \mathrm{epi}\,f=\mathrm{epi}\,f_1\cap\mathrm{epi}\,f_2 . \] Pelo teorema, as duas epígrafes são convexas; a interseção de convexos é convexa (Exemplo 4); e, pelo teorema de novo, \(f\) é convexa. Assim \(|x|=\max\{x,-x\}\) e a perda hinge \(\max\{0,\,1-z\}\), máximos de funções afins, são convexas sem nenhuma conta, e nenhuma delas é diferenciável em todo ponto.
3.5 A Condição de Primeira Ordem
A definição fala de cordas. Para funções diferenciáveis existe uma caracterização equivalente, com a reta (ou o hiperplano) tangente, e é ela que liga convexidade ao gradiente da Aula 6.
Aviso de notação: o Boyd escreve \(\nabla f(\mathbf{x})^T(\mathbf{y}-\mathbf{x})\) porque lá o gradiente é coluna. Com a nossa convenção (gradiente-linha), o produto \(\nabla f(\mathbf{x})\,(\mathbf{y}-\mathbf{x})\) já é um número.
O lado direito é a aproximação de Taylor de primeira ordem de \(f\) em torno de \(\mathbf{x}\). O teorema diz que, numa função convexa, essa aproximação nunca superestima \(f\), em nenhum ponto do domínio, não só perto de \(\mathbf{x}\). O Boyd chama isso de “talvez a propriedade mais importante das funções convexas” (p. 69, tradução livre): de uma informação local (valor e gradiente num ponto) sai uma cota global. Na linguagem da epígrafe: o hiperplano tangente ao gráfico em \((\mathbf{x},f(\mathbf{x}))\) deixa \(\mathrm{epi}\,f\) inteira de um lado só (Boyd, §3.1.7, p. 76, e Figura 3.6).
Demonstração (segue Boyd, pp. 69–70, com a nossa notação).
(\(\Rightarrow\)) Suponha \(f\) convexa e fixe \(\mathbf{x},\mathbf{y}\).
Passo 1 — convexidade com \(\theta=1-t\). Para \(0<t\le1\), o ponto \(\mathbf{x}+t(\mathbf{y}-\mathbf{x})=(1-t)\mathbf{x}+t\mathbf{y}\) está no domínio, e \[ f(\mathbf{x}+t(\mathbf{y}-\mathbf{x}))\le(1-t)f(\mathbf{x})+t\,f(\mathbf{y}). \]
Passo 2 — isolar a razão incremental. Subtraindo \(f(\mathbf{x})\) dos dois lados e dividindo por \(t>0\): \[ \frac{f(\mathbf{x}+t(\mathbf{y}-\mathbf{x}))-f(\mathbf{x})}{t}\le f(\mathbf{y})-f(\mathbf{x}). \]
Passo 3 — limite \(t\to0^+\). O lado esquerdo é a razão incremental de \(g(t)=f(\mathbf{x}+t(\mathbf{y}-\mathbf{x}))\) em \(t=0\), e converge para \(g'(0)=\nabla f(\mathbf{x})\,(\mathbf{y}-\mathbf{x})\) pela regra da cadeia (Aula 6). Logo \(f(\mathbf{y})\ge f(\mathbf{x})+\nabla f(\mathbf{x})(\mathbf{y}-\mathbf{x})\).
(\(\Leftarrow\)) Suponha a desigualdade para todos os pares. Fixe \(\mathbf{x},\mathbf{y}\), \(\theta\in[0,1]\) e \(\mathbf{z}=\theta\mathbf{x}+(1-\theta)\mathbf{y}\).
