Soluções — Aula 1: Computação como Sistema Sociotécnico
Computação e Sociedade
Dica(Resposta) Teste 1 — O desastre do Challenger — cronologia e causa institucional
- ✗ Falso — A falha específica que a comissão apontou foi a exclusão física dos engenheiros da votação final. Se eles estivessem presentes e o resultado fosse o mesmo (lançar), essa falha específica simplesmente não teria ocorrido — poderia haver outro tipo de falha de comunicação (ex.: desconsideração do alerta apesar de presente), mas não a mesma caracterizada pela comissão. O erro é tratar “mesmo resultado final” como prova de “mesma causa institucional”.
- ✔ Verdadeiro — A aula atribui a decisão de lançar, apesar do alerta, à pressão organizacional (risco político e financeiro de mais um atraso). Remover essa pressão remove exatamente o fator causal que a aula identifica como responsável por a recomendação técnica ter sido sobreposta — logo, no limite sem essa pressão, a mesma dinâmica que levou ao lançamento perderia sua força motriz.
- ✔ Verdadeiro — O mecanismo (alerta técnico/operacional documentado → decisão de gestão sob pressão que o sobrepõe → resultado ruim atribuído a falha de comunicação/organização, não só a um erro técnico isolado) não é específico da engenharia aeroespacial; é uma estrutura causal genérica que se repete em qualquer organização hierárquica sob pressão de prazo ou recursos, incluindo a saúde.
- ✗ Falso — A falha física do O-ring foi a causa proximal real da explosão — o anel realmente perdeu elasticidade no frio e vazou gases quentes. O que a comissão fez foi apontar a causa raiz institucional (por que esse componente foi autorizado a operar fora da faixa segura), não negar o papel causal físico do material. Tratar “causa raiz institucional” como “nenhum papel causal técnico” confunde dois níveis de explicação que a aula trata como complementares, não excludentes.
Dica(Resposta) Teste 2 — Coformação mútua — visão instrumental e determinista
- ✗ Falso — A frase afirma explicitamente uma via de mão dupla — nós moldamos as ferramentas, e depois elas nos moldam. Isso é incompatível com a visão instrumental pura, que trata a tecnologia como neutra e o problema como sempre humano (isto é, nega que a ferramenta module de volta o comportamento). A frase é, na verdade, a citação de abertura que a aula usa para introduzir a coformação mútua, não a visão instrumental.
- ✔ Verdadeiro — A citação de Steen (2022, p. 30) rejeita explicitamente a visão determinista (“technologies do not determine our behaviours”). Um caso hipotético de determinação absoluta e sem exceção seria, por definição, exatamente o cenário que essa visão descreve — e que a aula argumenta ser “erroneous” — não um exemplo da coformação mútua, que pressupõe uma teia de decisões com espaço para uso e apropriação por parte de quem usa.
- ✔ Verdadeiro — É exatamente a estrutura de mão dupla que define coformação mútua: o projeto técnico influencia a prática humana (hábitos de plantio) e a prática humana, por sua vez, influencia o projeto técnico (pressão política que altera a gestão hídrica) — em um domínio completamente distinto de computação ou engenharia aeroespacial.
- ✗ Falso — Rejeitar a visão determinista (tecnologia determina o comportamento) não é o mesmo que negar qualquer influência causal da tecnologia. A coformação mútua afirma que a tecnologia influencia o comportamento humano e é influenciada por ele — nega o determinismo unilateral, não a existência de influência.
Dica(Resposta) Teste 3 — O laço de coformação no caso Challenger
- ✗ Falso — O quarto elo do laço, como descrito na aula, é especificamente a remoldagem estrutural da cultura organizacional (o poder de veto dado aos engenheiros), não a punição de indivíduos. Punição individual sem mudança estrutural deixaria o mecanismo cultural que produziu a decisão original intacto — o laço, como definido na aula, não se completaria da mesma forma.
- ✗ Falso — Sem a remoldagem final da cultura organizacional, faltaria precisamente o elo que fecha o laço (o desastre voltando a afetar a cultura). Sem esse elo de retorno, a descrição correta, pela própria lógica da aula, seria uma cadeia linear (cultura causa decisão causa desastre), não um laço — já que “laço” implica especificamente o fechamento do ciclo.
- ✔ Verdadeiro — É a mesma estrutura de quatro elos aplicada a outro domínio: uma cultura institucional (pressão por notas) molda uma prática (fiscalização frouxa ou ausente), essa prática permite um evento (o escândalo), e o evento remolda a cultura/política institucional (nova fiscalização) — fechando o laço da mesma forma que no caso do Challenger.