Passo 1 — aplicar a hipótese duas vezes, a partir de \(\mathbf{z}\): \[ f(\mathbf{x})\ge f(\mathbf{z})+\nabla f(\mathbf{z})(\mathbf{x}-\mathbf{z}),\qquad f(\mathbf{y})\ge f(\mathbf{z})+\nabla f(\mathbf{z})(\mathbf{y}-\mathbf{z}). \]
Passo 2 — combinar com pesos \(\theta\) e \(1-\theta\) e somar: \[ \theta f(\mathbf{x})+(1-\theta)f(\mathbf{y})\ge f(\mathbf{z})+\nabla f(\mathbf{z})\big(\theta\mathbf{x}+(1-\theta)\mathbf{y}-\mathbf{z}\big). \]
Passo 3 — o termo do gradiente some, porque \(\theta\mathbf{x}+(1-\theta)\mathbf{y}-\mathbf{z}=\mathbf{0}\) pela definição de \(\mathbf{z}\). Sobra \(\theta f(\mathbf{x})+(1-\theta)f(\mathbf{y})\ge f(\mathbf{z})\), que é a definição de convexidade. \(\blacksquare\)
3.6 O Resultado Central do Bloco
Demonstração. Substitua \(\nabla f(\mathbf{x}^\star)=\mathbf{0}\) na condição de primeira ordem: \(f(\mathbf{y})\ge f(\mathbf{x}^\star)+\mathbf{0}\,(\mathbf{y}-\mathbf{x}^\star)=f(\mathbf{x}^\star)\) para todo \(\mathbf{y}\). \(\blacksquare\)
Este é o resultado central do bloco: em função convexa não existe sela nem mínimo local “falso”. Um resultado aparentado, sem exigir diferenciabilidade, é que em problemas convexos todo ótimo local é global (Boyd, §4.2.2, p. 138). A figura abaixo contrasta os dois comportamentos: à esquerda, a corda fica acima e a tangente fica abaixo do gráfico; à direita, numa função com dois vales, a corda cruza o gráfico por baixo e a tangente num ponto crítico do vale mais alto não é cota inferior.
3.7 Pausa Ativa — Dois Minimizadores?
Aplique a definição com \(\theta=\tfrac12\) aos dois minimizadores e compare com o valor mínimo.
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
- □ Toda função afim \(f(\mathbf{x})=\mathbf{a}^T\mathbf{x}+b\) é convexa e côncava ao mesmo tempo.
- □ Se \(\mathrm{epi}\,f\) é um conjunto convexo, \(\mathrm{dom}\,f\) pode mesmo assim não ser convexo.
- □ Somar a uma perda de treino convexa uma penalidade convexa sobre os parâmetros produz uma função objetivo convexa.
- □ Uma função convexa e diferenciável pode ter um ponto de gradiente nulo que não seja minimizador global.
4 Bloco 2: A Hessiana e a Condição de Segunda Ordem
4.1 A Matriz Hessiana
Premissa do bloco. Agora \(f\) é duas vezes continuamente diferenciável num domínio aberto e convexo.
Duas leituras dessa definição, ambas úteis:
- Linha a linha, a Hessiana é o Jacobiano do gradiente (Aula 6): derivar cada componente de \(\nabla f\) em relação a cada variável.
- Simetria. Se \(f\) é duas vezes continuamente diferenciável, a ordem das derivadas parciais não importa, \(\frac{\partial^2 f}{\partial x_i\partial x_j}=\frac{\partial^2 f}{\partial x_j\partial x_i}\) (MathML, eq. 5.146, p. 165; o resultado é conhecido como Teorema de Schwarz, ou de Clairaut). Logo a Hessiana é uma matriz simétrica, e tudo da Aula 4 se aplica a ela: autovalores reais, autovetores ortonormais, definitude lida nos autovalores. O MathML resume: “a Hessiana mede a curvatura da função localmente” (p. 165, tradução livre).
4.2 Curvatura ao Longo de uma Reta
A ponte entre a Hessiana e a convexidade é restringir \(f\) a uma reta. Fixe \(\mathbf{x}\) e uma direção \(\mathbf{v}\) e defina \(g(t)=f(\mathbf{x}+t\mathbf{v})\).
Passo 1 — primeira derivada (regra da cadeia, Aula 6): \[ g'(t)=\nabla f(\mathbf{x}+t\mathbf{v})\,\mathbf{v}=\sum_{i=1}^n\frac{\partial f}{\partial x_i}(\mathbf{x}+t\mathbf{v})\,v_i . \]
Passo 2 — segunda derivada, aplicando a regra da cadeia a cada parcial \(\frac{\partial f}{\partial x_i}(\mathbf{x}+t\mathbf{v})\): \[ g''(t)=\sum_{i=1}^n\sum_{j=1}^n\frac{\partial^2 f}{\partial x_j\,\partial x_i}(\mathbf{x}+t\mathbf{v})\,v_j\,v_i =\mathbf{v}^T\,\nabla^2 f(\mathbf{x}+t\mathbf{v})\,\mathbf{v}. \]
A forma quadrática \(\mathbf{v}^T\nabla^2f\,\mathbf{v}\) é a curvatura de \(f\) na direção \(\mathbf{v}\): a segunda derivada da função de uma variável que se obtém andando ao longo de \(\mathbf{v}\). Pelo quociente de Rayleigh (Aula 4), para \(\|\mathbf{v}\|=1\) ela fica entre \(\lambda_{\min}\) e \(\lambda_{\max}\) da Hessiana: os autovalores são as curvaturas extremas, e os autovetores, as direções em que elas ocorrem.
4.3 A Condição de Segunda Ordem
O Boyd deixa a prova como exercício (Exercício 3.8). A demonstração abaixo é nossa, montada com a condição de primeira ordem e com o Teorema de Taylor em uma variável com resto de Lagrange (\(g(1)=g(0)+g'(0)+\tfrac12g''(\xi)\) para algum \(\xi\in(0,1)\), de Cálculo I).
Demonstração. (\(\Leftarrow\)) Suponha \(\nabla^2 f\succeq0\) em todo o domínio e fixe \(\mathbf{x},\mathbf{y}\). Tome \(\mathbf{v}=\mathbf{y}-\mathbf{x}\) e \(g(t)=f(\mathbf{x}+t\mathbf{v})\).
- Passo 1 — Taylor com resto: \(g(1)=g(0)+g'(0)+\tfrac12g''(\xi)\), com \(\xi\in(0,1)\).
- Passo 2 — traduzir cada termo (Passos 1 e 2 da seção anterior): \[ f(\mathbf{y})=f(\mathbf{x})+\nabla f(\mathbf{x})(\mathbf{y}-\mathbf{x})+\tfrac12(\mathbf{y}-\mathbf{x})^T\nabla^2f(\mathbf{x}+\xi\mathbf{v})(\mathbf{y}-\mathbf{x}). \]
- Passo 3 — o último termo é \(\ge0\), porque a Hessiana é semidefinida positiva no ponto \(\mathbf{x}+\xi\mathbf{v}\) (que está no domínio, por ser convexo). Logo \(f(\mathbf{y})\ge f(\mathbf{x})+\nabla f(\mathbf{x})(\mathbf{y}-\mathbf{x})\), e a condição de primeira ordem dá a convexidade.
(\(\Rightarrow\)) Suponha \(f\) convexa e fixe \(\mathbf{x}\) e \(\mathbf{v}\).
- Passo 1 — \(g\) é convexa: pontos da reta \(\{\mathbf{x}+t\mathbf{v}\}\) combinados convexamente continuam na reta, então a desigualdade da definição vale para \(g\).
- Passo 2 — \(g'\) é não decrescente. Aplicando a condição de primeira ordem a \(g\) nos pares \((s,t)\) e \((t,s)\): \(g(s)\ge g(t)+g'(t)(s-t)\) e \(g(t)\ge g(s)+g'(s)(t-s)\). Somando, \(0\ge (g'(t)-g'(s))(s-t)\), isto é, \((g'(s)-g'(t))(s-t)\ge0\).
- Passo 3 — derivada de função não decrescente é \(\ge0\): \(g''(0)\ge0\), ou seja, \(\mathbf{v}^T\nabla^2f(\mathbf{x})\mathbf{v}\ge0\). Como \(\mathbf{v}\) é arbitrário, \(\nabla^2f(\mathbf{x})\succeq0\). \(\blacksquare\)
Convexidade estrita tem só uma das direções. Se \(\nabla^2 f(\mathbf{x})\succ0\) em todo ponto, \(f\) é estritamente convexa (no Passo 3 acima, o termo de resto fica \(>0\) para \(\mathbf{y}\ne\mathbf{x}\)). A recíproca é falsa: \(f(x)=x^4\) é estritamente convexa, mas \(f''(0)=0\) (Boyd, p. 71). E a hipótese de domínio convexo não pode ser retirada: \(f(x)=1/x^2\) em \(\{x\ne0\}\) tem \(f''>0\) em todo ponto e não é convexa (Boyd, Observação 3.1, p. 71).