- ✗ Falso — Identificar uma influência causal cultural sobre uma decisão não elimina a responsabilidade individual de quem a tomou — é o mesmo tipo de confusão que a aula nomeia explicitamente mais adiante (Bloco 5) como o erro mais comum ao discutir responsabilidade em sistemas sociotécnicos: “não ser o único fator” não equivale a “estar isento”.
Dica(Resposta) Teste 4 — As pontes de Robert Moses — engenharia e exclusão
- ✗ Falso — O mecanismo de exclusão descrito depende especificamente de uma dependência desigual pré-existente do ônibus (pessoas pobres e negras dependiam dele; quem tinha carro, não). Se ninguém, de nenhum grupo, dependesse de ônibus, a altura da ponte não teria como afetar diferencialmente grupo algum — o efeito exclusivo exige a desigualdade de acesso como pré-condição.
- ✔ Verdadeiro — O mecanismo depende da existência de uma população que só pode chegar às praias por ônibus. Removendo essa desigualdade de acesso por completo (todos com carro), o obstáculo físico (viadutos baixos) deixaria de discriminar entre grupos, porque não haveria mais ninguém dependente do modo de transporte bloqueado.
- ✔ Verdadeiro — Em ambos os casos, uma decisão técnica que parece neutra em si (altura de viaduto; composição de um conjunto de dados de treinamento) produz um efeito desigual porque interage com uma condição social pré-existente (dependência de transporte público; sub-representação em bases de imagens) — a mesma estrutura causal, só que em computação em vez de concreto.
- ✗ Falso — A aula não afirma que toda restrição física de infraestrutura é excludente — o ponto é que um detalhe aparentemente neutro pode embutir e reproduzir uma desigualdade social pré-existente, não que toda estrutura física baixa ou estreita o faça, nem que exija intenção deliberada (ver também o exemplo do parafuso, que dispensa intenção).
Dica(Resposta) Teste 5 — Scripts e affordances no design de objetos cotidianos
- ✗ Falso — O script/affordance não depende de um único elemento físico isolado (o parafuso); é comunicado por qualquer combinação de elementos de design — incluindo instruções explícitas no manual. Trocar o parafuso por um manual que reforça a mesma mensagem apenas muda o veículo do script, não o elimina.
- ✔ Verdadeiro — É quase definicional: um script/affordance é precisamente uma característica de projeto que prescreve o que pode ou não ser feito com o objeto. Removida por completo qualquer característica desse tipo (hipótese extrema, dificilmente alcançável na prática), não haveria mais o que prescrever nada sobre o uso.
- ✔ Verdadeiro — É a mesma lógica de restrição de acesso à manutenção codificada no próprio design físico (aqui, no formato da ferramenta necessária), transposta para o setor automotivo — um caso real e atual, próximo do debate sobre “direito ao reparo”.
- ✗ Falso — É exatamente o oposto: o exemplo do barbeador é citado na aula justamente para mostrar que identificar um script não exige provar intenção — o mecanismo pode operar por convenção, hábito ou viés inconsciente de quem projeta, sem nenhuma decisão deliberada de excluir.
Dica(Resposta) Teste 6 — A Primeira Lei de Kranzberg e quem está na sala
- ✔ Verdadeiro — É exatamente o argumento da aula sobre “quem estava na sala”: a falta de diversidade entre quem projeta é o que permite que vieses se tornem “detalhes” codificados sem questionamento; uma equipe mais atenta a essa dimensão teria mais chance de notar e questionar o script antes que ele se tornasse produto final.
- ✔ Verdadeiro — O mecanismo descrito depende de um descompasso entre a perspectiva de quem projeta e a diversidade de quem usa; no limite hipotético de identidade perfeita entre as duas populações, não haveria mais uma perspectiva “de fora” sendo negligenciada — o risco específico apresentado deixaria de ter uma lacuna para operar.
- ✔ Verdadeiro — É a mesma estrutura — a composição de quem decide o que entra no “produto” (aqui, um currículo, não um objeto físico) tende a refletir, sem necessariamente haver intenção, as omissões e pressupostos daquele grupo específico.
- ✗ Falso — É o oposto: negar a neutralidade é precisamente o que abre espaço para avaliação moral de decisões de projeto — se a tecnologia fosse neutra, não haveria base para julgar moralmente uma escolha de design; é exatamente por não ser neutra que a pergunta “quem estava na sala” passa a ter peso moral.