4.4 Funções Quadráticas: a Taylor é Exata
Para \(f(\mathbf{x})=\tfrac12\mathbf{x}^TP\mathbf{x}+\mathbf{q}^T\mathbf{x}+r\), com \(P\) simétrica, não é preciso resto de Lagrange: basta expandir.
Passo 1 — expandir \(f(\mathbf{x}+\mathbf{v})\): \[ f(\mathbf{x}+\mathbf{v})=\tfrac12(\mathbf{x}+\mathbf{v})^TP(\mathbf{x}+\mathbf{v})+\mathbf{q}^T(\mathbf{x}+\mathbf{v})+r . \]
Passo 2 — distribuir e usar a simetria, \(\mathbf{v}^TP\mathbf{x}=(\mathbf{v}^TP\mathbf{x})^T=\mathbf{x}^TP^T\mathbf{v}=\mathbf{x}^TP\mathbf{v}\): \[ f(\mathbf{x}+\mathbf{v})=f(\mathbf{x})+(\mathbf{x}^TP+\mathbf{q}^T)\,\mathbf{v}+\tfrac12\mathbf{v}^TP\mathbf{v}. \]
O termo linear em \(\mathbf{v}\) é o gradiente, \(\nabla f(\mathbf{x})=\mathbf{x}^TP+\mathbf{q}^T\), e o termo quadrático identifica a Hessiana, \(\nabla^2f(\mathbf{x})=P\), constante. Daí o Exemplo 3.2 do Boyd (p. 71): \(f\) é convexa se, e somente se, \(P\succeq0\), e estritamente convexa se, e somente se, \(P\succ0\).
A expansão também classifica os pontos críticos, exatamente, sem aproximação. Se \(\nabla f(\mathbf{x}^\star)=\mathbf{0}\), então \(f(\mathbf{x}^\star+\mathbf{v})=f(\mathbf{x}^\star)+\tfrac12\mathbf{v}^TP\mathbf{v}\):
- \(P\succ0\): \(f\) cresce em toda direção. \(\mathbf{x}^\star\) é o único minimizador (a tigela).
- \(P\) com autovalores de sinais opostos: ao longo de um autovetor de autovalor negativo, \(f\) decresce. \(\mathbf{x}^\star\) é uma sela.
- \(P\succeq0\) com autovalor zero: \(f\) é constante ao longo do núcleo de \(P\). Os minimizadores formam \(\mathbf{x}^\star+\mathcal{N}(P)\) (o vale plano).
Para uma \(f\) qualquer (não quadrática) em torno de um ponto crítico, a mesma leitura vale localmente quando a Hessiana é definida positiva ou indefinida. É o teste da segunda derivada multivariado, que citamos sem demonstrar aqui. Quando a Hessiana é só semidefinida, a segunda ordem não decide (lembre de \(x^4\) e \(-x^4\), ambos com \(f''(0)=0\)).
4.5 Pausa Ativa — Lendo a Hessiana num Ponto Crítico
Para uma quadrática, \(f(\mathbf{x}^\star+\mathbf{v})=f(\mathbf{x}^\star)+\tfrac12\mathbf{v}^TP\mathbf{v}\); use \(\mathbf{v}=\varepsilon\,\mathbf{u}_i\), com \(\mathbf{u}_i\) autovetor unitário.
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
- □ Se \(\nabla^2f(\mathbf{x}_0)\succ0\) num único ponto \(\mathbf{x}_0\), então \(f\) é convexa em todo o domínio.
- □ \(f(x)=x^4\) é estritamente convexa, embora \(f''(0)=0\).
- □ Para \(f(\mathbf{x})=\tfrac12\mathbf{x}^TP\mathbf{x}+\mathbf{q}^T\mathbf{x}+r\) com \(P\) simétrica, a Hessiana é \(P\) em todos os pontos.
- □ Para uma perda duas vezes continuamente diferenciável em relação aos pesos de uma rede, trocar a ordem das derivadas parciais pode mudar a Hessiana.
5 Bloco 3: A Perda Quadrática do Problema-Fio
5.1 A Hessiana de \(L(\boldsymbol\beta)=\|X\boldsymbol\beta-\mathbf{y}\|^2\)
Temos agora o necessário para responder à pergunta da Aula 6. Duas rotas levam à mesma Hessiana, e vale fazer as duas.
Rota 1 — derivar o gradiente.
- Passo 1 — gradiente como coluna. Da Aula 6, \(\nabla_{\boldsymbol\beta}L=2(X\boldsymbol\beta-\mathbf{y})^TX\). Transpondo, \((\nabla_{\boldsymbol\beta}L)^T=2X^T(X\boldsymbol\beta-\mathbf{y})=2X^TX\boldsymbol\beta-2X^T\mathbf{y}\).
- Passo 2 — Jacobiano de uma função afim. \(\boldsymbol\beta\mapsto2X^TX\boldsymbol\beta-2X^T\mathbf{y}\) é afim, e o Jacobiano de \(\boldsymbol\beta\mapsto M\boldsymbol\beta+\mathbf{c}\) é \(M\) (o mesmo argumento que deu \(J_{\mathbf r}=X\) na Aula 6). Logo \[ \nabla^2_{\boldsymbol\beta}L=2X^TX, \] constante em \(\boldsymbol\beta\).
Rota 2 — expansão exata. Com \(\mathbf{r}=X\boldsymbol\beta-\mathbf{y}\),
- Passo 1: \(L(\boldsymbol\beta+\mathbf{v})=\|X\boldsymbol\beta+X\mathbf{v}-\mathbf{y}\|^2=\|\mathbf{r}+X\mathbf{v}\|^2\).
- Passo 2 — expandir o quadrado da norma, \(\|\mathbf{a}+\mathbf{b}\|^2=\|\mathbf{a}\|^2+2\mathbf{a}^T\mathbf{b}+\|\mathbf{b}\|^2\): \[ L(\boldsymbol\beta+\mathbf{v})=\underbrace{\|\mathbf{r}\|^2}_{L(\boldsymbol\beta)}+\underbrace{2\mathbf{r}^TX}_{\nabla_{\boldsymbol\beta}L}\,\mathbf{v}+\tfrac12\,\mathbf{v}^T\underbrace{(2X^TX)}_{\nabla^2_{\boldsymbol\beta}L}\,\mathbf{v}. \]
É a forma quadrática do Bloco 2, com \(P=2X^TX\). E a curvatura em qualquer direção é explícita: \[ \mathbf{v}^T(2X^TX)\mathbf{v}=2(X\mathbf{v})^T(X\mathbf{v})=2\|X\mathbf{v}\|^2\ge0 . \]
Demonstração. A convexidade vem da condição de segunda ordem, com \(2X^TX\succeq0\). Posto coluna completo significa \(\mathcal{N}(X)=\{\mathbf{0}\}\) (Aula 2), então \(2\|X\mathbf{v}\|^2>0\) para \(\mathbf{v}\ne\mathbf{0}\) e \(2X^TX\succ0\). Pelo Bloco 2 (quadráticas), a solução é única; pelo Corolário do Bloco 1, o ponto de gradiente nulo é minimizador global.
Para o item 2, seja \(\boldsymbol\beta^\star\) um minimizador.
- Todo ponto de \(\boldsymbol\beta^\star+\mathcal{N}(X)\) é minimizador. Se \(X\mathbf{n}=\mathbf{0}\), então \(L(\boldsymbol\beta^\star+\mathbf{n})=\|X\boldsymbol\beta^\star+X\mathbf{n}-\mathbf{y}\|^2=\|X\boldsymbol\beta^\star-\mathbf{y}\|^2=L(\boldsymbol\beta^\star)\).