Dica(Resposta) Teste 7 — Atores e interessados (stakeholders) no desenvolvimento tecnológico
- ✔ Verdadeiro — A definição real da aula exige só “poder de decidir como agir e agir sobre essa decisão” — um padrão bem mais baixo que “controle total sobre o resultado”. Associações e sindicatos normalmente influenciam, pressionam e negociam, mas raramente têm controle total sobre o desfecho de um desenvolvimento tecnológico; sob a definição contrafactual mais exigente, perderiam a classificação de ator.
- ✔ Verdadeiro — A distinção entre ator e interessado, na definição da aula, é exatamente a presença ou ausência de poder de influenciar a direção do desenvolvimento. Se todo interessado tivesse esse poder, a categoria “interessado sem poder de influência” deixaria de existir, e a distinção colapsaria.
- ✔ Verdadeiro — É a mesma estrutura de papéis (quem decide e age vs. quem é afetado sem poder de decisão direta) transposta para planejamento urbano, um domínio fora dos exemplos de desenvolvimento tecnológico discutidos na aula.
- ✗ Falso — Não ter poder formal de influenciar a direção do desenvolvimento não torna os interesses do stakeholder irrelevantes moralmente — é exatamente essa lacuna (interesse sem poder) que o CTA, discutido na sequência da aula, tenta reduzir, trazendo mais interessados para dentro do processo de design.
Dica(Resposta) Teste 8 — O dilema de Collingridge e o caso do Teflon
- ✔ Verdadeiro — Uma suspeita genérica, sem meio prático de investigar o risco concreto daquele composto específico, ainda deixa a organização sem capacidade real de agir sobre o risco a tempo — o núcleo do dilema (impossibilidade prática de prever e agir com a informação disponível) permanece, mesmo com alguma suspeita teórica abstrata no ar.
- ✔ Verdadeiro — O dilema tem duas metades: (1) impossível prever no início, (2) caro corrigir depois que a tecnologia está entranhada. Se, por hipótese, o abandono nunca tivesse custo algum, a segunda metade simplesmente não teria conteúdo — não haveria nada de “caro” para reverter.
- ✔ Verdadeiro — Mesma estrutura de duas fases — impossibilidade de prever o risco de longo prazo no momento da adoção, e alto custo de correção depois que o material já está presente em milhares de edifícios ocupados — em um domínio diferente do plástico/Teflon discutido na aula.
- ✗ Falso — A afirmação inverte a lógica do próprio dilema: ele descreve especificamente a fase inicial, de imprevisibilidade genuína. Decisões tomadas depois que o risco já era conhecido (pós-2005) são exatamente as que não têm mais a desculpa da imprevisibilidade — elas deveriam, se algo, ser julgadas por um padrão mais rigoroso, não pelo mesmo padrão relaxado da fase inicial.
Dica(Resposta) Teste 9 — Constructive Technology Assessment (CTA)
- ✗ Falso — A própria definição citada na aula é explícita: avaliações do tipo CTA devem ser realizadas em paralelo ao processo de desenvolvimento e realimentar esse processo de design. Aplicado só depois da difusão plena, o CTA perderia justamente a característica que o distingue de uma avaliação tecnológica tradicional feita a posteriori — a capacidade de corrigir a rota enquanto ainda é possível fazê-lo a baixo custo.
- ✔ Verdadeiro — Uma das duas frentes do CTA discutidas na aula é “expandir a mesa” — trazer mais atores e interessados para o processo. Se, por hipótese, já não houvesse mais nenhum ator ou interessado de fora, essa frente específica não teria mais lacuna a preencher (a outra frente, expandir os valores considerados, poderia ainda ser relevante).
- ✔ Verdadeiro — É a mesma lógica de avaliação contínua e paralela, em vez de avaliação só ao final do processo, transposta do desenvolvimento tecnológico para o processo legislativo — um domínio diferente, mas estruturalmente análogo.
- ✗ Falso — A aula não faz nenhuma afirmação sobre custo do CTA superar seu benefício — pelo contrário, apresenta o CTA como resposta ao dilema de Collingridge, permitindo corrigir a rota mais cedo (o que é, na lógica da própria aula, precisamente o benefício, evitando correções muito mais caras depois que a tecnologia já está entranhada).
Dica(Resposta) Teste 10 — O feedback loop da economia da atenção
- ✗ Falso — O retreinamento continuaria reforçando os padrões de comportamento já capturados nos dados históricos, mesmo sem os elementos de design mais agressivos adicionados depois. O loop se atenuaria ao longo do tempo (menos captura de novo comportamento extremo), mas não desapareceria imediatamente, porque os dados antigos já embutem e continuam a reforçar certos padrões.