- Não há outros. Se \(\boldsymbol\beta\) também é minimizador, os dois anulam o gradiente, \(X^TX\boldsymbol\beta=X^T\mathbf{y}=X^TX\boldsymbol\beta^\star\). Subtraindo, \(X^TX(\boldsymbol\beta-\boldsymbol\beta^\star)=\mathbf{0}\). Multiplicando à esquerda por \((\boldsymbol\beta-\boldsymbol\beta^\star)^T\), \(\|X(\boldsymbol\beta-\boldsymbol\beta^\star)\|^2=0\), logo \(\boldsymbol\beta-\boldsymbol\beta^\star\in\mathcal{N}(X)\). \(\blacksquare\)
5.2 O Vale Plano no Problema-Fio
Os autovalores de \(X^TX\) (a Hessiana dividida por 2) contam a história em números:
| Matriz | autovalores de \(X^TX\) | \(\text{cond}\) |
|---|---|---|
| \(X\) (4 colunas originais) | \(747{,}3\), \(52\,666{,}0\), \(273\,990{,}3\), \(17\,530\,938{,}8\) | \(23\,460{,}5\) |
\(X_5\) (com AveOtherRooms) |
\(8{,}3\cdot 10^{-11}\), \(1\,397{,}0\), \(55\,648{,}4\), \(410\,291{,}5\), \(17\,779\,973{,}3\) | \(2{,}1\cdot 10^{17}\) |
Com as quatro colunas originais, todos os autovalores são positivos: a perda do problema-fio é estritamente convexa, e as equações normais da Aula 3 dão o único minimizador. A curvatura, porém, varia mais de \(23\,461\) vezes entre a direção mais íngreme e a mais plana. É uma tigela muito alongada, e isso vai importar na Aula 8.
Com \(X_5\), o menor autovalor é zero a menos de arredondamento (\(8{,}3\cdot 10^{-11}\)): a direção correspondente é \(\mathbf{n}\) (a menos de escala), e a Proposição explica a tabela do Problema Motivador. A figura abaixo corta a perda num plano que passa por \(\boldsymbol\beta^\star\), gerado por \(\mathbf{n}\) normalizado e pelo autovetor do menor autovalor positivo: as curvas de nível são retas paralelas a \(\mathbf{n}\). É o vale plano da Intuição, agora em dados reais.
5.3 Pausa Ativa — Curvatura Constante
Compare “checar \(\nabla^2L\succeq0\) em um ponto” com “checar em todos os pontos” quando a Hessiana muda, ou não, com os parâmetros.
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
- □ \(\mathbf{v}^T(2X^TX)\mathbf{v}=0\) exatamente para os vetores \(\mathbf{v}\) com \(X\mathbf{v}=\mathbf{0}\).
- □ Se o número de linhas \(N\) é maior que o de colunas \(d\), a Hessiana \(2X^TX\) é necessariamente definida positiva.
- □ Quando \(X\) tem posto incompleto, o conjunto dos minimizadores de \(\|X\boldsymbol\beta-\mathbf{y}\|^2\) é sempre um subespaço vetorial (contém \(\boldsymbol\beta=\mathbf{0}\)).
- □ Treinar só a última camada linear de uma rede, com as camadas anteriores congeladas e perda quadrática, é um problema convexo nos pesos dessa camada.
6 Bloco 4: A Regularização Ridge Fecha o Vale
6.1 A Hessiana da Perda Ridge
A Ridge acrescenta à perda uma penalidade sobre o tamanho dos coeficientes: \[ L_\lambda(\boldsymbol\beta)=\|X\boldsymbol\beta-\mathbf{y}\|^2+\lambda\|\boldsymbol\beta\|^2,\qquad\lambda>0 . \]
Passo 1 — a penalidade é uma quadrática. \(\lambda\|\boldsymbol\beta\|^2=\lambda\boldsymbol\beta^T\boldsymbol\beta=\tfrac12\boldsymbol\beta^T(2\lambda I)\boldsymbol\beta\), que é a forma do Bloco 2 com \(P=2\lambda I\), \(\mathbf{q}=\mathbf{0}\), \(r=0\). Sua Hessiana é \(2\lambda I\).
Passo 2 — a Hessiana de uma soma é a soma das Hessianas (derivada é linear): \[ \nabla^2 L_\lambda=2X^TX+2\lambda I=2(X^TX+\lambda I). \]
Passo 3 — os autovalores são deslocados em \(\lambda\). Se \(X^TX\mathbf{u}=\mu\mathbf{u}\), então \[ (X^TX+\lambda I)\mathbf{u}=X^TX\mathbf{u}+\lambda\mathbf{u}=(\mu+\lambda)\,\mathbf{u}. \] Os autovetores são os mesmos, e cada autovalor sobe exatamente \(\lambda\). Como \(\mu\ge0\) (Bloco 3), todos os autovalores de \(X^TX+\lambda I\) são \(\ge\lambda>0\): a Hessiana é definida positiva, e \(L_\lambda\) é estritamente convexa, qualquer que seja o posto de \(X\). Na direção \(\mathbf{n}\) do vale plano, a curvatura passa de \(0\) para \(2\lambda\).
6.2 Existência e Unicidade do Minimizador
Convexidade estrita, sozinha, não garante que exista um minimizador (\(e^x\) é estritamente convexa e não tem mínimo). Precisamos das duas metades.
Demonstração. Se \(\mathbf{a}\ne\mathbf{b}\) fossem minimizadores com valor \(m\), a convexidade estrita com \(\theta=\tfrac12\) daria \(f(\tfrac12\mathbf{a}+\tfrac12\mathbf{b})<\tfrac12m+\tfrac12m=m\), contradizendo que \(m\) é o mínimo. \(\blacksquare\)
Demonstração.
- Passo 1 — gradiente. Somando o gradiente da Aula 6 ao da penalidade (do Bloco 2, \(\mathbf{x}^TP+\mathbf{q}^T\) com \(P=2\lambda I\)): \(\nabla L_\lambda=2(X\boldsymbol\beta-\mathbf{y})^TX+2\lambda\boldsymbol\beta^T\).
- Passo 2 — igualar a zero e transpor: \(X^TX\boldsymbol\beta-X^T\mathbf{y}+\lambda\boldsymbol\beta=\mathbf{0}\), isto é, \((X^TX+\lambda I)\boldsymbol\beta=X^T\mathbf{y}\).
- Passo 3 — existência. \(X^TX+\lambda I\) não tem autovalor zero (todos são \(\ge\lambda\)), logo é invertível e \(\boldsymbol\beta_\lambda\) existe. Pelo Corolário do Bloco 1, ele é minimizador global.
- Passo 4 — unicidade. Pelo Lema, não há outro. \(\blacksquare\)
6.3 No Problema-Fio
Aplicando a \(X_5\), que tinha um vale plano:
| \(\lambda\) | autovalores de \(X_5^TX_5+\lambda I\) (menor e maior) | \(\text{cond}\) | coef. de AveRooms, AveBedrms, AveOtherRooms |
perda de treino \(\|X_5\boldsymbol\beta_\lambda-\mathbf{y}\|^2\) |
|---|---|---|---|---|
| \(0\) | \(8{,}3\cdot 10^{-11}\) e \(1{,}8\cdot 10^{7}\) | \(2{,}1\cdot 10^{17}\) | não únicos | \(10\,299{,}39\) |
| \(1\) | \(1{,}00\) e \(1{,}8\cdot 10^{7}\) | \(1{,}8\cdot 10^{7}\) | \(0{,}1353\), \(0{,}4587\), \(-0{,}3233\) | \(10\,299{,}39\) |
| \(100\) | \(100{,}00\) e \(1{,}8\cdot 10^{7}\) | \(1{,}8\cdot 10^{5}\) | \(0{,}1249\), \(0{,}4261\), \(-0{,}3012\) | \(10\,301{,}82\) |
Três leituras da tabela:
- o menor autovalor passa de zero para \(\lambda\) (mais o autovalor original, que era zero), como o Passo 3 previu;
- existe agora um vetor de coeficientes. Entre os infinitos \(\boldsymbol\beta^\star+t\mathbf{n}\) que empatavam, a penalidade escolhe o que tem menor \(\|\boldsymbol\beta\|^2\), e por isso nenhum coeficiente dispara para \(\pm100\);
- a perda de treino sobe com \(\lambda\): a Ridge não minimiza mais \(\|X\boldsymbol\beta-\mathbf{y}\|^2\), e sim \(L_\lambda\). A unicidade vem de um critério externo aos dados, o que responde à primeira Pausa Ativa. Se esse critério é bom para prever casas que o modelo não viu é outra pergunta, que pertence à disciplina de Aprendizado Supervisionado.