- ✔ Verdadeiro — O quarto elo do ciclo (dados alimentando o retreinamento, que reforça o projeto) é precisamente o que fecha o loop. Sem retreinamento algum, esse elo de retorno desaparece — pode ainda haver captura de atenção estática pelo design original, mas não mais um ciclo que se intensifica ao longo do tempo.
- ✔ Verdadeiro — É a mesma estrutura de ciclo fechado (projeto/algoritmo → comportamento humano → dados gerados por esse comportamento → ajuste do algoritmo com base nos dados), transposta para precificação dinâmica de transporte, um domínio diferente da economia da atenção discutida na aula.
- ✗ Falso — O loop tem dois lados que se retroalimentam mutuamente. Atribuir a responsabilidade só ao comportamento do usuário ignora que é justamente o projeto original (rolagem infinita, notificações) que induz esse comportamento em primeiro lugar — a aula é explícita: “nenhuma linha de código isolada ‘causa’ o resultado; ele emerge do ciclo contínuo”.
Dica(Resposta) Teste 11 — O paradoxo da responsabilidade (diminui/amplia)
- ✗ Falso — Essa conclusão prática depende precisamente da segunda metade da tese — a ampliação da responsabilidade por precisar considerar interessados fora da sala. Removida essa metade, restaria só o argumento que reduz a responsabilidade, sem a contrapartida que a mantém — a conclusão da aula perderia justamente sua base lógica.
- ✔ Verdadeiro — A “ampliação” da responsabilidade, na tese discutida, é precisamente a exigência de considerar interessados que não estão presencialmente na sala. Se esse engenheiro hipotético já os considerasse todos por ter conhecimento perfeito, a exigência específica de “ampliar o escopo de consideração” não adicionaria nada de novo ao que ele já faria.
- ✔ Verdadeiro — É a mesma estrutura dupla — seguir diretrizes externas dilui a responsabilidade exclusiva do urbanista, mas o dever de considerar moradores afetados que não participaram do processo formal amplia essa mesma responsabilidade — transposta do desenvolvimento de tecnologia para planejamento urbano.
- ✗ Falso — A aula rejeita explicitamente essa conclusão ao afirmar que a responsabilidade também é ampliada, e ao nomear a confusão entre “não ser o único culpado” e “estar isento” como o erro mais comum ao discutir de quem é a culpa quando um sistema falha — diluição de responsabilidade entre muitos atores não equivale a ausência total de responsabilidade individual.
Dica(Resposta) Teste 12 — Síntese da aula — do Challenger à economia da atenção
- ✗ Falso — O Challenger funciona na aula como ilustração motivadora e recorrente, não como premissa lógica da qual os outros conceitos dependem. Cada conceito subsequente é apresentado e sustentado por outras fontes e exemplos próprios (Steen, Van de Poel & Royakkers, o caso Teflon, Tristan Harris) — eles continuariam válidos mesmo sem esse caso específico de abertura, ainda que a aula perdesse um fio narrativo unificador conveniente.
- ✔ Verdadeiro — Todos esses conceitos pressupõem, em graus diferentes, a existência de outros atores ou de uma sociedade ao redor (coformação exige uma teia de decisões entre designers e usuários distintos; mapa de atores pressupõe múltiplos atores; feedback loop social pressupõe uma população de usuários; responsabilidade distribuída pressupõe outros atores). No isolamento total hipotético, a maioria desses conceitos perde a base social sobre a qual atuar.
- ✔ Verdadeiro — Esta é, de fato, a ponte explícita que a disciplina usa para a aula seguinte: a mesma lógica de “decisão aparentemente só técnica com consequência que extrapola o técnico” atravessa da aula sobre sistemas sociotécnicos para a aula sobre o custo material e ambiental de decisões de arquitetura de sistemas.
- ✗ Falso — A lente sociotécnica apresentada na aula é um acréscimo de perspectiva sobre casos em que o social e o técnico interagem de forma relevante — não uma substituição universal das explicações técnicas comuns e legítimas (bugs, escolhas de algoritmo, falhas de material). Generalizar “existe uma dimensão social em alguns casos importantes” para “toda falha é primariamente social” é o mesmo tipo de erro de generalização indevida que a aula evita ao tratar o Challenger (onde a causa raiz institucional não anula o papel causal físico do O-ring).