A figura mostra a perda ao longo da direção \(\mathbf{n}\) do vale: plana para mínimos quadrados, parábolas com curvatura \(2\lambda\) para a Ridge.
6.4 Pausa Ativa — O Que a Ridge Escolhe
AveRooms, AveBedrms e AveOtherRooms é a verdadeira?
Pense no critério que a penalidade usa para desempatar os \(\boldsymbol\beta^\star+t\mathbf{n}\), e se esse critério tem algo a ver com casas.
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
- □ Os autovetores de \(X^TX+\lambda I\) são os mesmos de \(X^TX\).
- □ Com \(\lambda>0\), a perda Ridge tem minimizador único mesmo quando \(X\) tem mais colunas que linhas (\(d>N\)), como num modelo de texto com milhares de palavras e poucas centenas de documentos.
- □ Aumentar \(\lambda\) sempre diminui a perda de treino \(\|X\boldsymbol\beta_\lambda-\mathbf{y}\|^2\).
- □ Trocar a penalidade \(\lambda\|\boldsymbol\beta\|^2\) por \(\lambda\|\boldsymbol\beta\|_1\) preserva a garantia de Hessiana definida positiva em todo ponto.
7 Fechamento
7.1 Retomando as Quatro Perguntas
- O que é convexidade, e por que ela transforma gradiente nulo em mínimo global? Uma função é convexa quando a corda entre dois pontos do gráfico fica acima dele. Para funções diferenciáveis, isso equivale à tangente nunca superestimar a função. Com gradiente nulo, a tangente é horizontal, e a cota vira \(f(\mathbf{y})\ge f(\mathbf{x}^\star)\) para todo \(\mathbf{y}\).
- Como medir curvatura em várias variáveis? Pela Hessiana, simétrica: \(\mathbf{v}^T\nabla^2f\,\mathbf{v}\) é a curvatura na direção \(\mathbf{v}\), e seus autovalores são as curvaturas extremas. Hessiana semidefinida positiva em todo ponto equivale a convexidade.
- A perda da regressão linear é convexa? Sempre: a Hessiana é \(2X^TX\) e a curvatura é \(2\|X\mathbf{v}\|^2\ge0\). O minimizador é único se, e somente se, \(X\) tem posto coluna completo. Senão, os minimizadores formam \(\boldsymbol\beta^\star+\mathcal{N}(X)\), como com
AveOtherRooms. - Por que a Ridge garante minimizador único? A penalidade soma \(2\lambda I\) à Hessiana, desloca todos os autovalores em \(\lambda\) e torna a perda estritamente convexa; \(X^TX+\lambda I\) é invertível, o que dá a existência. O desempate é um critério nosso, não dos dados.
7.2 O Que Fica em Aberto
- Perdas não convexas. Numa rede com camadas ocultas, a Hessiana depende dos pesos e pode ser indefinida: há selas e vales distintos, e nenhum resultado desta aula se aplica ao problema inteiro.
- O custo de resolver. Esta aula garantiu que existe um único mínimo. Ela não disse como chegar lá quando resolver \((X^TX+\lambda I)\boldsymbol\beta=X^T\mathbf{y}\) diretamente é caro demais, nem quanto a tigela alongada do problema-fio (\(\text{cond}\approx23\,460{,}5\)) atrapalha um método iterativo.
7.3 Ponte para a Aula 8
A Aula 8 constrói o método iterativo mais simples: dar passos na direção oposta ao gradiente (a direção de maior descida, da Aula 6). A convexidade desta aula garante que, se o método chegar a um ponto de gradiente nulo, chegou ao mínimo global. A Hessiana vai reaparecer para dizer com que tamanho de passo e em quantos passos: seus autovalores extremos controlam a velocidade, e o número de condição mede o quanto o caminho ziguezagueia numa tigela alongada.